''Não vejo por que mudar a política''

Henrique Meirelles: presidente do Banco Central; Meirelles descarta a sugestão para a adoção de uma política que ora se voltaria para o controle da inflação, ora para o câmbio

Entrevista com

Beatriz Abreu, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

A uma semana da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, faz uma defesa enfática da política executada pela instituição, tanto em relação ao sistema de metas de inflação como a opção pelo câmbio flutuante. Essa política, segundo Meirelles, garante o equilíbrio da economia brasileira e está permitindo ao Brasil atravessar e sair da crise financeira mundial em condições mais favoráveis que outros países. "Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo", disse Meirelles em entrevista à Agência Estado. Na entrevista - as respostas foram enviadas por e-mail -, Meirelles aborda a sugestão para a adoção de uma "política cambiante", ou seja, ora mirando o controle da inflação, ora a taxa de câmbio. Ele descarta essa opção. Para o presidente do Banco Central, esse tipo de regime "envolveria maior incerteza" e "mais risco", o que resultaria na tendência de taxas de juros de mercado mais elevadas. A seguir, principais trechos da entrevista. O sr. tem afirmado que os capitais que ingressam no País não estão direcionados às operações de arbitragem. Quais são os instrumentos disponíveis para que o banco tenha garantia de que, de fato, esses capitais estão direcionados a investimentos estrangeiros diretos ou ações, por exemplo? O Banco Central monitora diariamente o fluxo de capitais e tem total controle sobre as informações disponíveis. A sociedade também pode acompanhar esses dados, pois o BC os divulga periodicamente, com toda a transparência. O forte ingresso de capitais está motivando uma discussão na sociedade a propósito da relação entre a taxa de juros e a taxa de câmbio. O sr. considera que a redução mais forte da taxa Selic pode inibir a desvalorização do dólar? A política monetária tem apenas um instrumento, a taxa de juros de curto prazo, e, portanto, pode ter apenas um objetivo a cada momento. Pode, por exemplo, buscar o equilíbrio interno ou pode visar o equilíbrio externo. O sistema de metas de inflação visa a assegurar o equilíbrio macroeconômico doméstico através da política monetária, enquanto o equilíbrio externo é obtido por meio da flutuação da taxa de câmbio. Não existem alternativas? A alternativa seria usar a política monetária para atingir o equilíbrio externo, com uma taxa de câmbio arbitrariamente definida pelo governo.Vários países usaram esse sistema, concedendo soberania monetária ao país emissor da moeda âncora. Isso recorrentemente causou desequilíbrios no balanço de pagamentos. Uma segunda alternativa seria fixar uma taxa de câmbio móvel que assegurasse a rentabilidade de alguns setores exportadores, deixando em segundo plano o equilíbrio macroeconômico doméstico, em detrimento do bem-estar da maioria da população. Em recente pronunciamento, o senhor disse que alguns parecem defender um sistema cambiante. O que significa isso? Alguns parecem propor um tipo de sistema cambiante, onde a política monetária ora visaria o equilíbrio doméstico ora o externo, de forma discricionária e pouco transparente. Como tal regime envolveria maior incerteza, pois não se saberia exatamente qual é o mandato da autoridade monetária, e mais risco, as taxas de juros de mercado tenderiam a ser mais elevadas.Vale notar, também, que a busca do equilíbrio externo por vezes se choca frontalmente com as necessidades da economia doméstica; imaginemos, por exemplo, quanto teria subido a Selic em dezembro se tentássemos estabilizar o câmbio via taxa de juros e quais teriam sido as consequências para a economia brasileira. Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo. O sistema de metas tem atingido os seus objetivos? A valorização do câmbio não pode significar que está fracassando? O sistema de metas para a inflação com câmbio flutuante assegurou, ao mesmo tempo, a estabilização da economia brasileira com uma taxa média de crescimento do PIB de quase 5% nos últimos 5 anos (o que deve ser comparado com um crescimento médio de cerca de 2% nas últimas duas décadas até 2003), inflação na trajetória de metas e juros reais cadentes. Ao mesmo tempo equilibrou o setor externo, pois gerou saldos no balanço de pagamentos que permitiram a acumulação de mais de US$ 200 bilhões de reservas. Um sucesso inquestionável de equilíbrio interno e externo. Quais são os fatores que mais influenciam a taxa de câmbio? O real tem mostrado uma alta correlação com o preço das commodities e com os índices de aversão ao risco. Quando o preço das commodities sobe, o real se valoriza e vice-versa. Essa correlação já chegou a ser muito alta, de 0,98. A correlação com os índices de aversão ao risco é um pouco mais baixa, mas ainda assim significativa. Além do mais, devemos levar em conta a própria flutuação do dólar frente às principais moedas, o que é uma questão norte americana. Qual o efeito do fluxo positivo de entrada de capitais? Ele permite ao Banco Central prosseguir sua política de acumulação de reservas que tantos benefícios tem prestado ao País. Uma análise cuidadosa dos dados divulgados pelo BC é esclarecedora a esse respeito. É importante observar também que uma parte significativa desse fluxo de capitais é constituída por investimentos estrangeiros diretos, vale dizer, são investimentos em máquinas e equipamentos que vão elevar a capacidade produtiva do Brasil. Outra parte dos recursos destina-se à Bolsa de Valores, que é uma fonte importante de capitalização para as empresas brasileiras. O Brasil está sendo apontado como um dos países que se sairá melhor da crise financeira. Quais são os fatores que sustentam essa avaliação? Não se trata de um otimismo exagerado, sem lastro na realidade? Esta avaliação é lastreada no fato de que o Brasil é um dos poucos países que estão fortalecendo seus fundamentos macroeconômicos durante a crise, enquanto a maioria dos países sairá da crise mais vulnerável, como resultado das medidas adotadas para superar os problemas. Os fatos são: o Brasil sairá da crise com reservas internacionais maiores do que quando entrou, uma relação dívida pública líquida em comparação com o PIB menor, uma situação monetária equilibrada, um sistema financeiro saudável e competitivo e com as empresas brasileiras com acesso ao mercado de capitais para financiar o seu crescimento. Apesar dos riscos do excesso de euforia, não há dúvida que estamos em posição mais confortável do que diversos outros países para o pós-crise.

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