Iara Morselli/Estadão
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'Não vejo o Brasil, com o PT, voltando para uma inflação de 3%, 3,5%', diz Stuhlberger

Sócio-fundador e presidente da gestora de investimentos Verde afirmou em evento que o Brasil voltou ao ‘populismo eleitoral’ com a quebra do teto de gastos e a perspectiva de aumento de despesas no próximo governo

Altamiro Silva Junior e Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 05h00
Atualizado 02 de fevereiro de 2022 | 12h00

O sócio-fundador e presidente da Verde Asset Management, Luis Stuhlberger, afirmou nesta terça-feira, 1.º, que o Brasil voltou a um "populismo eleitoral", com a quebra do teto de gastos por Jair Bolsonaro e o Centrão, o grupo de partidos que apoiam o presidente. Para o gestor, Lula vem se mostrando como favorito para vencer as eleições. Em um governo petista, que tende a gastar mais, ele afirmou que não vê o País voltando para níveis de inflação de 3%, 3,5%, como teve até antes da pandemia.

"Não importa quem esteja no Banco Central, o Brasil vai ter de lidar com um dilema de que não vai poder (trabalhar) com uma meta de inflação de 3%, 3,5%." Por isso, pode ser preciso um rearranjo pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), defendeu o gestor em debate durante evento do Credit Suisse.

Stuhlberger disse que os anos com o teto de gastos provaram que, na medida em que o governo gaste menos, a inflação é menor e o juro real de equilíbrio é menor. "Se o governo do Lula começar a gastar, algo como o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), o que é um erro, certamente vamos ter uma inflação maior."

A inflação no novo governo, no caso do PT, vai estar mais perto de 5%, disse Stuhlberger. Nesse ambiente, o juro real pode passar da casa dos 2,5% a 3% para 5%.

"Certas políticas da extrema direita são muito parecidas com as da extrema esquerda", disse Stuhlberger ao falar da quebra do teto de gastos por Bolsonaro. "Voltamos ao populismo eleitoral."

Historicamente, tanto o governo do PT como o de Fernando Henrique Cardoso aumentaram o gasto público em média 6% ao ano, de 1998 a 2014, argumentou o gestor. "Nenhum país teve um negócio desse no mundo"

Entrada de estrangeiros na B3

Stuhlberger também falou sobre o volume de investimentos estrangeiros na B3 em janeiro, que soma  R$ 28 bilhões até o último dia 27. Ele disse ter ficado surpreso e que era difícil imaginar esse nível de fluxo na virada do ano. Com isso, o real também acabou mostrando uma "inesperada" valorização, com o dólar saindo da casa dos R$ 5,60 e hoje caindo abaixo de R$ 5,30. "O mundo é cheio de surpresas."

"Se alguém dissesse pra mim na virada do ano, qual a chance disso acontecer, é a opção de que 100 vale 1, se tanto", disse Stuhlberger ao falar do fluxo de estrangeiros em janeiro. Para o gestor, esse movimento é uma mostra de que, quando os preços estão baratos, o "gringo entra". "O gringo talvez olho o governo de Lula com um certo pragmatismo."

O ambiente se desenhava pouco favorável para a Bolsa, comentou o gestor da Verde. Na virada do ano, pessoas físicas estavam saindo da bolsa, por conta da alta de juros, além disso, o populismo na economia, com a quebra do teto de gastos, também recomendava cautela.

Stuhlberger disse que ainda é difícil dizer se este movimento dos estrangeiros em direção à B3 teve relação com o que acontece na China, com a economia perdendo força, e nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve elevar os juros de forma mais intensa em 2022.

Sobre a China, o gestor e sócio-fundador da SPX Capital, Rogério Xavier, que participou do mesmo debate, afirmou não acreditar que a China vai conseguir voltar a crescer a taxas que ela crescia no passado. Para o tamanho atual do país asiático, ter expansão de 4% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano é o cenário mais provável. "Há uma clara desaceleração."

Stuhlberger afirmou que a China foi um dos países que mais lançaram mão de estímulos monetários no passado recente. Para o gestor, a China vai saber lidar "de forma saudável" com um nível menor de crescimento. Se 1% do investimento estrangeiro que vai para a China vier para o Brasil, o país vai se beneficiar muito, afirmou.

Juros nos EUA

Sobre o aumento de juros nos EUA, o investidor argumentou que já se fala em cinco ou seis altas, o que pode não ser suficiente para fazer frente à inflação. A previsão para a taxa final de juros segue no mesmo patamar, o que vem ocorrendo é que o mercado está antecipando os aumentos, disse.

Stuhlberger acredita que se o juro ficar no nível por ora previsto pelo mercado, na casa dos 1,80% ao ano, esse nível pode não ser um problema para a economia mundial. O gestor alertou em suas declarações o fato de os juros longos nos EUA estarem ainda em nível historicamente baixo.

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