Negócio tem, mas é difícil de fazer

 Há uma sensação estranha nos mais diversos setores da economia brasileira.

Carlos Alberto Sardenberg,

26 de setembro de 2011 | 03h06

De um lado, a percepção é boa. As empresas estão vendendo e em expansão, os mercados se ampliaram com as novas classes médias, há novos negócios. O pessoal espera uma desaceleração, mas nada dramático. Acredita-se que o País vai continuar crescendo, especialmente por causa dos novos setores e dos eventos, Copa do Mundo de 2014 e Olimpíada de 2016.

 

De outro lado, e em consequência mesmo dessa atividade forte, aumenta o desconforto com os diversos bloqueios do custo Brasil.

 

Mais ou menos assim: num ambiente de paradeira, você precisa do aeroporto poucas vezes, percebe que o serviço é ruim, mas, afinal, dá para levar. Quando o negócio acelera, você precisa receber encomendas e fazer entregas todos os dias - e aí o aeroporto mostra toda a sua ineficiência.

 

Vale para todo o resto. Obter uma licença ambiental ou de construção é enrolado, mas uma só, vá lá. Tente obter várias delas ao mesmo tempo.

 

E assim vai. Por toda parte, encontro esse estado de espírito tipo “já passa dos limites” ou “assim não dá”. E, mais recentemente, noto uma bronca com a inconstância do governo federal - ou seja, com as abruptas mudanças de regras e, digamos concretamente, com os equívocos que saem de tanta improvisação.

 

Não se trata apenas das regras federais, como o súbito aumento do imposto para importadores de carros. Muita gente reclama do mesmo comportamento dos diversos órgãos do governo e também das estatais.

 

E todo mundo nota que o governo faz isso e aquilo, mas não toma nenhuma medida relevante na direção de abater os principais aspectos do custo Brasil.

 

Há, também, um claro desconforto com o tratamento desigual - o fato de determinados empresários terem acesso mais fácil ao governo.

Todos ficam nessa sensação estranha: caramba, há tanto negócio por fazer, mas nesse ambiente, haja esforço.

 

Custo real. Segue aqui um exemplo, a descrição de eventos reais ocorridos com uma empresa que produz fios de cobre e alumínio destinados a geradores de energia eólica e hidráulica, compressores, entre outros.

 

Por razões comerciais, não vamos citar o nome da companhia. Podemos dizer, porém, que é predominantemente de capital nacional, líder de mercado e fatura cerca de R$ 600 milhões por ano. Nos últimos cinco anos, investiu perto de R$ 90 milhões em novos equipamentos. Tem políticas de recursos humanos e de respeito ao meio ambiente reconhecidas por clientes multinacionais, alinhados aos padrões mundiais. E é também classificada como um bom lugar para trabalhar.

 

Eis seus diversos momentos de custo Brasil, conforme descrição de seus executivos:

 

 Desde 2006, com algumas oscilações, a taxa do dólar está por volta de R$ 1,70. Já as negociações salariais levaram a um aumento do custo de mão de obra de 56,6% no mesmo período;

 

 A energia elétrica custava metade do preço europeu. Agora está acima, basicamente em virtude da carga tributária superior a 50% do preço final;

 

 A empresa tem mais de R$ 10 milhões de créditos tributários, por causa de impostos recolhidos em operações de exportação e que o governo é obrigado a devolver. Mas isso demora, o crédito não é corrigido, enquanto a empresa se financia aos atuais juros do mercado financeiro;

 

 Os investimentos locais tiveram incidência de ICMS, PIS e Cofins, além de imposto de importação para as máquinas produzidas no exterior. A empresa tem direito a recuperar esses tributos, mas o governo demora em devolver;

 

 Para um novo investimento, o custo do financiamento será superior a 10% ao ano e haverá retenções de tributos decorrentes da atual legislação tributária;

Os materiais de consumo utilizados na fábrica não dão direito a crédito do ICMS;

 

 Os tribunais decidiram que tributos incidentes sobre o transporte de matérias-primas ou produtos acabados de uma fábrica para outra do mesmo contribuinte não podem ser creditados e aumentam o custo do frete;

 

 A construção de novas edificações passa pela burocracia das seguintes entidades: Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Corpo de Bombeiros, INSS, Ministério do Trabalho, Prefeitura Municipal, Vigilância Sanitária, Cartório de Registro de Imóveis e novo registro na Prefeitura;

 

 A implantação do Sped, o Sistema de Processamento de Dados da Receita Federal (e estadual) tem custado uma enorme quantidade de recursos às empresas: R$ 1 milhão, no caso de nosso exemplo, e mais R$ 250 mil anuais de manutenção;

 

 Os custos de logística são altos em virtude da infraestrutura deficiente, dos portos caros, da burocracia das aduanas e, diz um executivo, “da falta de sensibilidade dos funcionários públicos que nos tratam como bandidos até que provemos o contrário”;

 

 A empresa trabalha com processos de drawback há mais de 20 anos. Em 2010, a Receita mudou seus sistemas de controle e informações passadas foram perdidas. A Receita determinou que a empresa digitasse novamente milhares de documentos de exportação. A empresa recorreu e está aguardando. Custo judicial;

 

 E em cima desse custo Brasil vem a concorrência externa, leal e desleal. Há pequenas centrais hidrelétricas, por exemplo, produzidas na Coreia, que entram como se fossem do Mercosul. Mas tem concorrente coreano que consegue oferecer preços menores aqui com produtos fabricados nos Estados Unidos.

 

 

 

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