"Não somos neoliberais, nunca fomos", afirma Malan

"Não somos neoliberais, nunca fomos", afirmou hoje o ministro da Fazenda, Pedro Malan, ao comentar as críticas feitas nesta manhã ao Consenso de Washington e ao neoliberalismo, no seminário internacional do BNDES. Apesar de os economistas estrangeiros não terem citado especificamente o Brasil nas suas críticas, Malan defendeu uma economia "eficiente". "Defendemos que a economia seja eficiente, tenha o Estado o tamanho que tiver".De acordo com Malan, o Consenso de Washington não foi criado pelo FMI e pelo Banco Mundial, mas pelo professor inglês John Williamson. "Foi um paper, um trabalho acadêmico, em que ele listou políticas que estavam sendo adotadas por vários países, e apresentou o trabalho em um seminário em Washington", disse Malan. O ministro afirmou que a maioria das políticas do Consenso "estão incorporadas em qualquer economia minimamente organizada e não foi imposição alguma", disse. E questionou: "Qual é o problema de que os países estavam vendo um consenso maior na responsabilidade fiscal?". Ele citou também, entre outros pontos do Consenso, o respeito a contratos, ainda questionando por que isso seria um problema. "Acho que associar isso ao neoliberalismo é um erro".Malan comentou a defesa de uma política industrial feita pelos economistas presentes e disse que o BNDES já faz essa política e que é "perda de tempo definir o que é isso". "O nome aqui não é importante, mas sim uma política eficiente de investimentos", disse o ministro. "Quando o BNDES empresta R$ 28 bilhões, está fazendo política de investimento. Se quiser fazer política industrial, que o faça. Queremos um Estado eficiente." Malan criticou, entretanto, políticas do passado que emprestavam dinheiro a empresários com taxas de juros bem inferiores à inflação, criando até mesmo, segundo ele, "o gosto" das empresas pela política inflacionária.Despesa pública brasileiraMalan afirmou também que há um consenso entre os economistas sobre a vulnerabilidade externa. Há outra questão que, de acordo com ele, é mais complicada e tão importante quanto esta, que é a estrutura fiscal. Repensar a estrutura da despesa pública brasileira é um debate que, segundo o ministro, será inevitável no futuro. "Sei que em época eleitoral não é o melhor momento. Mas algum futuro governo terá que tratar do assunto", disse, parafraseando o final do livro do economista Joseph Stiglitz, "porque não há alternativa".Stiglitz, ganhador do prêmio Nobel de economia do ano passado, criticou o Consenso de Washington no painel de hoje, em que Malan foi moderador. Ele também critica o Consenso em seu livro "A Globalização e seus Malefícios", e atribui o Consenso ao FMI, ao Banco Mundial e ao Tesouro dos Estados Unidos, dizendo que suas políticas, de maneira geral, não trouxeram bons resultados. Quando Malan tomou a palavra para encerrar o painel e defender o Consenso, Stiglitz já havia deixado o auditório do BNDES.Retomada do créditoO ministro disse que já estão sendo observadas mudanças de comportamento em várias instituições financeiras no que diz respeito ao prazo e "alguma retomada" do crédito após a sua viagem e a de Armínio Fraga, do Banco Central, para contatos com investidores e instituições financeiras internacionais. Questionado em entrevista sobre quando as linhas de crédito retornarão, o ministro respondeu que "já estão (retornando)". Malan considerou a viagem que fez à Europa "muito positiva". O ministro disse que chegou esta manhã de Paris e que foram produtivos os contatos com investidores diretos, presidentes de Bancos Centrais e administradores de fundos, além de outras autoridades em diversos países na Europa. "Avisei antes de sair do Brasil que seria ingenuidade imaginar que no dia seguinte as linhas reapareceriam aceleradamente", afirmou. ?Tão importante quanto a retomada do crédito é a oportunidade de explicar porque temos confiança no Brasil e no grau de racionalidade política e econômica do País". Gastos públicosMalan disse que o próximo governo terá que tratar apropriadamente da questão dos gastos públicos do País caso queira fazer uma política fiscal "tal como se entende em qualquer parte do mundo". Segundo Malan, as eleições tornam o momento atual pouco apropriado para essa discussão, mas apenas quatro grupos de compromissos respondem hoje por 85% do total de gastos do governo. São eles os benefícios da Previdência, as despesas com pessoal e encargos, transferência para Estados e municípios e toda a parte de gastos vinculados a determinações constitucionais e legais. "Estou dizendo que essas questões não são triviais e dependem de discussões com o Congresso, governadores e prefeitos. Não são passíveis de resolução com simples exercício de vontade ou atos voluntaristas de quem quer que esteja no poder", disse.O ministro concedeu entrevista à imprensa após participar da programação da manhã do seminário internacional "Novos Rumos do Desenvolvimento".

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