Daniel Teixeira/ Estadão
José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados Daniel Teixeira/ Estadão

'Não tem como ter recuperação sem a vacinação', diz Mendonça de Barros

Economista afirma que segunda onda da covid ‘atropelou’ início de reativação da economia, no fim do ano passado

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

O aumento de casos de covid-19 e a perspectiva de que a oferta de doses de vacina será intermitente são sinais de que a economia não se fortalecerá neste primeiro semestre. Na avaliação do economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados, a economia está mais debilitada do que se esperava e, diante desse cenário, a falta de imunizantes é ainda mais preocupante. “Não tem como ter recuperação sustentada se não for precedida de vacinação em massa que permita reduzir o distanciamento social para sempre”, diz. 

A MB projeta um crescimento de 2,6% para o PIB – “um resultado muito fraco depois do que passamos no ano passado”, diz Mendonça de Barros. Por enquanto, porém, nem esse desempenho pífio está garantido. “Olha a situação limite de Manaus. Mesmo não querendo, foi preciso um lockdown. São Paulo também voltou com restrições maiores.” 

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como avalia o ritmo de vacinação no Brasil e seus efeitos na economia?

Essa segunda rodada do vírus no Brasil e em outros lugares do mundo é que levou todos os ‘stakeholders’ a chegarem à conclusão de que não tem como ter recuperação sustentada se não for precedida por uma vacinação em massa que permita reduzir o distanciamento social para sempre. Caso contrário, você começa a reduzir o distanciamento, tem recaída e, aí, precisa fechar (os estabelecimentos comerciais) de novo. Então, a primeira coisa é que tem de ter vacina. A segunda é que estamos, lamentavelmente, atrasados na aquisição das vacinas e diante de um risco de a oferta de doses ser intermitente. Se você pegar os EUA, a Europa ou Israel, há a perspectiva de que, até julho, o mínimo crítico (da população) de risco já esteja vacinada. A expectativa é de queda forte no número de internações e de óbitos e de que, ao longo do verão, os serviços possam voltar a crescer. No Brasil, nós estamos atrasados nas compras e nas entregas de vacinas. No ano passado, os gastos (públicos) ajudaram a dar início à recuperação da economia. Essa recuperação foi atropelada pela segunda rodada do vírus. Isso vai fazer com que, no primeiro trimestre, a economia esteja muito mais devagar, porque temos novas medidas de distanciamento. Até a indústria, que estava melhor, deve cair nesse primeiro trimestre. 

Com o ritmo atual de vacinação, é possível ter pelo menos um segundo semestre melhor?

Mesmo que a vacina esteja atrasada, o segundo semestre deve ser melhor. Ainda assim, projetamos para o ano 2,6% (de crescimento no PIB). É um resultado muito fraco depois do que passamos no ano passado. O primeiro trimestre enfraqueceu muito. É quase garantido que ainda vai haver uma discussão para o Orçamento e, saindo alguma coisa de auxilio emergencial, será em março. Isso significa que a demanda vai ser mais fraca até lá. Outra coisa que chama a atenção é o problema da oferta. Viramos o ano com mais de 200 mil carros encomendados que não foram entregues por causa de falta de algum componente. De motocicletas, foram 150 mil. E esse caso é ainda pior, porque as fábricas estão em Manaus e foram fechadas. Está faltando caixa de papelão e embalagens de vidro. A oferta não está conseguindo voltar com a velocidade que poderia. Isso joga a produção para baixo. Além disso, se olhar a inflação, além do custo de alimentação e energia, as matérias-primas industriais estão pressionando os preços. O primeiro trimestre será bem problemático. O segundo, por melhor que seja, será fraco. As projeções para o ano não apontam nada de especial. O mercado em geral estava mais otimista com 2021 e estamos vendo muita gente revisando as estimativas para baixo. 

No cenário de alta de 2,6% do PIB, a MB já considerava que a vacinação demoraria?

A vacinação especificamente não, mas, em dezembro, tínhamos certeza do recrudescimento da covid. A proporção da limitação na oferta da vacina só ficou clara no começo do ano. Mas a percepção de que, sem vacinação, não tem jeito também já tínhamos em 2020.

Dado que vocês não imaginavam a demora para vacinar a população, há um viés negativo para a estimativa de PIB de 2,6%?

Claro. Olha a situação limite de Manaus. Mesmo não querendo, foi preciso fazer um lockdown. São Paulo também voltou com restrições maiores. Quem sofre mais com isso é o serviço, a viagem, o lazer, o turismo. Não haverá recuperação em V. Em maio e junho de 2020, na comparação com abril, quando estava tudo parado, as taxas de crescimento em diferentes segmentos da economia eram enormes e simulavam uma letra V. Mas isso não vai se sustentar.

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Atraso em vacinação contra covid-19 deve custar pelo menos R$ 150 bi ao PIB do País em 2021

Segundo cálculo da consultoria LCA, caso 70% dos brasileiros fossem vacinados até agosto, a economia poderia crescer 5,5%; mas, com esse patamar de imunização previsto só para dezembro, avanço deve ser reduzido em 2 pontos porcentuais

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

A lentidão e a desorganização no programa nacional de vacinação contra a covid-19 vão retirar pelo menos dois pontos porcentuais do Produto Interno Bruto (PIB) do País em 2021. Segundo cálculos do economista Bráulio Borges, da consultoria LCA, caso 70% da população recebesse a vacina até agosto, a economia brasileira cresceria 5,5% neste ano. Se a vacinação atingir esse patamar apenas em dezembro – hipótese que hoje já é considerada otimista –, o crescimento do PIB deve ficar entre 3% e 3,5%. Nesse cenário, o País deixará de movimentar R$ 150 bilhões.

Borges também traçou uma hipótese otimista: estimando o impacto de uma vacinação mais ágil na economia, em um ritmo semelhante ao de Israel – país mais avançado na imunização contra o novo coronavírus. Nesse cenário, 70% seriam vacinados até junho, permitindo que as medidas de distanciamento social fossem relaxadas e garantindo o retorno de atividades em que há aglomeração. O PIB poderia, nesse caso, avançar 7,5%, um incremento de R$ 260 bilhões.

O crescimento de 3% a 3,5% esperado para a economia no pior dos cenários (com a maior parte da população vacinada até o fim do ano) pode parecer positivo, dado que a última vez que o País avançou 3% foi em 2013. Na prática, porém, significará que a economia passou o ano todo estagnada. Isso decorre do que os economistas chamam de “carrego estatístico” – quando a base de comparação é baixa (o resultado médio do PIB em 2020), mas o ponto de partida é elevado por conta da recuperação ao longo do último semestre do ano.

A alta de 3,5% também significará que o País terá, no fim de 2021, um PIB 1% abaixo do registrado em 2019. A economia per capita terá um resultado ainda mais negativo: 2,5% inferior ao de 2019. “Esses cálculos são um exercício simplificado que mostra como podemos ter um crescimento econômico se andarmos mais rápido com a vacinação, o que hoje parece uma realidade bem distante”, afirma Borges.

Por enquanto, a LCA projeta que o PIB ficará nos 3,5% neste ano. Mas Borges reconhece que talvez a realidade “seja ainda pior que esse cenário ruim”.

A Tendências Consultoria é mais pessimista e estima um PIB de 2,9%. “Nossa projeção é cautelosa porque já tínhamos uma preocupação com o quadro pandêmico e não tínhamos a perspectiva de que haveria um movimento de vacinação afetando parte relevante da população no primeiro semestre. Outra preocupação é com a situação fiscal”, diz a economista-chefe da consultoria, Alessandra Ribeiro.

Classificação de risco do Brasil

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, afirma que há inclusive um risco de o Brasil ter sua classificação de risco novamente rebaixada por causa do atraso na imunização. “Há um risco indireto porque, à medida que não temos uma vacinação em massa, a confiança dos agentes econômicos cai. As pessoas também ficam mais em casa e isso afeta um componente que é analisado para determinar o risco, que é o PIB.”

A economista Zeina Latif  alerta que a perda de doses de vacinas, como tem sido verificado em algumas cidades por problemas técnicos, e a eficácia de 50% da Coronavac, que está sendo produzida no Instituto Butantan,  fazem com que seja mais difícil atingir a imunidade de rebanho. “Esse fator de incerteza vai pesar em 2021. Ainda vamos passar um bom tempo com limitações para a atividade econômica. E o setor de serviços é o mais impactado pela pandemia, além de ser o que tem maior peso no PIB. Acho difícil a gente não ter decepções com a economia.”

Segundo estimativa do Ministério da Saúde, a vacinação deve levar “até 12 meses após a fase inicial”. Isso, no entanto, dependerá “do quantitativo de vacinas disponibilizadas para uso”. A epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações por oito anos, lembra, porém, que já houve atrasos no recebimento das primeiras doses de imunizante e que não é possível ter certeza de que o prazo será cumprido. “Mesmo quem comprou as vacinas antecipadamente está com problema (para recebê-las). Imagina quem não comprou. Esse vai para o fim da fila, porque a demanda mundial é muito grande.”

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Falta de sincronia na imunização contra o coronavírus afetará economia global

Se vacinação não ocorrer de forma equilibrada entre os países, mundo pode perder até US$ 9,2 trilhões, diz ICC

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

Se os países emergentes não tiverem acesso às vacinas contra a covid-19, o mundo todo pode perder US$ 9,2 trilhões em decorrência do desaquecimento do comércio internacional e de rupturas nas cadeias de produção, de acordo com levantamento da Câmara Internacional do Comércio (ICC), principal organização privada do mundo a promover o comércio internacional. Países ricos com economias mais abertas e muito conectadas com outros mercados, como Bélgica e França, estariam entre os mais afetados.

“Existe uma corrida para conseguir se vacinar e não há preocupação para olhar a vacinação de forma coordenada no mundo. Isso vai custar também para os países ricos. É importante para a retomada global que a vacinação ocorra de forma mais equilibrada entre os países”, diz a diretora executiva do ICC Brasil, Gabriella Dorlhiac.

Um projeto liderado pela Organização Mundial da Saúde, pela Comissão Europeia, pela França e pela Fundação Bill & Melinda Gates aponta que são necessários US$ 38 bilhões para prevenir e tratar de pacientes com covid globalmente. “Falta levantar US$ 27 bilhões para conseguir as doses de vacinas necessárias para os países menos desenvolvidos. Isso não é nada em comparação ao custo que os países mais ricos terão em perdas de comércio”, acrescenta Gabriella.

Perda local

O Brasil também sofrerá com a falta de coordenação internacional nos programas de imunização. Segundo o estudo do ICC, o País pode perder até 12% do Produto Interno Bruto (PIB) caso outros emergentes vacinem suas populações de forma muito gradual e suas atividades não possam ser completamente retomadas neste ano.

A pesquisa considera um cenário em que apenas 50% da população dos emergentes será vacinada até o fim de 2021, enquanto, nos países ricos, todos serão imunizados no começo deste ano. Também parte do pressuposto de que as economias são conectadas e de que, no caso em que o Brasil pode perder até 12% do PIB, o País não conseguiria substituir importações ou exportações.

O ICC Brasil estimou ainda um cenário mais delicado, em que os emergentes não conseguem vacinar nem 50% de suas populações e que, para controlar a pandemia, precisam manter as medidas de distanciamento social durante todo o ano. Nesse caso, a perda no PIB chegaria a 18,3%.

Para o economista Bráulio Borges, da consultoria LCA, além de o País perder com essas eventuais rupturas nas cadeias produtivas e no comércio internacional, também pode ter prejuízo porque os investidores devem correr para os mercados ricos, onde a vacinação avança mais rapidamente.

“Ajudaria o Brasil se a vacinação global fosse sincronizada. Com essa falta de sincronia, os EUA podem crescer muito e atrair mais capital. Isso mantém nosso câmbio depreciado, o que leva o Banco Central a subir a taxa básica de juros. Os investimentos ficam mais caros”, diz Borges.

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Para setor de turismo, imunização da população é ‘única saída’ para a economia

Azul espera vacinação do grupo de risco até junho; presidente da CVC diz que imunização tem de ser foco de ‘todo mundo’

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

Agilizar a vacinação contra a covid-19 no País é essencial para a recuperação da economia, sobretudo em setores que sofrem mais com o distanciamento social, como o de eventos e o de turismo, de acordo com executivos de grandes empresas da área. “Sem vacina, a retomada não acontece”, diz John Rodgerson, presidente da companhia aérea Azul.

Rodgerson trabalha com a hipótese de que a população de maior risco será vacinada no primeiro semestre, o que permitirá um fim de ano mais animador. Ainda assim, projeta que a aviação comercial levará até quatro anos para se recuperar.

Para o presidente da CVC, Leonel Andrade, a vacina é a “única saída”. “Todo mundo deveria estar 100% focado nisso, entidades públicas e privadas.” Andrade afirma que, enquanto os brasileiros não estiverem vacinados, a incerteza será grande no País, o que impedirá investimentos significativos. “Até estarmos imunizados e nos sentirmos seguros, dificilmente vamos conseguir uma retomada forte.”

A preocupação de grandes empresários com o risco de o atraso na vacinação travar a economia em 2021 ficou evidente nos últimos dez dias, quando se tornaram públicas as tentativas de compra de imunizantes da Oxford/AstraZeneca por um grupo de executivos e líderes de associações de diferentes setores. “Isso começou com uma questão humanitária. Tem mil pessoas morrendo por dia. Depois, tem também a questão econômica, porque, sem economia, o problema volta a ser de vida. As pessoas ficam sem dinheiro para comer”, afirma um executivo envolvido nas negociações de compra de vacina.

A AstraZeneca nega a existência de conversas para a venda à iniciativa privada. O fundo de investimentos Blackrock, acionista do laboratório, alertou, na semana passada, para supostos esquemas ilegais de comercialização de imunizantes.

Segundo o executivo, porém, as negociações continuam e, após a aquisição, dois terços das doses serão doados para o SUS. O restante será destinado aos funcionários das empresas. Ainda de acordo com ele, os imunizantes que estão em negociação não estariam disponíveis para o Brasil se não fosse a iniciativa privada.

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