Não sei se mundo está maduro para substituir dólar, diz Amorim

Para ministro das Relações Exteriores, só o tempo vai dizer se criação de nova moeda mundial de reserva é viável

Nalu Fernandes, da Agência Estado,

26 de junho de 2009 | 15h44

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, avaliou nesta sexta-feira, 26, que só o tempo vai dizer se, de fato, uma nova moeda de reserva internacional mundial é viável ou se seria apenas uma discussão acadêmica. "Não sei se o mundo está maduro e se as condições concretas permitem falar em substituir o dólar pelo SDR (sigla em inglês para Direitos Especiais de Saques) ou coisa que o valha", disse, em entrevista na sede da ONU, em Nova York.

 

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A posição de Amorim parece se afastar da visão chinesa e indiana, por exemplo. Nesta sexta, a China se manifestou novamente sobre uma nova moeda de reserva, afetando os mercados financeiros mundiais. Na quinta, na sede da ONU, o ex-diretor do Comitê de Política Monetária do Banco da China (PBoC) Yu Yongding afirmou que o momento representava uma "oportunidade única" para a mudança de moeda de reserva internacional, citando como "viável" a alteração já nos estágios atuais. Em sintonia, o ex-presidente do Reserve Bank da Índia Yaga Venugopai Reddy acrescentou que "agora é relevante" a mudança.

 

O ministro brasileiro, contudo, avalia que é válida a discussão sobre uma nova moeda mundial para acumulação de reserva internacional, ao lembrar que as trocas financeiras e comerciais no mundo já se balizaram no passado por outros padrões mundialmente aceitos, como o ouro ou a libra esterlina.

 

Amorim acredita, porém, que o processo tem de ser dado em "passos seguros". "Não se pode entrar em uma aventura. Mesmo países como o Brasil ou a China têm suas reservas em moedas estrangeiras e não podem de uma hora para outra abrir mão desse valor", completou, depois de discursar na conferência da ONU sobre crise financeira global.

 

Proteção

 

O ministro afirmou que os países emergentes "precisam continuar procurando meios criativos para se protegerem das flutuações das principais moedas". Para ele, a trajetória para recuperação pode ser longa e sinuosa.

 

Na conferência sobre a crise financeira, em Nova York, Amorim destacou o posicionamento do Brasil com relação a uma nova alocação dos Direitos Especiais de Saques (SDR) do Fundo Monetário Internacional (FMI). A distribuição dos recursos dos SDRs precisa considerar as necessidades dos países em desenvolvimento, especialmente dos países mais pobres, avaliou.

 

As estruturas, que já completam 60 anos, de certos organismos na ONU e das instituições de Bretton Woods, estão antiquadas e não refletem mais a realidade econômica e política, disse no discurso feito em inglês.

 

O ministro brasileiro acrescentou que as "condicionalidades restritivas" das instituições financeiras multilaterais sobre os países em desenvolvimento precisam ser totalmente corrigidas. "Políticas contracíclicas, focando na proteção social, programas de transferência de renda, resgates de setores da indústria, educação e saúde não podem ser privilégios dos ricos. Na verdade, são os países em desenvolvimento quem mais precisa deles, o que inclui países que não estão em condições de financiar tais medidas com seus próprios meios", disse Amorim.

 

Ele voltou a afirmar que recursos para o FMI e Banco Mundial precisam ser aumentados, acrescentando que os bancos regionais de desenvolvimento precisam ser reforçados para ajudar a reconstrução de economias abatidas.

 

Amorim avaliou que a crença na autorregulação dos mercados foi uma das principais causas da crise e elogiou o esforço feito para reforçar a regulação. Sobre o Brasil, o ministro citou que o país foi afetado pela crise, mas se protegeu de alguns dos "piores efeitos". Ele atribui este fato, em grande parte, à diversificação de parceiros comerciais e ao papel do Estado, que "foi crucial".

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