Christina Rufatto/ Estadão
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Não temos um 'general' na guerra contra a crise econômica, diz sócio da Tendências

Economista diz que, apesar da falta de liderança política, o País tem bases institucionais fortes e técnicos qualificados na área econômica, o que é positivo no momento de crise

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 15h00

BRASÍLIA - A falta de liderança política na Presidência da República é o principal problema do Brasil na guerra contra os efeitos do novo coronavírus na economia. A opinião é do economista Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria Integrada, uma das principais consultorias econômicas do País.

Com décadas de experiência no mercado de câmbio brasileiro, Blanche avalia, por outro lado, que o País tem bases institucionais fortes e técnicos qualificados na área econômica, o que é positivo neste momento de crise.

Apesar de ver o País com uma situação confortável em seu balanço de pagamentos, Blanche alerta para as dificuldades na área fiscal. Segundo ele, o governo será obrigado a elevar sua dívida interna para conter os efeitos da pandemia, o que aumenta o risco de insolvência. “Neste cenário, o investidor estrangeiro vai embora ou não entra mais. Sem captar investimento de fora, o Brasil não cresce”, pontuou.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o senhor avalia a crise econômica provocada pelo novo coronavírus?

O cenário piorou significativamente. A crise tem um efeito de destruição de riqueza e de vidas. É uma guerra em que o inimigo é invisível, porque não temos dados. A crise vai durar um mês, dois meses ou três meses? Não sabemos. A retração, tanto do lado da oferta, quanto do lado da demanda, é incalculável. O mundo esperava crescer 3,5%, mas hoje já se fala no máximo em 2%. No Brasil, o crescimento de 2,4% passou para retração.

O Brasil está pior que outros países?

Não. O nosso principal problema nesta guerra – e a gente já vinha convivendo com ele – é que não temos um “general”. Não temos uma liderança política com experiência e capacidade de comandar a Presidência. De outro lado, a base das instituições no Brasil é muito forte. Temos hoje uma competente equipe no Ministério da Economia, principalmente no Tesouro Nacional, que é comandado pelo secretário Mansueto Almeida. E temos no Banco Central uma equipe muito competente do ponto de vista técnico e acadêmico. Mas houve aquela passeata...[No dia 15 de março, o presidente Jair Bolsonaro deixou o isolamento e participou de ato pró-governo em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília. O ato teve teor crítico ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal (STF), criando um embaraço entre os Poderes.]

Em outro episódio, o deputado federal Flávio Bolsonaro culpou a China pela pandemia.

Isso é brincadeira. Para quê? Qual é o impacto disso?

Faltou sensibilidade?

Para atração do investidor internacional, foi péssimo. E o Brasil não cresce sem dois fatores externos: investimento e importação de tecnologia.

Quais os impactos da pandemia para a balança comercial e para o balanço de pagamentos? As reservas internacionais ainda garantem uma situação confortável? 

Não existe reserva inacabável. Mas o Brasil, em termos de fundamentos externos, de liquidez de balança de pagamentos, não corre tantos riscos. Enquanto os países com investment grade (grau de investimento) têm em torno de 45% na relação entre reservas internacionais e dívida externa total, o Brasil tinha cerca de 120%. Ou seja, temos uma super reserva ainda hoje. O CDS do Brasil triplicou em 30 dias, mas isso é por uma questão fiscal. [As reservas internacionais do Brasil estão hoje próximas dos US$ 345 bilhões. Já o Credit Default Swap (CDS) do Brasil, que girava abaixo dos 100 pontos em fevereiro, chegou a superar os 370 pontos na semana passada, em meio ao avanço da pandemia. O CDS funciona como uma espécie de seguro em caso de insolvência de um país.]    

Se não existem reservas inacabáveis, a situação não é absolutamente tranquila...

Sim, mas isso não é o fator que aumentou o prêmio de risco. O que elevou o prêmio de risco foi a condução da política interna, inclusive entre as instituições, entre os Poderes. Agora, sem dúvida a crise terá um impacto importante na balança comercial, que é nossa principal fonte de financiamento externo. Em 2019, o superávit da balança comercial foi próximo de US$ 50 bilhões. Hoje, em um cálculo otimista, ele será de US$ 35 bilhões.

Por que o resultado das contas públicas preocupa? 

Na média dos países com investment grade, a dívida bruta não chega a 40% do Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, estava em 76% antes da crise. Agora, o momento é de injetar recursos na economia e é claro que vamos ultrapassar os 80%.   

Por que isso é um problema?

Se o Brasil tivesse as contas internas equilibradas, nosso prêmio de risco estaria na média dos países com investment grade. O Brasil tem um risco de insolvência. Neste cenário, o investidor estrangeiro vai embora ou não entra mais. E sem captar investimento de fora, o Brasil não cresce. Somente quando o País voltar a fazer as reformas econômicas o problema vai diminuir. Porque os investidores poderão calcular que a trajetória da dívida é de equilíbrio. Neste caso, o dólar voltará para os R$ 4.     

O cenário de reformas é difícil de visualizar neste momento, quando a economia precisa de recursos.

O governo terá que aumentar sua dívida interna. Esta é a função do governo, que é o único emissor de moeda.

O Banco Central, desde o início da crise, tem atuado no mercado de câmbio, via swaps cambiais (contratos que equivalem à venda no mercado futuro) e venda à vista de dólares. Em algumas operações à vista, no entanto, a venda de moeda tem sido pequena. O que está acontecendo? 

O BC entrou no mercado quando houve desequilíbrio. E entrou na ponta certa [venda de moeda estrangeira]. Hoje, a demanda é muito mais por hedge [contratos de swap, que dão proteção em caso de alta do dólar] do que por moeda à vista.

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