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Não vai ser indolor

Após uma década de bonança em razão do forte crescimento da China e aumento dos preços das commodities, as políticas econômicas adotadas a partir de 2007 (déficits fiscais crescentes, aumento da relação dívida/PIB, política monetária leniente, inflação acima da meta, controle dos preços administrados, taxa de câmbio valorizada, crescentes déficits em conta corrente) dilapidaram os fundamentos da economia brasileira construídos entre 1994 e 2006. Sobraram apenas as reservas cambiais. Entretanto, a expectativa de aumento das taxas de juros na economia americana e a desaceleração da China, combinadas ao crescente déficit em conta corrente no Brasil, vão fatalmente dilapidar este último fundamento, caso as políticas econômicas não sejam revertidas a tempo. E essa reversão irá exigir uma desvalorização real da moeda e redução do nível de atividade no País.

José Márcio Camargo, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2015 | 03h14

Duas questões são particularmente relevantes. Primeiro, para que uma desvalorização nominal da moeda se converta em desvalorização real, é fundamental que o aumento dos preços dos bens comerciáveis decorrente da desvalorização (bens que podem ser importados e exportados) se torne maior que o aumento dos preços dos bens não comerciáveis (aqueles que não podem ser importados ou exportados). Caso isso não ocorra, a desvalorização nominal apenas gera mais inflação.

Segundo, aproximadamente 70% da variação dos preços dos bens não comerciáveis determinados no mercado (serviços) é explicada por variações na taxa de desemprego. Ou seja, quanto menor a taxa de desemprego, maior a taxa de crescimento dos salários, maior a taxa de inflação dos serviços e maior a desvalorização nominal da moeda necessária para gerar a mesma desvalorização real. Por outro lado, quanto maior a desvalorização nominal da moeda, maior a taxa de inflação dos bens comerciáveis e, portanto, maior a taxa de inflação da economia, caso a taxa de inflação dos bens não comerciáveis, que hoje está em 8,5% ao ano, não caia.

Portanto, se o objetivo é deixar o valor da moeda se ajustar às necessidades de equilíbrio do setor externo e, ao mesmo tempo, levar a taxa de inflação para a meta de 4,5% em 2016, será necessário reduzir a taxa de inflação dos bens não comerciáveis, o que irá exigir que a taxa de desemprego aumente.

Sem isso, a desvalorização nominal só irá gerar aceleração da taxa de inflação. Nossas estimativas são de que, para gerar uma taxa de inflação de serviços próxima a 5,0% ao ano, será necessária uma taxa de desemprego de cerca de 9,0% da força de trabalho. E, como os preços reagem mais rapidamente que o desemprego, o primeiro efeito da desvalorização será uma aceleração inflacionária que precisará ser enfrentada com aumento da taxa de juros. O que, aliás, já está ocorrendo. Somente depois que os aumentos da taxa de juros levarem a uma redução mais forte do nível de atividade, a taxa de desemprego começará a aumentar e, com isso, a taxa de inflação dos serviços iniciará o caminho de queda.

Esse processo será ainda mais difícil por causa dos desequilíbrios herdados do período de controle de preços administrados. Em especial, transporte urbano e energia elétrica, bens não comerciáveis. Estima-se que os preços da energia elétrica deverão aumentar entre 40% e 50% e as tarifas de transporte urbano, entre 10,0% e 15,0%, em 2015. Com isso, a queda da taxa de variação dos preços dos serviços que são determinados livremente pelo mercado, e, portanto, a taxa de desemprego, necessária para levar a inflação para a meta (4,5%), terá de ser ainda maior do que a indicada acima.

Em resumo, para melhorar a competitividade da indústria brasileira e evitar que o déficit em conta corrente se torne insustentável, a valorização do real precisa ser rapidamente corrigida. Mas, ao contrário do que muitos analistas sugerem, essa não será uma tarefa indolor. Vai exigir aumento do desemprego e queda dos salários reais.

É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO E ECONOMISTA DA OPUS GESTÃO DE RECURSOS

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