Negociações para o fim do corralito fracassaram

O governo do presidente Eduardo Duhalde teria fracassado em sua tentativa de conseguir uma solução para o ?corralito?, denominação do impopular semi-congelamento de depósitos bancários). A idéia do governo era a de trocar os prazos fixos confiscados por uma série de bônus em dólares e pesos, com prazos que iriam de cinco a dez anos. No entanto, os bancos não gostaram do plano do governo ? denominado de ?Novo Bonex - que implicava em que teriamque respaldar com seus ativos 30% do valor dos bônus. Além disso, os parlamentares tampouco apreciaram o plano, já que por sua causa estavam sofrendo constantes agressões da população.Depois de três semanas de intensas negociações, que incluíram gritarias e xingamentos dentro do edifício do ministério da Economia, entre banqueiros e o ministro Roberto Lavagna, este último admitiu ao jornal Clarín que ?o plano está redigido e o decreto pronto. Mas ele tem um custo fiscal significativo para o Estado, e ninguém está satisfeito com sua aplicação. Vamos repensá-lo?.Dependendo da fonte dos cálculos, o custo fiscal do plano estaria entre 12 bilhões de pesos e 25 bilhões de pesosEnquanto o governo tenta administrar este fracasso, hoje terá um raro momento de alívio, quando o Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID) assinará um empréstimo de US$ 700 milhões para a Argentina, a ser utilizado somente para o financiamento de programas sociais. O próprio presidente do BID, o uruguaio Enrique Iglesias, virá à Buenos Airesassinar o acordo de crédito.Este é o primeiro crédito que o país recebe desde o anúncio de default da dívida externa pública em dezembro do ano passado. Além desta remessa, o BID concederia à Argentina outros US$ 700 milhões.No entanto, esta outra parte da ajuda financeira somente seconcretizará depois que a Argentina assinar o acordo com o FMI. Para que isso aconteça, o governo Duhalde precisará conseguir que o Senado aprove a reforma da lei de falência das empresas e que a Câmara de Deputados aprove a eliminação da lei de subversão econômica. O governo teme que as duas medidas não sejam aprovadas, e por isso, enviará amanhã (terça-feira) o chefe do gabinete de ministros, Alfredo Atanasof; o ministro da Economia, Roberto Lavagna e o ministro do Interior, Jorge Matzkin, participarão dos debates nas comissões parlamentares, para argumentar a necessidade da aprovação como forma deevitar o colapso financeiro argentino.A idéia do governo é que Duhalde possa - já com uma definição sobre estas medidas nas mãos - desembarcar tranqüilo em Madri na quarta-feira, para a reunião de cúpula de países da União Européia e Mercosul.No mesmo dia, sem poder contar com a ajuda financeira do FMI, a Argentina pagará com reservas do Banco Central os US$ 808 milhões que deve ao Banco Mundial. A intenção é evitar um default com organismos financeiros internacionais. A Argentina declarou o default da dívida externa pública em dezembro, mas excluiu do calote os organismos. Ainda esta semana, o governo espera conseguir a assinatura das províncias para os acordos individuais de ajuste de 60% de seus déficits fiscais, a principal exigência do FMI para conceder a ajuda financeira. Até agora, somente cinco (de um total de 24 províncias) assinaram. Destas, apenas uma delas, a de Córdoba, é uma das províncias ?grandes?. O maior problema do governo Duhalde é conseguir a assinatura da província de Buenos Aires, responsável por quase a metade do déficit total das províncias.Conflito SocialA tensão social aumenta dia a dia nas províncias argentinas. Ontem de madrugada, na cidade de Mercedes, na província de Buenos Aires, quarenta jovens destruíram as fachadas de um supermercado, e de cinco bancos. Nessa província, onde está concentrada a produção de um terço do PIB argentino e 36% da população do país, a crise econômica teve um impacto maior do que no resto da Argentina. A Grande Buenos Aires, o cordão de cidades ao redor da capital argentina, deixou de ser o principal pólo industrial da América Latina, para, em 30 anos, transformar-se em um cenário de milhares de empresas fechadas e piquetes nas estradas feitos por desempregados que pedemtrabalho e comida. Ali, 43% da população é pobre.Nessa região existe grande preocupação pela próxima sexta-feira, quando o governo começará a funcionar o programa de trabalho temporário. Nesse dia, 1,05 milhão de pais e mães de família começarão a receber o subsídio de 150 pesos mensais. O problema é que houve irregularidades nos registros para receber o subsídio, o que poderiacausar protestos daqueles que ficaram de fora.Além disso, os funcionários públicos da província ? inclusive a polícia - ainda não receberam seus salários, o que poderia causar uma preocupante ausência das forças de segurança nos momentos de eventuais distúrbios.A necessidade de implementar o programa de trabalho temporário é urgente para o governo. Só no último mês surgiram 2 milhões de novos pobres, a grande maioria, proveniente da arruinada classe média.

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