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‘NÃO VAMOS AGUENTAR POR MUITO MAIS TEMPO’

Fundador da 2ª maior incorporadora do País, Menin diz que o Brasil precisa de um ‘acordão’ para sair da crise e que governo tem de fazer sua parte

Entrevista com

Rubens Menin, fundador da MRV

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2015 | 03h00

Quando o maior programa habitacional do governo petista foi desenhado em 2008, o empresário mineiro Rubens Menin estava à mesa com a então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff. Com outros seis nomes do setor imobiliário, ele ajudou a formatar o Minha Casa Minha Vida, que entregou 2,3 milhões de moradias no País nos últimos seis anos, mas que, agora, com o governo sem dinheiro, teve sua meta comprometida. A MRV, empresa de Menin, tornou-se a campeã de vendas do programa, com um faturamento de R$ 4,1 bilhões no ano passado.

De lá para cá, suas idas a Brasília só aumentaram. Menin passou a presidir a Abrainc, associação que reúne as 26 maiores incorporadoras do País, e virou um dos principais interlocutores do setor com o governo federal. Na última quinta-feira, em São Paulo, ele falou ao Estado sobre crise política e econômica, impeachment, Minha Casa Minha Vida e saídas para a retomada. “Falta o governo fazer a parte dele. O remédio tem de ser amargo”, disse. “Não vamos aguentar muito mais tempo com esses buracos no balão perdendo gás.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista do fundador da MRV ao Estado.

Qual sua avaliação sobre o cenário econômico do País?

Não tem jeito de ver o que está acontecendo com bons olhos. Não gosto de ser pessimista, mas está muito difícil. A crise política virou um emaranhado tão grande que não conseguimos mais sair dela e, sem resolver isso, acho difícil chegar a uma solução para a questão econômica. Na minha opinião, um dos maiores erros da política econômica foi ter segurado o câmbio para controlar a inflação, assim como segurar as tarifas. O lado bom disso tudo é que o artificialismo da economia está acabando. A balança comercial está reagindo, o que significa maior competitividade. Com o câmbio cotado a R$ 2 o Brasil se achava o dono do mundo, sem ser.

O que é um câmbio saudável para a economia, na sua opinião?

Defendo um câmbio de R$ 4, para melhorar a competitividade do País. O investidor já está olhando muito mais o Brasil do que olhava antes. O País está mesmo em liquidação e é uma liquidação justa, por causa do câmbio. O cara que investiu a R$ 2, ganhou 100% com o investimento dele aqui, mas se saiu com o dólar a R$ 4, não ganhou nada. Agora, ele sabe que vai ganhar.

O interesse do investidor inclui o mercado imobiliário?

Sim, os estrangeiros estão comprando empreendimentos comerciais, por exemplo. No residencial, eles terão de participar de outra forma, entrando via mercado de capitais.

Embora o câmbio, na sua avaliação, esteja em um nível saudável, a situação do País ainda está longe de ser confortável. Por onde passa a solução?

Olha, eu não gosto muito da Maria da Conceição Tavares (economista e ex-deputada federal pelo PT), mas ela falou recentemente da necessidade de um acordão, que envolveria partidos políticos, intelectuais, representantes da sociedade civil e empresários. O caminho é esse mesmo. Também gostei muito das propostas apresentadas, em outubro, pelo PMDB. Eles sugeriram, entre outras coisas, redução de impostos, segurança jurídica para investimentos e um Estado com tamanho menor. Vai ter de mexer na Previdência, em direitos. Não sabemos como isso será possível juridicamente, mas tem de fazer. A linha do PMDB é a de todo mundo.

O que falta para que algumas dessas medidas sejam tomadas?

Falta o governo fazer a parte dele. Estão falando em voltar com a CPMF (a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Eu sou contra. A sociedade não vai dar a CPMF para o governo porque ele não está dando nada em troca. Cortou uma meia dúzia de ministérios, mas tem de fazer mais. Tem de cortar na carne. O remédio tem de ser amargo. Não vamos aguentar muito mais tempo com esses buracos no balão perdendo gás.

Até quando é possível aguentar?

O PIB (Produto Interno Bruto) vai encolher em 2015 e em 2016. Isso está dado. Na melhor das hipóteses, vamos nos equilibrar em 2017, mas para isso acontecer precisamos tomar providências agora. Não dá mais para esperar.

Essa volta ao equilíbrio vale também para a construção civil?

A economia está num momento de perda de emprego e de massa salarial. Esses indicadores não voltam rapidamente. Vamos purgar com isso neste ano e no próximo. Hoje, o ambiente não é bom, mas é, pelo menos mais saudável, porque a demanda caiu e a oferta caiu também. O que vai acontecer é que a oferta vai voltando aos pouquinhos. As empresas vão voltar a lançar novas unidades em 2017.

E, com isso, o desemprego também diminui no setor.

É a nossa expectativa. Um país que precisa fazer 1,5 milhão de moradias por ano tem de empregar sempre. Toda vez que saem os números do Caged é uma tristeza. Dá pena de ver a construção desempregando quase 560 mil pessoas. Mas estamos começando a ver uma mobilização – isso no mercado imobiliário, e não na infraestutura, que vem sofrendo muito com a Lava Jato. No nosso caso, fazemos uma conta simples: cada 100 mil unidades geram 100 mil empregos diretos. Temos conversado com o governo e acredito que o Minha Casa vai virar esse jogo.

O sr. não está sendo otimista demais? O consenso do mercado é que o programa corre risco, já que o dinheiro do governo acabou.

Há uma certa confusão aí. Existem três faixas no Minha Casa Minha Vida. A faixa 1, que é a mais subsidiada, depende, sim, do Orçamento da União. O dinheiro acabou e não vai ter mais. É saudável mesmo que não tenha. Nas outras faixas, o recurso é do FGTS, não há dependência do governo. O FGTS é superavitário e ele tem de aplicar esse dinheiro. É tudo muito sério no programa. Não tem politicagem. Não tem corrupção. É um programa com qualidade de gestão, que não vai acabar.

E as empresas que fazem apenas imóveis para a faixa 1 do programa?

Estão migrando para as faixas 2 e 3. Não querem mais depender do Tesouro. Quando ele entra, a conta não fecha.

O setor ganhou um fôlego agora com a terceira fase do programa. A meta é contratar 3 milhões de unidades até 2018. Isso vai ser possível?

É difícil, porque a faixa 1 representaria metade dos 3 milhões e não vai ter, nem neste ano nem no próximo. Se voltar, será em 2017 ou 2018, fazendo com muito critério para não faltar dinheiro. Vamos querer participar disso, para que não se faça mais do que é possível. Nesse acordão que precisa ser feito no País, todos os setores vão ter de deixar um pouquinho, isso passa pelo nosso também. Não tem jeito de recuperar o País sem um pacto. Espero que parem de pensar no próprio umbigo e nas suas vontades para que ele se torne realidade.

Qual é a representatividade do Minha Casa Minha Vida na atividade das incorporadoras representadas pela Abrainc?

Já foi muito maior. Hoje, das 27 associadas, apenas 7 estão no programa. Já tivemos 17. Gostaríamos muito que elas voltassem, porque é um programa importante para a construção. Para isso, é preciso melhorar a sustentabilidade do Minha Casa: manter os parâmetros existentes, dar crédito, garantir a aprovação dos projetos, reduzir burocracia.

Sua empresa existiria sem o Minha Casa?

A MRV tem 36 anos de atividade, sempre trabalhou com habitação popular. O programa federal começou em 2009. De qualquer forma, o fim do Minha Casa está fora de cogitação.

A devolução de imóveis e o aumento dos estoques é um dos pesadelos do setor. Isso está perto de ser equacionado?

Mais do que o desemprego, o que influenciou o aumento dos distratos foi o aumento dos juros. Os clientes perderam a capacidade de pagar as prestações, porque elas ficaram mais caras. Para lidar com isso, as empresas diminuíram os lançamentos e estão trabalhando na desova dos estoques – que só devem ser liquidados em 2016. Ao mesmo tempo, estamos conversando com o Ministério Público para criar uma regra do jogo, que não existe. Se uma empresa vende 100 unidades e 70 clientes devolvem, como ela vai terminar a obra para os outros 30? Queremos discutir com a sociedade para não acontecer como aconteceu com os planos de saúde: defenderam demais o consumidor, as operadoras quebraram e o consumidor ficou desprotegido.

Em entrevista ao ‘Estado’, o empresário Flávio Rocha, dono da Riachuelo, dividiu os empresários brasileiros em dois grupos: os de conluio, apadrinhados pelo governo, e os de mercado, que têm de se virar sozinhos. O sr. concorda?

Não. É muito simplista afirmar isso. Ele fala assim porque está num setor que não depende de regulamentação. O governo regulamenta o nosso negócio, mas nós não temos nada a ver com ele. É muito fácil dividir quem está de um lado ou de outro. Eu estou do lado do Brasil, independentemente de o governo ser ruim ou não.

Esse governo, na figura da presidente Dilma Rousseff, foi ruim? É dela a responsabilidade pela crise que o País enfrenta hoje?

Ela também tem culpa. Também. Mas seria injusto culpá-la 100%. A falta de eficiência do Estado é histórica. O empreguismo sempre existiu. O que ela fez foi aumentar a voracidade do Estado. Devia ter cuidado um pouco mais da gestão pública. Nas mãos dela, o Estado ficou maior ainda. Não se pode gastar 40% do PIB para não se ter nada em troca. A conta não fecha. Nós não temos interesse em defender governo. Mas também não temos interesse em atacar.

O sr. é a favor do impeachment?

Como representante da Abrainc, não posso me posicionar sobre isso. O impeachment é um negócio muito doloroso. Qualquer solução constitucional, dentro da normalidade, seria uma opção melhor. O acordão seria uma opção melhor. Mas os partidos teriam de ser maiores do que são, em termos de pensar o País, sem interesses eleitorais e eleitoreiros. Com o impeachment, o Brasil ia sangrar demais. Seria uma guerra civil, uma confusão social muito grande. Não acredito que seria uma festa como foi com o Collor. Não tem clima para acontecer isso.

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