'Não tenho dinheiro para pagar o aluguel'

Vínculo com gerentes aproximou investidores 'comuns' dos fundos do Cruzeiro do Sul

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h08

Os lances inesperados da vida fizeram do microempresário Antonio Augusto Lopes da Costa e Silva, 63 anos, uma pessoa previdente. A perda de um filho de 19 anos em um acidente de automóvel levou-o a agir como se o mesmo pudesse acontecer com ele a qualquer momento.

Em termos financeiros, a cautela significou um esforço hercúleo para acumular o mais rapidamente possível uma poupança que garantisse a sobrevivência de outro filho. Antonio Augusto como o pai, o rapaz de 27 anos é portador de um tipo de deficiência semelhante ao autismo.

"Eu e minha mulher guardamos tudo o que pudemos para garantir o futuro dele quando não estivermos mais aqui", conta. Tudo, neste caso, são quase R$ 2 milhões, aplicados em um dos dois fundos de investimento em participações (FIP) do banco Cruzeiro do Sul. Há suspeitas de que os fundos não tenham ativos suficientes para honrar as aplicações dos investidores.

O microempresário relata que chegou ao Cruzeiro do Sul por intermédio de um gerente que, há anos, é amigo da família. "Jogamos bola juntos todas as quartas-feiras", diz ele, frisando que a rotina se mantém. "Ele não tem culpa. Como nós, tinha dinheiro nos fundos."

Um vínculo afetivo também aproximou a aposentada Luísa Domingues Marques de Oliveira, 79 anos, do Cruzeiro do Sul. "O melhor amigo do meu filho era gerente do banco", conta. "Quando tudo aconteceu, ele veio em casa e, chorando, disse que tinha vergonha. Mas não precisa ter vergonha, ele também não sabia."

Tamanha confiança no rapaz fez dona Luísa aplicar no banco o dinheiro da venda do apartamento que havia recebido de herança do marido. Pouco antes da intervenção do Banco Central (BC) no Cruzeiro do Sul, eram cerca de R$ 350 mil.

"Era o dinheiro que complementava minha renda. Sou aposentada e recebo pouco mais de R$ 600 por mês", afirma. Com a quebra do banco, os três filhos passaram a ajudar no orçamento. "Mas eles não vivem à larga. São pessoas que têm seus compromissos, suas famílias."

Até então, a voz de dona Luísa se mantém firme. O tom muda quando ela começa a falar do aluguel do apartamento em que mora, na região do estádio do Morumbi, em São Paulo. "Não sei como pagar o aluguel do mês. O senhor entende? Tenho também os remédios de uso contínuo."

Assim como dona Luísa, a bibliotecária aposentada Cecília de Castro Gil, de 71 anos, mantinha no Cruzeiro do Sul um dinheiro para complementar a renda mensal. O último extrato apontava R$ 189 mil. "Para piorar a situação, meu marido é piloto aposentado da Varig. E você sabe a confusão que está nesse negócio do fundo Aerus", diz.

Ela refere-se ao fundo de pensão que sofreu intervenção em 2006 por insuficiência patrimonial. De lá para cá, os benefícios foram reduzidos. Nas últimas semanas, os aposentados têm protestado contra uma decisão da Justiça que revogou a obrigatoriedade de a União arcar com os benefícios.

Antonio Augusto, Luísa e Cecília estão entre as pessoas que formam a associação que tenta, na Justiça, reaver ao menos parte do dinheiro. Todos sabem que será difícil, mas não dão mostras de que desistirão. "Sou sempre otimista, apesar de tudo", diz Luísa. "Espero que a Justiça seja feita", completa Cecília.

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