Evelson de Freitas/Estadão
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Nas favelas, 26% da população tem contas em atraso

Número é bem superior ao das famílias de renda mais alta; para moradores, inflação tem dificultado a vida financeira

Márcia De Chiara, Elder Ogliari, Tiago Décimo, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 22h42

O aumento da inflação, especialmente de alimentos, e o menor ritmo de crescimento da economia, que deve avançar menos de 1% neste ano, pegaram em cheio os brasileiros de menor renda que vivem em favelas. Para 70% deles, está mais difícil pagar as contas este ano. Em 2013, 62% viam dificuldades para saldar os compromissos, segundo o instituto Data Favela. Pelo segundo ano, o instituto consultou 2 mil pessoas que vivem em 63 favelas do País para traçar o perfil econômico desses brasileiros.

“A minha situação financeira está muito mais difícil hoje do que seis meses atrás”, afirma a recepcionista Fiama Nascimento Barros, de 22 anos, que mora e trabalha em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, a segunda maior favela da cidade. Ela acaba de adiar a data de casamento por questões financeiras. Com renda de mensal de R$ 1 mil, tem mês em que as suas despesas passam de R$ 1,5 mil e ela precisa da ajuda da mãe, que vive em Pernambuco, para quitar os compromissos.

Mas, seis meses atrás, quando Fiama ficou desempregada e não conseguiu se recolocar, o resultado foi desastroso: o seu nome foi parar na lista de inadimplentes. Ela conta que tinha um pacote de internet para celular que lhe custava R$ 59 por mês. Sem o emprego no hotel onde estagiava, deixou de pagar a mensalidade e a dívida virou R$ 389. “Consegui renegociar. Falei que não tinha orçamento para isso e reduziram o meu débito para R$ 300, que vou pagar em três vezes”, conta.

Assim como Fiama, hoje, um pouco mais de um quarto (26%) dos moradores de favelas tem contas em atraso e 23% já se tornaram inadimplentes. Os resultados da pesquisa da inadimplência dessa população, que pela primeira vez foram apontados na pesquisa do Data Favela, são muito superiores aos níveis de calote dos estratos de maior renda. Famílias com renda mensal de até R$ 7.240, por exemplo, registraram calote de 16,9% em junho, segundo a Federação do Comércio do Estado de São Paulo.

“Um quarto da população com contas em atraso é muita gente”, afirma Renato Meirelles, fundador do Data Favela e responsável pela pesquisa. Para ele, boa parte do elevado índice de devedores é resultado do aumento da inflação, especialmente de alimentos, que pesa mais no bolso dos mais pobres. Mas eles sabem se defender.

Prova disso é que 81% dos entrevistados declararam que estão pesquisando mais antes de comprar e 44% diminuíram a quantidade de produtos. “A minha mãe é uma verdadeira economista”, diz Rafael Rodrigues dos Santos, de 25 anos, professor de dança, que também vive em Paraisópolis. Segundo ele, sua mãe, que trabalha como empregada doméstica, está pesquisando muito mais. “Agora estamos indo em supermercados de bairro, porque em supermercado grande a gente gasta bem mais: vai pegando tudo e quando vê o carrinho está cheio.”

Apesar de não ter dívidas, Santos concorda com Fiama e acha que nos últimos tempos a situação financeira ficou mais difícil. Ele acredita que a inflação em alta é a responsável pela piora do quadro.

Diferenças. Apesar de a vida financeira dos moradores das favelas brasileiras ter se tornado mais difícil, a pesquisa mostra que existem diferenças significativas de renda média do trabalho entre as várias comunidades do País.

Num ranking dos dez Estados nos quais foi avaliada a renda média mensal do trabalho da população que vive nas favelas, o Rio Grande do Sul encabeça a lista. Nas favelas gaúchas, a renda média do trabalhador com mais de 18 anos é de R$ 1.228, quase 30% superior à média das favelas do País, que é de R$ 965, um terço maior do que o salário mínimo.

Na segunda posição desse ranking está o Rio de Janeiro, com R$1.155, seguida por São Paulo, com R$ 1.115. Já as últimas posições dessa lista são ocupadas pelas favelas do Ceará (R$ 870) e da Bahia (R$ 808), as mais pobres.

Na avaliação de Meirelles, a diferenciação que existe entre a renda média obtida com o trabalho dos moradores de favelas em vários Estados brasileiros reflete o desempenho da economia local. “No Rio de Janeiro, por exemplo, as favelas ficam próximas da zona sul, a região de maior renda da cidade. Com isso, a população das favelas consegue emprego na vizinhança com salários melhores em relação a favelas de outros Estados.”

Outra razão para essa diferenciação da renda média do trabalho entre as favelas brasileiras é o impacto do salário mínimo, segundo a economista Lúcia Garcia, coordenadora de pesquisa de rendimento e trabalho do Dieese. O Rio Grande do Sul tem o segundo maior piso salarial regional do País, com faixas que vão de R$ 868 a R$ 1,1 mil mensais, atrás apenas do Paraná, onde o valor varia de R$ 948 a R$ 1.098. Na avaliação da economista, isso acaba se refletindo na renda de quem vive nas favelas e trabalha em áreas como serviços gerais, domésticos e construção civil, entre outras.

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Potencial de consumo é de R$ 64,5 bilhões

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 22h50

Apesar dos altos e baixos da atividade econômica, o potencial de consumo das favelas brasileiras é gigantesco. As 12 milhões de pessoas que vivem hoje nas favelas possuem renda anual de R$ 64,5 bilhões, segundo o instituto Data Favela. Na avaliação de Renato Meirelles, fundador do instituto, a população que mora nas favelas tem mecanismos de resistência para enfrentar as flutuações da atividade econômica, apesar da falta de patrimônio. “Um quarto das famílias recebe o Bolsa Família, que é uma renda fixa, que não está sujeita ao vaivém da conjuntura”. Outro ponto levantado por Meirelles é o emprego formal: 51% dos moradores têm trabalho com carteira assinada. “A geração de empregos formais promoveu certa estabilidade econômica na favela”.

Além disso, existe uma “solidariedade financeira” entre os moradores que não há em outras camadas de renda. Segundo a pesquisa, 38% emprestam dinheiro para algum vizinho e mais da metade (59%) dos que possuem cartão de crédito declara já ter cedido o cartão para algum conhecido usá-lo.

Bancarização. Meirelles destaca também que o baixo índice de pessoas desse estrato social que estão inseridas no sistema financeiro também funciona como uma rede de proteção contra a inadimplência descontrolada. No ano passado, por exemplo, 39% dos entrevistados informaram ter conta em banco. Neste ano, essa fatia teve uma ligeira alta e atingiu 41%. Mesmo assim, é indicador ainda baixo.

O quadro é semelhante no caso do cartão de crédito. Na pesquisa do ano passado, 34% dos entrevistados declararam ter cartão. Neste ano, esse indicador subiu para 37%.

“O mercado consumidor que existe nas favelas é muito importante”, afirma Meirelles. Se as favelas brasileiras fossem um Estado, seria o quinto maior em população, atrás de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Em termos de poder de consumo, circula nas favelas uma renda equivalente a economia da Bolívia e do Paraguai juntas, compara o pesquisador.

Essas e outras informações fazem parte de um livro intitulado Um país chamado favela, de autoria de Meirelles e Celso Athayde, presidente da Favela Holding e criador da Central Única das Favelas, que será lançado na semana que vem. Segundo Meirelles, o trabalho reúne experiências de vida real e técnicas de pesquisa para construir o perfil da nova favela brasileira. A intenção, segundo ele, é quebrar o estereótipo que existe e que passa uma visão preconceituosa que os moradores da cidade têm da favela.

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Gaúchos têm melhor renda

Mesmo com situação melhor, famílias sentem que ano de 2014 está estagnado e começam a cortar gastos para fazer caber no salário

Elder Ogliari, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 22h52

Em Porto Alegre, onde estão as favelas mais “ricas” do País, segundo a pesquisa do Data Favela, a vida não é muito diferente da de outras comunidades parecidas no Brasil. Moradora da Vila Safira desde que era criança, a cozinheira Alexandra Ferreira, 37 anos, casada com trabalhador da construção civil e mãe de um menino de cinco anos e duas meninas - de 10 e 14 anos - viu a vida financeira da família “melhorar bastante” em anos recentes e ficar estagnada em 2014.

A renda somada dos cônjuges chegava a cerca de R$ 1,5 mil no ano passado e caiu para cerca de R$ 1,1 mil neste, quando ela ficou desempregada e recorreu ao Bolsa Família. “Espero que seja por pouco tempo, porque tendo trabalho a gente ganha mais”, ressalta.

A família observa que algumas ruas da vila - não todas - foram pavimentadas ao longo dos anos, o transporte coletivo atende as necessidades e o atendimento do posto de saúde próximo é bom. Dentro de casa, conta com um televisor e conseguiu comprar a segunda geladeira há alguns anos. Alexandra tem conta bancária, mas não cartão de crédito, e conta que nunca precisou ajudar nem pedir ajuda a vizinhos para alguma operação de crédito.

“Eu credito as melhoras recentes a programas governamentais, mas também percebo que as coisas ficaram mais difíceis de alguns meses para cá”, avalia a cozinheira, que trabalhava em empresa fornecedora de refeições para escola até o início do ano. No novo quadro, Alexandra revela que a família “cortou toda a diversão”, citando como exemplo as eventuais idas a uma pizzaria.

Outra cozinheira desempregada, Luciane de Abreu Severo, solteira, mãe de três meninas com idades de 14, 9 e 4 anos, conta que a vila ainda tem acesso irregular a energia elétrica e água e algumas ruas não são pavimentadas. A renda pessoal, que chegou a R$ 630 quando estava trabalhando, caiu para os atuais R$ 340 do Bolsa Família acrescidos de R$ 200 que o ex-companheiro repassa mensalmente para as filhas. Luciane, que mora em casa mista de tijolos e madeira, na qual tem televisão, geladeira e tanque para lavar roupas, conta que se a união com o companheiro tivesse perdurado, poderia ter mais bens materiais. “Juntos teríamos adquirido mais coisas”, raciocina.

Luciane tem conta bancária e não tem cartão de crédito. Reconhece que o Bolsa Família tem ajudado, destaca que atende as exigências rigorosas de comprovar visitas aos médicos e frequência escolar das filhas, mas sonha com o dia em que vai receber o diagnóstico e tratar um “problema nas juntas” para voltar a procurar emprego. Diz que quer trabalhar para ganhar mais que o benefício atual e conseguir comprar “uma casa financiada, em ambiente mais seco e mais limpo que o atual”.

Dinamismo. A economista Lúcia Garcia, coordenadora de pesquisa de rendimento e trabalho do Dieese, diz que a renda de pessoas que vivem em favelas acompanha o dinamismo da região e a estrutura do mercado de trabalho. Por isso a renda é maior nas favelas de regiões metropolitanas como Brasília - eixo decisório do País - São Paulo e Rio de Janeiro - locomotiva e centro de prospecção de petróleo - e Porto Alegre, onde o mercado de trabalho é menos desigual que o de outras capitais e os serviços públicos, melhores.

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Comunidades mais pobres do ranking ficam na Bahia

O serralheiro Elizeu Bitencourt sentiu no bolso a corrosão do poder de compra provocada pela alta inflação e a queda nas oportunidades de trabalho

Tiago Décimo, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 22h55

A notícia da gravidez da mulher, a auxiliar de serviços gerais Paula Pereira Dias, de 20 anos, trouxe, junto com a felicidade, apreensão à casa do serralheiro Elizeu dos Santos Bitencourt, de 25, no bairro de Narandiba, em Salvador. Sem trabalho fixo há dois anos e fazendo bicos para os vizinhos, ele acumulou uma série de dívidas nos últimos meses das quais vê pouca chance de sair no curto prazo. “Meus três cartões de crédito foram bloqueados”, reclama, mostrando as contas em aberto - uma delas com uma cobrança de mais de R$ 1,7 mil, o dobro do que ele tem conseguido ganhar por mês. “Não sei como fazer, mas fome meu filho não vai passar.”

Bitencourt representa uma realidade comum no bairro no qual mora, uma comunidade popular de cerca de 30 mil habitantes cercada por bairros que tiveram grande valorização imobiliária na última década. Ali, a pujança provocada pelo crescimento econômico de alguns anos atrás e pela expansão dos benefícios sociais oferecidos pelo governo federal está sendo corroída pela alta dos preços e pela queda das oportunidades de trabalho.

“Estou perdendo tudo o que consegui nos últimos anos”, lamenta o serralheiro, mostrando a moto de dez anos que recebeu há seis meses, como pagamento pela fabricação de um conjunto de grades para as janelas de um vizinho. “Eu tinha um carrinho, mas quebrou uma peça e, como não tinha dinheiro para trocar, passei para frente e fiquei com a moto”, lembra. “Agora, a documentação da moto já está toda atrasada.”

O pequeno imóvel no qual Bitencourt mora de aluguel com a mulher, uma casa com sala, quarto, cozinha e banheiro, em uma viela com saída para a Avenida Edgar Santos, a principal do bairro, também deve ter a luz cortada nos próximos dias - na semana passada, venceu a terceira conta consecutiva do serviço, todas de pouco mais de R$ 20. O aluguel, de R$ 350, é das poucas contas que ele tem conseguido manter em dia. “O mais importante é ter onde morar e o que comer.”

Como não tem mais cartão de crédito e o pouco dinheiro que recebe tem sido dirigido a pagar dívidas menores, o serralheiro tem recorrido à amizade dos vizinhos para manter a geladeira abastecida. “Não tenho mais como fazer compras lá no atacado onde eu ia”, conta. “Antes, fazia minha compra do mês com uns R$ 400. Agora, compro as coisas no mercado da esquina, de pouco em pouco, para pagar depois.”

Pais. Outra saída dos moradores da comunidade para driblar a recente redução do poder de consumo é voltar para a casa dos pais. Foi o que fez a estudante Raiane Silva de Andrade e o barbeiro João Carlos Ramos, após a descoberta de que ela estava grávida. “Estamos morando junto e dividindo as despesas.”

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