DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Não tenho apego ao cargo, mas não saio na primeira derrota, diz Guedes ao Senado

Em audiência pública nesta quarta-feira, 27, o ministro da Economia admitiu que o BPC e a aposentadoria rural podem ser retirados de texto da reforma; Guedes reclamou de 'tiros nas costas' que tem levado de integrantes do partido do presidente

Idiana Tomazelli e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 20h37

BRASÍLIA - Com a articulação pela reforma da Previdência na berlinda e um dia após ter sofrido derrota na Câmara (com aprovação de proposta que engessa ainda mais o Orçamento), o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que não tem apego ao cargo e que pode sair, caso veja que nem o presidente Jair Bolsonaro nem o Congresso apoiam as medidas de sua equipe. Porém, diz que está disposto a insistir. “Não terei a irresponsabilidade de sair na primeira derrota”, avisou.

Em um debate de cinco horas na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Guedes admitiu que “o principal opositor do governo é ele mesmo” e reclamou dos “tiros nas costas” que tem levado de integrantes do PSL, partido de Bolsonaro e com a maior bancada da Câmara dos Deputados, 54 deputados. Nos últimos dias, integrantes da legenda têm disparado críticas à proposta de reforma dos militares e à articulação do governo.

Ele atribuiu aos “tiros” da própria base aliada a decisão de adiar sua participação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, justamente a primeira parada da reforma da Previdência. A audiência, prevista para terça passada, acabou ficando para 3 de abril.

“Às vezes você avança 10 metros e quando você vê levou um balaço de gente que é nossa, mesmo. Aí o cara dá um tiro, eu falo 'peraí', estava esperando do adversário e de repente vem um balaço do meu lado aqui. Então de vez em quando eu fico nervoso”, reclamou o ministro.

Diante das incertezas em torno da reforma da Previdência, Guedes disse que está no governo para apresentar suas ideias, mas não brigará para ficar no cargo. Embora confiante na aprovação da proposta, ele deu o recado de que tem uma vida fora do governo.

“Se o presidente apoiar as coisas que eu acho que podem resolver para o Brasil, eu estarei aqui. Agora, se, ou o presidente, ou a Câmara ou ninguém quer aquilo, eu vou obstaculizar o trabalho dos senhores? De forma alguma. Eu voltarei para onde sempre estive”, disse. “Acho que tenho algumas ideias interessantes. Aí o presidente não quer, o Congresso não quer. Vocês acham que vou brigar para ficar aqui? Eu estou aqui para servi-los. Se ninguém quiser o serviço, vai ser um prazer ter tentado.”

Reclamações

Na CAE, Guedes ainda ouviu reclamações de senadores que afirmaram não ter interlocução com a principal autoridade econômica do governo. O clima do debate também esquentou quando a senadora Kátia Abreu (PDT-TO) interrompeu o ministro durante uma fala sobre aposentadoria de políticos. “A senhora terá o seu horário”, rebateu Guedes, o que foi compreendido por outros senadores como falta de respeito à senadora, gerando reação imediata no plenário. Ele pediu desculpas ao fim da audiência.

Apesar de alguns embates, assessores do ministro avaliaram que a participação na CAE do Senado foi positiva e serviu de teste para a batalha que será travada na semana que vem, na CCJ da Câmara. A expectativa, porém, é encontrar um ambiente menos conflagrado do que nesta semana.

A presença de Guedes no Senado não foi suficiente para reverter o mau humor do mercado financeiro, que começou o dia influenciado pela derrota do governo com a aprovação da proposta que engessa ainda mais o Orçamento. O Ibovespa, principal índice da B3, fechou em queda de 3,57%, em 91 mil pontos. O dólar subiu 2,24%, para R$ 3,9543 – maior cotação desde 1º de outubro do ano passado.

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