Maxar Technologies via AP
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Navio encalhado no Canal de Suez é alerta para a excessiva globalização

Bloqueio da importante hidrovia e seu impacto no comércio ressaltam a dependência das cadeias de suprimentos globais

Peter S. Goodman, The New York Times

27 de março de 2021 | 05h00

LONDRES - O mundo recebeu outro alerta esta semana a respeito dos perigos de sua forte dependência das cadeias de suprimentos globais. Quando uma embarcação encalhou no Canal de Suez, interrompendo o tráfego em ambas as direções, o comércio internacional enfrentou um congestionamento monumental com consequências potencialmente graves.

A embarcação encalhada não é qualquer uma. O Ever Given é um dos maiores navios porta-contêineres do mundo, com espaço para 20 mil caixas de metal que transportam mercadorias pelo mar. E o Canal de Suez não é qualquer via navegável. É um canal crucial que liga as fábricas da Ásia aos clientes abastados da Europa, assim como dos mais importantes para o transporte de petróleo.

O fato de que um acidente poderia disseminar um novo caos de Los Angeles a Roterdã a Xangai ressaltou até que ponto o comércio moderno passou a girar em torno de cadeias de suprimentos globais.

Nas últimas décadas, especialistas em gestão e empresas de consultoria têm defendido a chamada produção just-in-time para limitar custos e aumentar os lucros. Em vez de desperdiçar dinheiro estocando mercadorias extras em depósitos, as empresas podem depender da magia da internet e da indústria de transporte marítimo global para encomendar o que precisam e receber na hora em que precisam.

A adoção dessa ideia trouxe nada menos que uma revolução para as principais indústrias – automotiva e de fabricação de dispositivos médicos, varejo, produtos farmacêuticos e muito mais. Também rendeu uma bonança para executivos corporativos e outros acionistas: o dinheiro que não é gasto enchendo depósitos com peças de automóveis desnecessárias é, pelo menos em parte, dinheiro que pode ser dado aos acionistas na forma de dividendos.

No entanto, como tudo na vida, exagerar em uma coisa boa pode trazer riscos.

Uma dependência excessiva da produção just-in-time ajuda a explicar como os profissionais de saúde dos Estados Unidos à Itália acabaram cuidando de pacientes com covid-19 durante a primeira onda da pandemia sem equipamentos de proteção adequados, como máscaras e aventais.

Os sistemas de saúde – muitos sob o controle de empresas com fins lucrativos que respondem aos acionistas – presumiam que poderiam depender da rede e da indústria de transporte global para entregar o que precisavam em tempo real. Isso provou ser um erro de cálculo mortal.

Alguns especialistas alertam há anos que os interesses de curto prazo dos acionistas têm ofuscado a gestão prudente, levando as empresas a economizar no estoque de bens. “À medida que nos tornamos mais interdependentes, ficamos ainda mais sujeitos às fragilidades que surgem, e elas são sempre imprevisíveis”, disse Ian Goldin, professor de globalização na Universidade de Oxford.

“Ninguém poderia prever um navio encalhando no meio do canal, assim como ninguém previu de onde viria a pandemia. Assim como não podemos prever o próximo ataque cibernético ou a próxima crise financeira, mas sabemos que isso vai acontecer.”

O desastre do momento, em que os engenheiros trabalham para desencalhar uma enorme embarcação no Canal de Suez, deixou mais de 100 embarcações paralisadas em ambas as extremidades à espera de passagem livre. A cada dia, o impasse continua impedindo a passagem de bens no valor de US$ 9,6 bilhões, segundo análise da Bloomberg.

Revolução

Desde sua implantação na década de 50, o envio de mercadorias por contêiner revolucionou o comércio global. Como um recipiente de tamanho padrão que pode ser instalado rapidamente em linhas ferroviárias e caminhões, isso reduziu drasticamente o tempo necessário para levar mercadorias de um lugar para outro.

Aumentos exponenciais em quantos contêineres podem ser empilhados em cima um do outro em um único navio têm de fato diminuído as distâncias ao redor do globo. A capacidade aumentou 1.500% na última metade do século e quase dobrou apenas na última década, de acordo com a Allianz Global Corporate and Specialty, uma seguradora de transporte marítimo.

A ascensão do porta-contêineres ampliou a disponibilidade de bens de consumo e baixou os preços. Mas esses mesmos avanços geraram vulnerabilidades, e o problema no Canal de Suez – a passagem para cerca de um décimo do comércio mundial – tem intensificado as tensões sobre a indústria de transporte marítimo, que foi sobrecarregada pela pandemia e suas demandas repetidas do comércio mundial.

Enquanto os americanos passam por períodos de lockdown, eles têm encomendado grandes quantidades de produtos de fábrica da Ásia: bicicletas ergométricas para compensar o fechamento de academias; impressoras e monitores de computador para transformar quartos em escritórios; equipamentos de cozinha e brinquedos para entreter as crianças.

O aumento de pedidos esgotou o estoque de contêineres nos portos da China. O custo de envio de um contêiner da Ásia para a América do Norte mais que dobrou desde novembro. 

Assim que os navios voltarem a trafegar novamente pelo canal, é provável que cheguem aos portos movimentados de uma só vez, forçando muitos a esperar antes de poderem descarregar – um atraso adicional. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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