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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

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Fábio Alves
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Não vai parar mesmo, Copom?

Um fator relevante para o comitê é a trajetória fiscal do País a partir de 2021

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 04h00

Ninguém está esperando um novo corte da taxa Selic na próxima reunião do Copom, marcada para a semana que vem, mas há uma expectativa grande no mercado se, na mensagem do comunicado que acompanhará a decisão, o Banco Central deixará a porta aberta para uma redução adicional e residual dos juros mais adiante, talvez em outubro.

Com a recente piora do risco fiscal e maior instabilidade do ambiente político, os investidores passaram a embutir nas taxas dos contratos futuros de juros uma elevação da Selic já neste ano, mas o debate que realmente importa neste momento é um só: se ainda há espaço para um corte final ou, caso contrário, por quanto tempo o Copom deixaria a taxa básica inalterada.

É bom lembrar que, na sua última reunião, o Copom deixou claro que os juros já haviam caído para um patamar baixo suficiente com risco de gerar uma instabilidade financeira e que, portanto, se realmente houver mais um corte, esse seria pequeno.

E também sinalizou que não “antevê reduções no grau de estímulo monetário, a menos que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, estejam suficientemente próximas da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária”, o qual inclui 2021 e, em menor grau, 2022. Ou seja, os juros não devem subir tão cedo, conforme esse recado.

Assim, o ponto importante da reunião da próxima semana é como o Copom vai atualizar sua visão sobre esses dois pontos acima diante de todos os acontecimentos que ocorreram desde a sua última decisão, em 5 de agosto.

De lá para cá, os indicadores de atividade econômica e a inflação vêm surpreendendo para cima. A produção industrial cresceu 8,0% em julho ante junho, enquanto o consenso das estimativas era de alta de 5,9%. Já o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) subiu 0,53% em agosto, acima da mediana das projeções, de alta de 0,50%.

Todavia, esses indicadores recentes da economia e da inflação devem ser minimizados pelo Copom, que vai focar no tal horizonte relevante de política monetária: os próximos 12 a 18 meses.

Até porque, entre as razões para a melhora da atividade, o efeito principal foi o auxílio emergencial de R$ 600 pago em cinco parcelas – e que será prorrogado por mais quatro meses ao valor de R$ 300 –, o que segurou a renda de milhões de brasileiros num momento em que as medidas de distanciamento social para conter a pandemia do coronavírus provocaram destruição de empregos. Ou seja, a retomada mais forte da economia em julho e agosto poderá não se sustentar se o estímulo fiscal, via transferência de renda, for menor em 2021.

Já a aceleração na inflação tem se concentrado na alta dos preços de Alimentação, grupo que, no IPCA-15 de agosto, acumulou alta de 7,96% em 12 meses. Quando sofrem um choque para cima, habitualmente esses itens da inflação revertem à média, ou seja, a alta de preços volta depois. Apesar da aceleração recente da inflação, em particular de alimentos, lá na frente – provavelmente no horizonte relevante para o Copom – esses preços terão um pressão de baixa.

Nesse debate, um fator cada vez mais relevante para o Copom é a trajetória fiscal do País a partir de 2021. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que, neste momento, “o fiscal é piloto e a política monetária, o passageiro”. Apesar do nervosismo recente dos investidores, os fatos até agora são: o teto de gastos foi respeitado no projeto de lei orçamentária para 2021 enviado pelo governo ao Congresso, apesar de sua credibilidade questionada pelos investidores, por não incluir gastos com o programa Renda Brasil, cujo benefício ainda está para ser definido. Além disso, o governo enviou a reforma administrativa.

Por enquanto, o cenário de trabalho do Copom é de um impulso fiscal contracionista, pois a projeção do mercado é que o déficit primário cairá de 11,7% do PIB neste ano para 2,6% em 2021. Somando-se a isso, a esperada perda de fôlego da atividade econômica, com a contração fiscal projetada para 2021, e uma pressão baixista da inflação mais adiante, a expectativa agora é saber se o Copom vai sinalizar se usará o espaço residual para outro corte de juros. 

* COLUNISTA DO BROADCAST

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