Negociações agrícolas só avançam no pós-guerra, diz ministro

O agronegócio brasileiro aposta no período pós-guerra do Iraque para as novas negociações multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC). O ministro da Agricultura e Abastecimento, Roberto Rodrigues, disse nesta terça-feira estar cético quanto ao sucesso da próxima rodada, em Cancún, no México, porque o prazo para que os 145 países-membros da OMC concluíssem acordo sobre o cronograma para abrir os mercados agrícolas terminou sem resultado. "Só depois da guerra saberemos como as negociações comerciais multilaterais vão prosseguir", disse o ministroPara ele, a guerra no Iraque representa a possibilidade de novos arranjos, pois a União Européia (UE) está dividida e os países islâmicos poderão rever as relações de compra e venda de mercadorias no mundo. "No caso da soja, por exemplo, o Brasil tem atraído investidores de todo o mundo. E essa nova configuração das relações internacionais ocasionada pela guerra do Iraque poderá posicionar o País de uma forma diferente", afirmou o ministro durante o 73º Congresso Mundial da Associação Internacional dos Esmagadores de Sementes, que reúne até quinta-feira 300 empresas de 36 paísesO complexo de soja (grão, farelo e óleo) é o principal produto da pauta brasileira de exportações agrícolas. Este ano, a safra esperada é recorde, acima de 50 milhões de toneladas, com perspectiva de uma receita de US$ 7,9 bilhões. Para o presidente da Associação, Sérgio Barroso, a guerra do Iraque vai afetar o comércio mundial porque diminui a segurança política no Planeta. "Um comércio internacional mais livre representa maior estabilidade política internacional. Mercados abertos podem representar o melhor caminho para o crescimento econômico e a paz mundial", disse Barroso.Ele expressou preocupação com o futuro da economia norte-americana, também por causa da guerra, pois uma retração econômica nos EUA produziria forte impacto na Europa, na Ásia e nos países em desenvolvimento. Neste contexto, as negociações multilaterais têm renovada importância, segundo Barroso, uma vez que o fim de barreiras comerciais e de subsídios que distorcem os mercados aumentariam as chances de crescimento econômico. O executivo afirmou que o setor de óleos vegetais no mundo trabalhará em duas frentes principais: o desenvolvimento do uso do biodiesel e a adoção de biotecnologia.O economista Marcos Jank, especialista em comércio internacional, também desenha dois cenários sobre a guerra do Iraque. Na primeira hipótese crescerá o isolamento dos EUA, em razão do unilateralismo do governo do presidente George W. Bush a agenda multilateral estará ainda mais complicada. No segundo cenário a oposição de países importantes à guerra, como França, Rússia e China, promoverá o aumento dos protestos populares e do repúdio da opinião pública nos EUA contra a política isolacionista de Bush, com derrota do Partido Republicano nas próximas eleições, em 2004.Neste caso, os EUA tentarão reconstruir sua imagem diante do mundo por meio de organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas e a OMC. O economista aposta na manifestação popular. "A reação popular à guerra do Iraque em praticamente todo o mundo é um fator inesperado e espontâneo, e pode ter um peso maior do que Bush imagina", disse Jank.

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