Necessidade de fazer caixa impede Petrobrás de 'importar deflação'

Preço do óleo diesel vendido pela estatal no mercado interno está 19% acima do praticado no exterior

Álvaro Campos e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2015 | 09h37

Após anos sendo forçada pelo governo a vender combustível mais barato do que o preço praticado no exterior, a Petrobrás deve aproveitar o atual momento de queda do petróleo para fazer caixa, o que impede o Brasil de “importar deflação”, como outros países estão fazendo. Isso permitiria uma política monetária mais acomodatícia (juros mais baixos), impulsionando a atividade econômica.

Segundo Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), atualmente a Petrobrás tem um prêmio de quase 19% na venda do diesel em relação aos preços internacionais, sendo que o volume comercializado pela empresa com esse combustível é cerca de 1,8 vez superior ao da gasolina. “É um contrassenso total usar o diesel para fazer caixa, porque ele é muito usado no transporte de carga. Nós estamos em uma crise muito grande, o País não cresce, e a gente não pode importar deflação”, comenta. Para ele, se o governo não tivesse cometido tanta “barbeiragem” na gestão da Petrobrás nos últimos anos, a empresa poderia reduzir agora os preços dos combustíveis no mercado interno, “controlando a inflação e ajudando a economia a crescer”. Pires aponta que os EUA, por exemplo, estão fazendo isso. Ao economizar com a gasolina, os americanos ficam com mais dinheiro no bolso para consumir. 

“O preço do diesel está mais alto que no mercado externo desde 2014. O governo poderia trazer uma notícia boa para o curtíssimo prazo, reduzindo o preço do diesel e ajudando na inflação”, diz o sócio-diretor da GO Associados, Fábio Silveira, ressalvando que isso passa por uma escolha política. “Qual seria a melhor decisão a se tomar? Manter o preço do diesel e recompor o caixa da Petrobrás ou reduzi-lo, baixar a inflação e, com isso, aumentar a popularidade da presidente Dilma?”  

Inflação. Nenhum dos analistas ouvidos pelo Broadcast acredita que a queda do petróleo pode ajudar a tirar fôlego da inflação no Brasil por vias indiretas, que não os preços dos combustíveis. “O efeito seria por meio dos fertilizantes, da indústria química. Mas, mesmo que houvesse uma redução de 10% para a indústria, eles iriam repassar 5% para o produtor rural e chegaria um desconto de uns 2% ao consumidor. Como a alimentação tem peso de 18% no IPCA, o impacto geral no índice seria muito pequeno”, diz o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. 

Para Walter Vitto, analista de energia da consultoria Tendências, não deve haver reajuste da gasolina nem do diesel este ano. Já para 2016 a consultoria prevê um aumento de 10% da gasolina nas refinarias, sendo 5,5% na bomba. Porém, caso o acordo das potências ocidentais com o Irã avance, e a produção do país asiático retorne ao mercado global relativamente rápido, os preços internacionais do petróleo poderiam cair ainda mais. Essa situação eliminaria a necessidade de a Petrobrás aumentar a cobrança pela gasolina no próximo ano. “Há muitas variáveis sobre como seria esse retorno do Irã. Mas isso muda um pouco a história e nossa projeção do preço médio para o petróleo em 2016, de US$ 60 o barril, poderia cair entre US$ 10 e US$ 20”, diz Vitto.

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