Alex Silva/Estadão - 25/11/2021
Movimento em loja de São Paulo na Black Friday deste ano; vendas de eletroeletrônicos tiveram queda de 30% em relação à mesma data no ano passado. Alex Silva/Estadão - 25/11/2021

Natal deve registrar segunda queda seguida de vendas; efetivação de temporários deve ser menor

Projeções da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo apontam que as vendas de Natal devem cair 2,6% na comparação anual

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 14h33

Atividade fraca, desemprego elevado e inflação de dois dígitos devem derrubar pelo segundo ano seguido as vendas do Natal. A data, que é o melhor momento para o comércio varejista, deve amargar este ano queda real - descontada a inflação -  de 2,6% em relação a 2020, segundo projeções da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). No ano passado, por causa do isolamento social, o faturamento real já tinha recuado 2,9% sobre a data do ano anterior.

Neste ano, a expectativa é de que as vendas do Natal somem R$ 57,48 bilhões. Comparado com a cifra de 2020 será um avanço de 9,8%. Porém, descontada a inflação do período, o varejo terá queda no volume de vendas. Segundo o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, o fluxo de consumidores às lojas já superou em 1,9% o movimento registrado em fevereiro de 2020, antes da pandemia, de acordo com dados da plataforma Google. No entanto, a maior circulação de pessoas não deve se traduzir em aumento real de vendas.

“A deterioração das condições de consumo materializada por inflação elevada, juros em alta e mercado de trabalho em lenta recuperação impede a construção de um cenário mais otimista”, escreve o economista.

Importações

A dificuldade do varejo em repassar para o consumidor as fortes altas de preços do atacado e a relativa estabilidade do câmbio fizeram, segundo a entidade, as lojas recorrerem  às importações de itens para escapar da alta de custos. Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que as importações de itens tipicamente natalinos somaram US$ 436,1 milhões entre setembro e novembro deste ano. Foi um avanço de 19% em relação a igual período de 2020. A taxa média de câmbio entre setembro e novembro de 2020 e 2021 foi praticamente a mesma: R$ 5,57.

No entanto, mesmo com os importados, o estudo da CNC mostra que a inflação de Natal, que reúne 24 itens mais consumidos na data, é elevada. Em 12 meses até novembro, essa cesta ficou 13,8% mais cara, de acordo com a prévia da inflação, o IPCA-15, que subiu 10,7% no mesmo período. Em 2020, a cesta natalina tinha registrado alta de 15,1% na mesma base de comparação.

Neste ano, os produtos que mais subiram foram artigos de maquiagem (16%); TV, som informática (14,1%); e artigos de cama, mesa e banho (13,7%). Curiosamente, o bacalhau, um alimento importado, está 2% mais barato em 2021. Com isso, o produto e os aparelhos telefônicos (-1,4%) são os únicos itens com deflação.

Temporários

A piora no cenário das vendas de fim de ano, que registrou queda de até 30% nos eletroeletrônicos na Black Friday ante o mesmo evento de 2020, fez a entidade reduzir as previsões de contratações de temporários e a chance de efetivação desses trabalhadores.

Há três meses, a entidade esperava a admissão de 94,2 mil temporários para este fim de ano e agora calcula que tenham sido abertas 89,4 mil vagas. É um contingente 31% maior em relação ao do Natal de 2020, que foi atípico por causa da pandemia. Mas é 2,4% menor em relação ao Natal de 2019, que foi normal.

Além de contratar menos temporários, as chances de efetivação, isto é, que esses trabalhadores se tornem definitivos no início do próximo ano, também são bem menores por conta da conjuntura desfavorável. A entidade esperava inicialmente que 12,2% dos temporários virassem efetivos em 2022. Porém, com o aumento das incertezas e a deterioração das condições de consumo, essa taxa caiu para 4,9%, nos cálculos da CNC.

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Cresce a contratação de temporários por empresas de e-commerce

Entre outubro e dezembro deste ano, as admissões de temporários para logística aumentaram quase 50% em relação ao último trimestre de 2020

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 10h10

O avanço do comércio online e a corrida das gigantes do varejo eletrônico para entregar rapidamente as encomendas turbinaram as contratações de temporários em serviços de logística neste final de ano. As admissões para trabalhar em centros de distribuição e na malha de operação de serviços de apoio ao e-commerce cresceram num ritmo que é mais que o dobro do comércio tradicional.

Entre outubro e dezembro deste ano, período que inclui a Black Friday e o Natal – as datas mais importantes para o varejo –, as admissões de temporários para logística aumentaram quase 50% em relação ao último trimestre de 2020. Foram 21,1 mil admissões ante 14,1 mil no último trimestre de 2020. Também em comparação com o quarto trimestre de 2019, a fase pré-pandemia, as contratações para logística neste ano estão cerca de 30% maiores, revela um levantamento feito, a pedido do Estadão, pela Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem). A entidade reúne 120 agências de emprego que respondem por 70% do mercado temporário.

É fato que, em números absolutos, a maior parte das vagas temporárias do varejo de fim de ano ainda está na loja física, de shopping e de rua, mas o ritmo de abertura de postos tem sido bem menor em relação ao segmento de logística. O comércio tradicional contratou 84,7 mil temporários no último trimestre deste ano ante 70 mil em 2020, crescimento de 21%. Se comparado com o mesmo período de 2019, a queda foi de quase 3%.

“A grande surpresa deste último trimestre, com a reabertura da economia, é o crescimento das vagas temporárias para serviços e no meio deles para logística, que é o segmento que mais aumenta”, afirma o presidente da Asserttem, Marcos Abreu. Ele lembra que no ano passado, por causa do fechamento das atividades, o grande avanço nas contratações do último trimestre ocorreu na indústria.

Gigantes do varejo

Os gigantes do varejo online aceleraram as contratações de temporários neste fim de ano. O Mercado Livre, por exemplo, que esperava contratar mais de 800 temporários até o  final de dezembro, informou às vésperas da Black Friday que tinha admitido mais de 2 mil trabalhadores. A maior parte ligada à logística em operações em São Paulo, Bahia e Minas Gerais.

A Via, dona das bandeiras Casas Bahia e Ponto, admitiu 1.200 temporários para a área de logística este fim ano, um contingente 20% maior do que nos últimos anos. Recentemente, a companhia não tem contratado temporários de fim de ano para lojas físicas. No terceiro trimestre deste ano, o e-commerce respondeu por 60% do faturamento da empresa. 

Também o Magazine Luiza, onde o comércio eletrônico representa cerca de 70% das vendas, na época da Black Friday, divulgou que tinha admitido 4 mil temporários  para a logística do grupo como um todo. Isso inclui Magalu, Netshoes e outras empresas. São 2,4 mil temporários a mais do que no ano anterior. 

O ritmo mais acelerado de admissão de temporários de fim de ano para o e-commerce comparado com o comércio tradicional é confirmado por Gabriela Mative, diretora de Recursos Humanos da Luandre, uma das maiores agências de temporários do País. A agência tem como clientes os gigantes do e-commerce e do varejo físico. 

“Hoje o e-commerce é o nosso principal segmento, é o que mais tem ampliado a demanda por temporários”, observa a diretora. Enquanto as admissões de temporários feitas pela agência para o varejo tradicional aumentaram neste ano 20%, no varejo online o avanço foi de 60% na comparação com 2020. 

Apesar de a área de logística ter o dobro de cargos em relação a uma loja física, onde basicamente existem vendedor, operador de caixa, líder de loja e gerente, Gabriela ressalta que o salário inicial é equivalente nos dois segmentos, na faixa de R$ 1.200 a R$ 1.300. Também  70% das vagas temporárias na logística são para operadores, um cargo que pode ser comparado ao de vendedor de loja.

Quem ocupa essa posição normalmente é o jovem em busca do primeiro emprego, como Luana Gabriele Ramos, de 18 anos. Depois de trabalhar por 11 meses como jovem aprendiz na área administrativa de uma indústria, ela ingressou em março deste ano numa vaga temporária como operadora de atendimento de e-commerce. Em setembro, teve o contrato renovado até dezembro.

Luana chegou à vaga por meio de um colega que já trabalhava na empresa. Aluna do curso superior de Recursos Humanos (RH), ela vê muitas semelhanças entre o que aprende na faculdade e o que tem de usar no dia a dia para desempenhar a função. “Logística tem a ver com a área de RH, porque lida com pessoas”, diz.

O trabalho de Luana é dar apoio aos entregadores do e-commerce, quando eles têm problemas para realizar as entregas. “Eu ajudo a encontrar o cliente, a localizar o endereço”, exemplifica.

A estudante diz que nunca pensou em trabalhar em logística. “Apareceu a vaga, vim, gostei e pretendo continuar.” Ela está de olho numa vaga de assistente, cujo salário é maior, e sonha em se tornar uma funcionária efetiva da empresa.

Mas o sonho de Luana e de milhares de temporários na logística de virarem trabalhadores efetivos está em risco. O tombo que houve nas vendas de eletroeletrônicos na Black Friday, com queda de até 30% sobre a data do ano anterior, as perspectivas de um Natal e um início de ano fracos podem frustrar os planos. Procuradas pela reportagem, Mercado Livre e Magazine Luiza não informaram o número atualizado de temporários. A Americanas S.A. disse, por meio de nota, que “contratou diversos profissionais temporários de forma equilibrada entre as plataformas de logística e loja física".

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