'Não vejo motivo para comemoração', diz ex-presidente do BC

Para Pastore, resultado do quarto trimestre deve fazer o mercado voltar a mirar em alta de 1,5% este ano

Entrevista com

Fernadno Dantas, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 02h08

RIO - Para o consultor Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), o PIB do quarto trimestre acima do esperado deve fazer o mercado voltar a mirar em um crescimento de 1,5% neste ano, pela melhora no carregamento estatístico de 2013. O carregamento estatístico é o efeito que o padrão da expansão do PIB num ano tem no ano seguinte.

O economista classifica o ritmo atual da economia como medíocre, e não vê motivos de comemoração. Para Pastore, a política econômica equivocada e diversos tipos de risco, inclusive de racionamento, estão prejudicando os investimentos e limitando o crescimento brasileiro. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que o PIB do quarto trimestre veio acima da expectativa do mercado?

Não vejo nenhuma causa importante. Acho que foi um pouquinho na indústria, um pouquinho na agricultura, um pouquinho no serviço, na exportação e na importação. Foi um efeito difuso. Quando há erros em diferentes direções, eles se cancelam. Quando vão todos na mesma direção, eles se somam e dá uma diferença maior no agregado. Mas não vejo um fator principal.

O que muda com esse PIB um pouco acima da expectativa?

Esse número, que faz com que o Brasil tenha crescido 2,3% em 2013, deixa o carregamento estatístico um pouquinho mais alto, ou melhor, um pouquinho menos negativo para o primeiro trimestre de 2014. Se nós mantivermos a mesma velocidade de recuperação (prevista para o primeiro trimestre) no segundo, terceiro e quarto trimestres de 2014, um crescimento em 2014 de 1,5% volta a ficar mais provável. O mercado estava começando a se fixar num crescimento abaixo de 1,5% este ano, mas na expectativa de que o quarto trimestre de 2013 viesse pior. Ainda pode dar abaixo de 1,5%, mas a probabilidade de chegar a 1,5% agora é um pouco maior.

Como o sr. viu o PIB setorialmente no quarto trimestre?

A indústria de fato teve uma contração, continua com o mesmo comportamento letárgico dos últimos tempos. A agropecuária, que tem uma volatilidade muito grande, teve um comportamento muito próximo do previsto. O setor de serviços, sobre o qual temos menos informações, também não causou isoladamente grandes surpresas. Os serviços durante alguns anos foram um setor bem mais dinâmico, e agora desaceleraram. Na exportação e importação também não há muito que errar, porque conhecemos os dados do balanço de pagamentos.

O governo está comemorando o resultado do quarto trimestre.

Se o governo quiser comemorar que ele fez o PIB crescer 2,3% em 2013, apontando para 1,5% este ano, que fique à vontade. Acho que outros países cresceram mais que isso e não comemorariam. Eu não vejo motivo de comemoração, é um crescimento medíocre.

Por que a economia brasileira está crescendo tão pouco?

Suponha que as políticas econômicas não conduzam a estímulos para a economia crescer, não removam riscos, não permitam aumento de produtividade, não tenham indução a investir em infraestrutura, não tragam mais poupança interna para atrair mais capital. Há um conjunto de erros de política econômica que tira o estímulo ao crescimento. Nós estamos com uma taxa de investimento que gera crescimento de 1,5% a 2%, e não existem estímulos para o investimento crescer mais. Há riscos de racionamento de energia, de custos que vêm da infraestrutura insuficiente, de fazer lá na frente uma boa subida de taxa de juros para tirar essa inflação de 6%, de ter que aumentar impostos para elevar esse superávit primário. Isso deixa qualquer empresário com as barbas de molho.

O sr. vê chances de fatores positivos aumentarem o crescimento em 2014, levando-o para os 2,5% das projeções do governo?

Não vejo uma China crescendo mais, ou preço de commodities crescendo mais, ou um mundo crescendo bem mais, ou Argentina e Venezuela saindo do buraco e importando mais do Brasil. Não vejo o brasileiro ficando mais otimista porque puseram o (Antonio) Palocci no lugar do (Guido) Mantega. Não há muito espaço para surpresa positiva.

Não é paradoxal uma economia que cresce tão pouco com recorde de baixa de desemprego e inflação pressionada?

Não tem paradoxo se olhar para a demografia. A população em idade ativa no Brasil está crescendo a uma taxa muito mais baixa do que no passado. As pessoas têm de tomar consciência de que há 20 anos o Brasil era um país com abundância de mão de obra. Hoje é um país caracterizado por escassez de mão de obra. Se o PIB crescer 1,5%, a taxa de desemprego fica praticamente no nível em que está hoje.

Pela ótica da demanda, como o sr. analisou a divulgação do PIB?

O lado da demanda foi até mais interessante. O consumo está num nível de crescimento baixo, muito próximo das estimativas de consenso. Mas houve uma queda na taxa de investimento (no último trimestre), tanto a preços constantes quanto a preços correntes. Mas, independentemente do critério de cômputo, há uma queda. Isso leva a um crescimento de PIB potencial mais baixo do que o que tínhamos antes da divulgação do dado (do quarto trimestre). O PIB potencial está entre 2% e 2,5%.

Se o potencial está entre 2% e 2,5%, e o PIB deve crescer 1,5% em 2014, isso não desacelera a inflação?

Alivia a inflação a passos de cágado manco. Você verá a inflação em 6% por um bom tempo.

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