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Nas mãos de Trump

Se disputa comercial seguir em 2020, recuperação da nossa economia será prejudicada

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 04h00

A atenção dos investidores ao redor do mundo está inteiramente voltada para uma data: 15 de dezembro, dia em que está prevista para entrar em vigor uma tarifa adicional de 15% sobre a importação de US$ 156 bilhões em produtos chineses pelos Estados Unidos.

Os mercados globais vêm oscilando ao sabor do noticiário acerca da disputa comercial entre EUA e China e a possibilidade de um acordo para evitar novas tarifas e remover as taxas já impostas deve ser o principal gatilho para o desempenho das Bolsas de Valores e moedas, entre outros ativos, no curto prazo.

No dia 11 de outubro, Trump anunciou que americanos e chineses caminhavam para bater o martelo para o que eles chamaram de fase 1 de um acordo comercial, o que incluiria, entre outras coisas, a suspensão do aumento das taxas de importação sobre US$ 250 bilhões de produtos chineses que entraria em vigor ainda em outubro e, como contrapartida, a compra pelos chineses de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões em produtos agrícolas dos EUA.

Além disso, a fase 1 desse acordo poderia resultar no cancelamento das tarifas previstas para dia 15. A China também colocou como pré-condição para chegar a esse acordo a suspensão da taxa de 15% sobre US$ 125 bilhões de produtos chineses que começou a vigorar a partir de 1.º de setembro.

A fase 1 de um acordo mais amplo entre americanos e chineses deve ter impacto direto relativamente pequeno sobre o comércio e o crescimento global, mas o efeito indireto sobre a confiança de empresários e de investidores será importante para, entre outros fatores, sustentar o investimento de capital na indústria global e também alimentar o apetite a risco, beneficiando países emergentes.

A consultoria inglesa Capital Economics, por exemplo, calculou que do 0,3 ponto porcentual de impacto negativo da guerra comercial sobre o PIB mundial, 0,2 ponto resultou dos efeitos indiretos sobre a confiança.

Ou seja, para a economia brasileira, cujo crescimento está começando a engatar um ritmo mais acelerado, a fase 1 de um acordo comercial entre EUA e China poderia proporcionar um ambiente externo mais favorável para permitir que os fundamentos domésticos – como a queda na taxa Selic, aquecimento nas concessões de crédito e melhor desempenho dos setores de serviço e indústria - sigam impulsionando a atividade econômica.

Se as negociações para esse acordo fracassarem mais uma vez e a fase 1 for adiada para 2020, o humor dos mercados certamente azedará. O sentimento entre investidores e analistas já foi de um maior otimismo quanto ao anúncio da fase 1 do acordo comercial antes do dia 15 deste mês, quando entram em vigor novas tarifas. O índice S&P 500, um dos principais do mercado acionário americano, acumulava uma alta de quase 7% entre a primeira vez que Trump falou da fase 1 de um acordo, em outubro, e o fechamento da sexta-feira passada, quando o otimismo ainda pairava.

Embora os analistas ainda apostem que um acordo da fase 1 será selado, mesmo com um teor mais modesto, a dúvida sobre se um anúncio ocorrerá antes do dia 15 é crescente.

Nesta semana, Trump jogou um balde de água fria nessa expectativa. Primeiro, surpreendeu ao anunciar que iria retomar as taxas sobre a importação de aço e alumínio do Brasil e da Argentina, acusando os dois países de promoverem “maciça” desvalorização das suas moedas. Depois, ameaçou impor tarifas de até 100% sobre US$ 2,4 bilhões em importações de produtos franceses, em retaliação à decisão da França de impor um imposto sobre serviços digitais, prejudicando empresas americanas.

Ontem, Trump retomou sua artilharia, afirmando que não há um prazo para o eventual acordo da fase 1. Sem falar que há o temor de que, após o presidente americano sancionar uma lei em apoio a manifestantes pró-democracia em Hong Kong, os chineses decidam retaliar, contaminando as negociações.

Se um acordo não acontecer até o dia 15 e novas tarifas sobre produtos chineses entrarem em vigor, os mercados globais poderão passar por uma correção mais forte. Se a incerteza sobre a disputa comercial seguir em 2020 com um acordo escapando das mãos, o ambiente externo poderá voltar a ser bastante turbulento e prejudicar a incipiente recuperação da economia brasileira. 

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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