'Não vejo solução rápida e fácil para o abismo fiscal'

Para ex-funcionário do Tesouro americano, se abismo fiscal provocar recessão nos EUA, nota do país pode ser rebaixada

Entrevista com

DANIELA MILANESE, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h07

Por volta das 11 horas da manhã de 5 de agosto de 2011, o Tesouro dos Estados Unidos recebeu o rascunho de uma decisão da agência Standard & Poor's que iria abalar o mundo das finanças. Pela primeira vez na história, os EUA perderiam sua classificação máxima de risco AAA.

Técnicos do Tesouro passaram imediatamente a avaliar o texto ainda sigiloso até que, uma hora depois, o então assistente John Bellows percebeu um erro de cálculo de US$ 2 trilhões. Seguiu-se uma série de argumentações ao longo de todo aquele dia para que a S&P reconhecesse o equívoco e reconsiderasse o rebaixamento do rating. A agência refez as contas, mas não mudou de ideia. No final daquela sexta-feira, anunciou a nova nota de crédito norte-americana AA+.

"Achávamos importante que os detalhes estivessem corretos e eles (S&P) não tinham os detalhes corretos", disse Bellows, em entrevista à Agência Estado durante visita a São Paulo. Bellows deixou o Tesouro em dezembro do ano passado e, há três meses, assumiu o cargo de estrategista de investimentos da Western Asset, trocando Washington pela Califórnia.

Agora, como gestor, está novamente às voltas com a possibilidade de mais rebaixamentos do rating dos EUA em razão do risco de abismo fiscal. No início de 2013, a combinação entre aumento de impostos e cortes de gastos, em cerca de US$ 600 bilhões, pode jogar o país na recessão. Bellows prevê momentos complicados, de muitas incertezas e volatilidade pela frente. "Os próximos dois meses serão difíceis. Não vejo uma solução fácil e rápida", afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O que aconteceu com sua carreira no Tesouro dos EUA?

Deixei o Tesouro em dezembro. Tive uma ótima experiência lá, as pessoas são fantásticas, tive a oportunidade de estar envolvido em coisas importantes e de impacto. Em algum momento, decidi que não queria passar o resto da minha carreira em Washington, onde as funções tendem a ser muito políticas. Estou na Western Asset, na Califórnia, há somente três meses, comecei em agosto. Trabalho com as mesmas questões econômicas, fiscais, políticas, mas de um ponto de vista diferente.

Como ocorreu o episódio do erro da S&P e a perda do rating AAA dos EUA no ano passado?

Eu estava trabalhando com o secretário (Timothy) Geithner em questões fiscais durante todo o ano de 2011. Nas discussões com o Congresso (sobre a elevação do teto da dívida dos EUA), o secretário representava a administração e eu era seu apoio. Trabalhei com ele em questões fiscais durante todo o verão (no hemisfério norte). Após a aprovação da elevação do teto da dívida e dos controles do orçamento (em 2 de agosto de 2011), a S&P fez consultas ao Tesouro e eu era parte da equipe que fazia a interface com eles. Nós trocávamos visões sobre a situação fiscal, como parte normal do processo. No dia em que ocorreu o rebaixamento (em 5 de agosto de 2011), a S&P primeiro nos mandou um rascunho da decisão e foi aí que tivemos a discussão sobre o cálculo deles e se não haviam cometido um erro.

O sr. percebeu imediatamente?

Recebemos o rascunho por volta das 11 horas da manhã. Por volta do meio-dia, uma hora depois, percebemos que havia um erro. Passamos o dia indo e voltando nas conversas com a S&P. No Tesouro, achávamos importante que os detalhes estivessem corretos e eles não tinham os detalhes corretos.

Quando o sr. foi informado sobre o rebaixamento?

No final do dia. Nós achávamos que eles deveriam reconsiderar. Que, dada a correção nos cálculos, era apropriado reconsiderar. Eles reconsideraram de alguma forma, mas chegaram à mesma conclusão do rebaixamento, com uma justificativa um pouco diferente.

Depois do rebaixamento em 2011, os temores estão de volta, em razão do risco de abismo fiscal. O Congresso pode evitar?

Acho que essa é a pergunta que os investidores estão se fazendo ao redor do mundo. Podemos fazer julgamentos sobre como esperamos que as discussões prossigam, mas há um nível de incerteza. Mesmo as pessoas em Washington têm incerteza sobre como isso vai terminar. O Congresso certamente tem o poder para evitar o abismo fiscal. Há consenso em vários componentes. Tanto republicanos como democratas concordam com impostos menores para a classe média, salários mais altos para médicos e ausência de cortes na área de defesa. Por outro lado, há partes muito contenciosas e cheias de discordâncias. Uma deles é a taxação dos mais ricos. Há possibilidade de que essa parte torne mais difícil um acordo.

Teremos uma situação de aversão ao risco?

Os próximos dois meses serão difíceis. Não vejo uma solução fácil e rápida. É um processo difícil que pode causar volatilidade e, certamente, muita incerteza e preocupação.

Os EUA conseguirão manter o AAA das outras agências ou o AA+ da S&P?

As agências de rating estão olhando para duas coisas. A primeira é a projeção fiscal para o médio prazo. A Moody's foi muito clara ao dizer que espera ver a relação entre dívida e PIB dos Estados Unidos numa trajetória de estabilidade até queda nos próximos cinco ou seis anos. Para isso, o Congresso precisa concordar com alguns aumentos de receita ou cortes de gastos. Acho que há espaço e que podem fazer isso. O segundo ponto é o desempenho econômico no curto prazo. Se os Estados Unidos entrarem em recessão por causa da política fiscal, isso vai prejudicar o rating. Se o Congresso não evitar o abismo fiscal e houver uma recessão como resultado, aí veremos um rebaixamento.

A política monetária dos EUA se mantém com a reeleição de Barack Obama?

O mandato do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, termina em 2014, e parece possível que não permaneça no cargo. Mas não acredito que isso importe, porque Obama colocará alguém com uma política similar. É possível esperar uma continuação da mesma política monetária. Isso dá suporte a alguns ativos e ao crescimento. Fizeram um comprometimento de que manteriam os juros baixos até 2015. Portanto, já anteciparam o que farão nos próximos anos, o que é algo sem precedentes.

O governo brasileiro tem criticado bastante a política monetária dos Estados Unidos. Mas, a terceira rodada de estímulos, o chamado QE3, não significou grande fluxo de recursos aos emergentes desta vez. Por quê?

É uma questão em aberto. Em 2009, os juros nos países desenvolvidos caíram muito dramaticamente. O Fed e outros cortaram juros agressivamente, o que aumentou o diferencial de juros com os emergentes, que ficaram mais atraentes. Os emergentes também se beneficiavam do boom das commodities, o que puxou o comércio. Em contraste, agora os juros já estão muito baixos nos países avançados. Não há o mesmo otimismo sobre as commodities e há preocupações, em geral, sobre a desaceleração econômica, o que mudou a história.

No Brasil, vivemos um cenário novo de juros historicamente baixos. Como vê a situação?

Falando globalmente, os motivos pelos quais temos juros baixos têm a ver com as preocupações sobre o crescimento. Algumas dessas preocupações são reais. A política fiscal nos países avançados ficará mais apertada, será um peso sobre o crescimento. Ao mesmo tempo, há fatores que podem nos levar a uma melhora no futuro. O mercado imobiliário nos Estados Unidos dá sinais de recuperação. Há potencial para muito investimento nos emergentes. A visão sobre o futuro dos juros está em função do que acontecerá no futuro e há essas duas forças atuando. Outro fator é a inflação. Nos países desenvolvidos, a inflação ficará baixa por enquanto, não há pressão sobre salários.

Os retornos estão mais baixos no mundo todo. Como os investidores irão ganhar dinheiro daqui para frente?

Nos Estados Unidos, à medida que os juros caíram, as pessoas passaram a procurar outros ativos, como títulos corporativos, alguns títulos de alto rendimento e produtos estruturados que têm um perfil de risco diferente, mas um maior retorno. É algo que os gestores precisam pensar cuidadosamente.

Quais as perspectivas para os investidores em 2013?

Os próximos três ou quatro meses serão cruciais. Se resolvermos a questão do abismo fiscal nos EUA e a Europa continuar numa trajetória de se segurar por enquanto, poderemos ver uma melhora no crescimento e os ativos de risco respondendo de acordo.

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