Negociações da Argentina com FMI emperram

A azeda relação entre o presidente do Banco Central, Aldo Pignanelli, e o ministro de Economia, Roberto Lavagna, tornou ainda mais ácida as negociações entre o Fundo Monetário Internacional e a Argentina, afastando a possibilidade de um acordo. A falta de governabilidade e de um ponto final na briga que já dura meses colocaram um freio nas negociações. Como já é de costume, o pivô do desacordo foi o presidente do BC. Na última sexta-feira, em Washington, sem autorização do FMI, anunciou a visita do diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental, Anoop Singh, a Buenos Aires para conversar com os candidatos à Presidência e tentar um apoio institucional a um acordo com o governo de Eduardo Duhalde, semelhante ao que ocorreu com os candidatos brasileiros. De Buenos Aires, o ministro Roberto Lavagna atirou contra o anúncio de Pignanelli, desautorizando-o a qualquer tipo de negociação com o FMI. O objetivo da viagem de Pignanelli a Washington era o de somente dar detalhes sobre a política monetária e não negociar nada, função destinada ao secretário de Finanças, Guillermo Nielsen, a mando de Lavagna, e quem acompanhava o presidente do BC. Antes do anúncio considerado um "excesso" por fontes do FMI, tudo corria dentro do previsto. Nielsen e Pignanelli passaram os últimos três dias da semana anterior em Washington, dando os detalhes solicitados pela diretoria do FMI e discutindo as bases do rascunho da carta de intenções. Após mais uma demonstração de "desentendimentos" e lutas pelo poder entre a equipe econômica, o FMI retrocedeu em sua intenção de enviar Anoop Singh ao país e deixou o assunto continuar em banho-maria até o final deste mês, quando será realizada a assembléia anual do organismo. Por esta ocasião, viajará o ministro Roberto Lavagna a Washington. No entanto, está prevista para hoje uma discussão sobre a Argentina entre os três poderosos do FMI: o diretor gerente, Horst Köhler; a vice-diretora-gerente, Anne Krueguer, e Annop Singh. No Ministério de Economia não existem expectativas sobre alguma decisão hoje porque tudo indica que o FMI deixará qualquer anúncio para a assembléia anual. Embora o ministro insista em que o dever de casa pedido pelo FMI esteja sendo seguido à risca, o organismo pensa exatamente o contrário e reflete sua postura em declarações como a de seu porta-voz, Thomas Dawson, de que "existem muitos problemas" para serem solucionados, ou do secretário do Tesouro norte-americano, Paul O´Neill, de que "não tem sentido ajudar a Argentina". O FMI questiona os principais pontos: A situação fiscal: o acúmulo de patacones, lecops e outros papéis que funcionam como moedas paralelas tanto na economia geral como no pagamento de impostos; A suposta calma financeira, a indefinição sobre a reestruturação do sistema e sobre os amparos judiciais; A falta de negociação das tarifas com as empresas de serviços públicos privatizadas que o governo insiste em manter no freezer, ocultando uma inflação de proporções assustadoras; A falta de governabilidade com um panorama institucional caótico, no qual o Poder Judiciário ameaça voltar atrás nas principais linhas de ação da política econômica, como a "despesificação" dos depósitos. Incluindo ainda a ineficiência do governo no Congresso que aprova leis contra o plano econômico, como a prorrogação para a entrada em vigor do indexador CER para os contratos e das execuções judiciais dos devedores. A última medida que vai na contra-mão do governo obriga o Executivo a pagar indenizações aos ex-funcionários da ex-estatal YPF. Acordo no próximo governoDiante dos inúmeros reparos que o FMI vem fazendo a condução de Eduardo Duhalde, as mudanças nas negociações e seus nove meses de gestação, "o cenário mais provável é o de que o acordo será assinado somente com o próximo presidente", como afirma uma alta fonte do Ministério de Economia, confirmando informações anteriores da Agência Estado de que a diretoria do FMI não está disposta a negociar com o atual governo. Faltam quase nove meses mais para que o novo Presidente a ser eleito assuma o poder. Até lá, a fonte estima que o FMI vai continuar cozinhando o acordo em banho-maria, com a postergação do pagamento das dívidas que forem vencendo e aproveitar para ir "colocando a Argentina na linha", ou seja, fazendo com que realize de fato o dever de casa. Resta saber agora até quando o presidente Eduardo Duhalde permitirá as desavenças públicas dos dois principais expoentes de sua política econômica. Lavagna já venceu a queda de braço uma vez, demitindo o antecessor de Pignanelli, Mario Blejer. Porém, uma alta fonte da Casa Rosada afirmou à AE que os dois continuam no governo.Leia o especial

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