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‘Não temos saída a não ser consumir’, diz argentino

Valor de carro usado sobe 25 mil pesos em 2 anos

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2013 | 02h04

O cineasta Martin Viaggio está entre os argentinos que, sem a opção de guardar dinheiro em banco, viram-se obrigados a tentar proteger seu padrão de consumo comprando bens. Ele diz que, como não dá para deixar o dinheiro parado, vale mais a pena gastar em qualquer coisa, seja em um automóvel ou mesmo em um eletrodoméstico.

Mesmo carros usados podem ser um bom negócio, considerada a difícil situação atual do país. "Comprei por 80 mil pesos e vendi, dois anos depois, por 105 mil", lembra Viaggio. Ele admite que o ganho não foi suficiente para compensar toda a inflação do período, mas pelo menos "estancou" o prejuízo, que seria maior se ele tivesse aplicado o dinheiro no banco. "Hoje ninguém realmente economiza na Argentina. Simplesmente vivemos o dia a dia."

Para José Lopes Vazquez, consultor e autor do livro Comércio Exterior Brasileiro, buscar formas criativas de investimento é uma atitude comum em tempos de instabilidade econômica. Segundo Vazquez, o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) já pôs em dúvida os números oficiais de inflação e câmbio divulgados pelo governo argentino. A busca de opções pouco ortodoxas de investimento mostra que a população está usando a mesma lógica. "O carro acaba sendo uma alternativa, pois tem mais liquidez do que o imóvel, por exemplo", diz Vazquez.

O Estado conversou, ao longo dos últimos dias, com alguns consumidores argentinos que admitiram ter usado a compra de um carro de alto valor como forma de proteger o patrimônio. Foi o que fez um médico de Buenos Aires, que pediu para não ser identificado por receio de ser investigado pela Receita Federal do país, uma vez que a intenção do governo é evitar que as pessoas guardem dólares em casa. "Todo mundo que tem um pouco mais de dinheiro, que tem condições de guardar, está aproveitando para comprar carros em condições vantajosas", diz um executivo de uma empresa portenha, que também pediu para não ser identificado na reportagem.

Hora de viajar. A obrigação das concessionárias de usar a taxa de câmbio oficial ao transformar o valor dos veículos em pesos não é o único fator que incentiva os argentinos a consumir. Segundo Martin Viag- gio, os argentinos que têm condições de viajar para o exterior estão aproveitando o momento, já que as operadoras de cartão de crédito também têm de converter os gastos feitos em moeda estrangeira pelo dólar a 5,70 pesos. Assim, o gasto no cartão, quando convertido em moeda local, fica bem mais baixo.

Para o cineasta, a inflação argentina não é maior porque o governo vem segurando os preços administrados. "Junto com a conta, vem uma mensagem de que a tarifa é subsidiada pelo Estado", conta Viaggio. "Mas a gente sente que os gastos cotidianos, com comida e roupa, sobem mais de 20% ao ano."

(Colaborou Angelo Schincariol)

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