Negociações entre Brasil e Argentina entram em fase decisiva

Brasil e Argentina começam esta semana uma quinzena de negociações decisivas na tentativa de obter um acordo para a "guerra das geladeiras", o conflito causado pela decisão dos argentinos de restringir a entrada de eletrodomésticos brasileiros em seu mercado. A aplicação das restrições foi suspensa temporariamente por um acordo entre os dois governos, na semana passada. O secretário de Assuntos Latino-americanos da Chancelaria argentina, Dario Alessandro, informou que, a partir de hoje, empresários dos dois lados da fronteira iniciam as negociações. Na quarta-feira, em Buenos Aires, haverá reunião de técnicos dos dois governos. A guerra começou na semana passada, na véspera da reunião de cúpula de presidentes do Mercosul, quando o governo do presidente Néstor Kirchner anunciou a criação de licenças não-automáticas para a entrada de eletrodomésticos brasileiros de linha branca (geladeira e fogão), alegando que estava ocorrendo uma invasão que ameaçava a existência das indústrias argentinas. Os argentinos também impuseram uma tarifa de 21% sobre a importação de televisores. A medida estaria em vigência durante 200 dias. A expectativa é que na semana que vem, no caso de avanços nas negociações, o ministro da Economia, Roberto Lavagna, receba o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Luiz Fernando Furlan. Lavagna está pressionando o Brasil a aceitar instrumentos definitivos para resolver o que em Buenos Aires é chamado de "desajustes comerciais". Ou seja, as supostas constantes invasões de produtos brasileiros. Resistência argentinaDentro da Argentina também começam a aparecer opiniões indicando que o Mercosul poderia transformar-se em uma aliança mais "flexível", termo utilizado por Joaquín Morales Solá, um dos principais analistas políticos do país. Ele sustenta que o problema alfandegário está sendo causado principalmente pelo Brasil, "que fez da proteção de sua indústria uma religião". Morales Solá considera que, ao longo da última década, a Argentina fez concessões alfandegárias que o Brasil nunca fez e sugere que isso estaria atrapalhando um acordo com a União Européia. Ele afirma que, se a questão alfandegária dentro do Mercosul fosse mais flexível, o Chile se transformaria sócio pleno do bloco "no dia seguinte". Segundo ele, "é provável que um Mercosul se prepare para morrer e outra aliança, mais ampla e generosa, esteja a ponto de nascer". A própria Casa Rosada, sede do governo argentino, está dando um sinal simbólico de que as relações com o Brasil estão geladas. Até ontem à tarde, o site da presidência da República (www.presidencia.gov.ar) não tinha colocado uma foto sequer do presidente Néstor Kirchner ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nas fotos, Kirchner aparece ao lado do presidente chileno, Ricardo Lagos, do presidente mexicano, Vicente Fox, e do venezulano, Hugo Chávez. Além disso, Kirchner está em uma foto com o trio mais fiel de ministros: Alberto Fernández (chefe do Gabinete de Ministros), Aníbal Fernández (ministro do Interior) e Julio De Vido (ministro do Planejamento Federal e Obras). Mas, de Lula, o presidente do país que é o maior parceiro comercial da Argentina, nem um simples bite no site da Casa Rosada.

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