Narrativas para 2018

De 2005 a 2010, economia brasileira viveu melhor fase desde redemocratização

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2017 | 05h00

Com a perspectiva de uma eleição superpolarizada no ano que vem, é interessante recapitular como a história da economia brasileira vem sendo contada pelos principais antagonistas da disputa política do País desde o Plano Real.

Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o sucesso do Plano Real em derrotar a hiperinflação era descrito pelos tucanos e seus aliados como um novo começo para a economia nacional. A partir dessa vitória crucial, era possível pensar de novo no desenvolvimento do País.

Mas houve problemas. A economia, ainda frágil, foi atingida por uma série de choques de 1994 a 1998 e as expectativas de crescimento foram duramente frustradas. Das decepções e crises do governo FHC, e especialmente do sabor de estelionato eleitoral da flutuação do real em janeiro de 1999, nasceu a narrativa vitoriosa do PT que garantiu ao partido quatro vitórias consecutivas nas eleições presidenciais.

Nessa visão, admitia-se que o Plano Real fora positivo, mesmo que à época o PT tenha ficado contra. Mas os méritos do governo tucano paravam por aí. Na interpretação petista, FHC fez um governo entreguista e ditado pelos interesses do capital financeiro nacional e internacional. Também cometeu o erro crasso e eleitoreiro de manter por tempo demais o câmbio semifixo, fazendo os juros e a dívida pública explodirem, e culminando na desvalorização caótica de 2009.

Acima de tudo, para o PT, os tucanos negligenciaram a questão social, a pobreza e a desigualdade. Com esse discurso, Lula chegou ao poder. De início, manteve a política econômica ortodoxa e montou o bem-sucedido Bolsa Família. Num segundo momento, escorregou gradativamente para a heterodoxia, e foi embalado pelo boom de commodities.

De 2005 a 2010, a economia brasileira viveu seu melhor momento desde a redemocratização. O desempenho do PIB foi em média bastante razoável, mas espetacular mesmo foi a queda da pobreza e da desigualdade, como sempre atestou Ricardo Paes de Barros, do Insper, grande especialista em temas sociais.

Esse sucesso reforçou a narrativa petista e levou à eleição de Dilma Rousseff em 2010. Mas as coisas se complicaram a partir daí. Em pouco tempo o boom de commodities terminou, e a economia se desacelerou. Dilma e sua equipe econômica fizeram de tudo, dentro do receituário heterodoxo da chamada “nova matriz econômica”, para tentar resgatar a mágica do período anterior. Mas deu tudo errado.

Dessa fase nasceu uma nova narrativa tucana – ou antipetista, de maneira mais ampla. Focando na política econômica e abstraindo da questão da corrupção, que é toda uma outra história, o novo discurso sustenta que os erros da nova matriz são a causa fundamental do desastre econômico a partir de 2015. O fiasco do estelionato eleitoral de chamar inicialmente o liberal Joaquim Levy para ministro da Fazenda apenas agrava o caso contra Dilma e o PT.

De forma mais geral, a visão é de que o PT recebeu um País em arrumação, manteve e aprofundou as reformas por um curto período de tempo, mas depois se deixou intoxicar pela euforia do boom de commodities. A partir daí, gastou e interveio demais na economia, e acabou desperdiçando e estragando a melhor “mão” que o Brasil recebeu do cenário externo em décadas, legando ao País a pior recessão em 120 anos.

O PT, aliados, simpatizantes e mesmo um ou outro analista neutro vão, é claro, tentar se contrapor a essa narrativa. Duas linhas já surgiram. A primeira, pouco convincente, é de que a causa da violência da recessão foram os “erros” do ajuste fiscal e de preços administrados a partir de 2015. A segunda admite os erros da nova matriz, mas considera que o antipetismo exagera muito a sua importância e omite vários outros fatores, como os efeitos da Lava Jato na economia.

É um debate interessante, e o ideal é que seja realizado com argumentos, e não agressões.

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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