Negociações na Rodada Doha começam a acelerar, diz Amorim

Ministro brasileiro ganha força para continuar insistindo em suas posições com a chegada do premiê indiano

Márcia Bizzotto, BBC

23 de julho de 2008 | 10h39

Depois de um início "em câmera lenta", as negociações sobre a Rodada de Doha de liberalização do comércio mundial começam a "acelerar-se" nesta quarta-feira, 22, na avaliação do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Com a chegada de seu principal aliado, o ministro indiano de Comércio, Kamal Nath, o Brasil ganha mais força para continuar insistindo em suas posições nesta tarde, durante um debate restrito convocado pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy.  Veja também:Doha está em momento crítico, alerta premiê britânicoÍndia diz que países desenvolvidos devem propor cortes reaisOferta dos EUA gera guerra em Doha e cancela reunião de 4ªCorte de subsídios dos EUA é pouco ambicioso, diz Amorim Rodada Doha: entenda o que está em jogo em GenebraProposta de corte dos EUA não surpreende, diz especialistaEUA oferecem cortar subsídio agrícola para US$ 15 bilhões Na terça-feira, os Estados Unidos ofereceram reduzir a US$ 15 bilhões o limite para seus subsídios agrícolas. No entanto, em vez de injetar otimismo no processo, destravou uma verdadeira guerra na reunião de mais de sete horas, abriu uma crise na entidade e obrigou uma reformulação de todo o processo da semana crucial para a entidade. O encontro acabou em um caos e a solução foi a de cancelar as reuniões desta quarta-feira. Dessa forma, os países optaram por fazer consultas bilaterais para tentar solucionar a crise. Além de Amorim e Nath, também participam da reunião os negociadores da União Européia, Peter Mandelson, e dos Estados Unidos, Susan Schwab. "É preciso deixar claro que jamais estaríamos onde estamos agora, inclusive com essa oferta dos Estados Unidos, se não fosse pelo G20", afirmou Amorim. Juntos, Brasil e Índia deverão insistir em que a proposta americana é "um bom começo, mas não o suficiente", segundo palavras de Nath, que reproduzem a mesma mensagem já passada por Amorim. "Não esperamos que o início seja o fim. Esperamos ofertas melhores e realistas em relação a sua aplicação", disse o ministro indiano. "Eles lançaram a bola, mas ela não passou do meio de campo. A bola ainda está no campo deles (dos americanos)", disse Amorim. Os dois aliados também pressionarão por manter fora do acordo sobre bens industriais as chamadas cláusulas anti-concentração, que os países mais ricos querem incluir para limitar o nível de flexibilidade com o qual os países em desenvolvimento poderiam proteger determinados setores da indústria na hora de aplicar os cortes de tarifas. "Elas (as cláusulas) seriam uma forma de causar a erosão da indústria nos países pequenos. Não podemos esquecer que os países em desenvolvimento enfrentaram muitas dificuldades para se industrializar e outros países não serão capazes de se industrializar por causa dos fluxos comerciais internacionais", disse Nath. "Se (os países mais ricos) querem que isso seja o determinante do acordo, que assim seja", afirmou o ministro indiano. Cronograma Apesar das evidentes diferenças, Amorim disse acreditar que será possível chegar a um acordo até o final desta semana e que está disposto a permanecer em Genebra o tempo que fornecessário para isso. "Isso é um processo de negociação. É claro que há muitos pontos de discórdia, mas eu não vejo crise nenhuma", afirmou. Segundo o porta-voz da OMC, Keith Rockwell, "as negociações chegaram a um nível mais intenso nas últimas horas e avançam minuto a minuto", mas ainda é incerto se o cronograma, que previa o final das reuniões para o sábado, poderá ser mantido. Os negociadores devem receber um novo texto, com as propostas revisadas, nesta sexta-feira e deverão avaliá-lo e elaborar suas respostas antes chegar a uma conclusão conjunta. "Eu não descarto a possibilidade de que tenhamos que estender até a semana que vem", admitiu Rockwell.  (com Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo)

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