Nelson Barbosa: 'Às vezes faz parte da política econômica suavizar o reajuste de preços'

Na terceira edição da série 'Diálogos", Nelson Barbosa e Samuel Pessôa conversam sobre as escolhas de política econômica que levaram a uma inflação persistente e ao represamento de tarifas quando o País cresce pouco

Entrevista com

Diálogos: Inflação

Alexa Salomão, Ricardo Grinbaum, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h01

O economista Nelson Barbosa e o físico com doutorado em Economia Samuel Pessôa estão em campos opostos do ideário político-econômico. Barbosa é mais alinhado ao pensamento do PT, Pessôa, ao do PSDB. Ambos dividem os corredores da Fundação Getúlio Vargas como professor e pesquisador e no que se refere aos fundamentos da economia, concordam: meta de inflação foi feita para ser cumprida. Barbosa, porém, entende as opções do governo: "Trazer a inflação para o centro da meta não é uma escolha trivial: se fizer rápido tem um custo social". Pessôa tem outra visão: "O governo tolerou a inflação por muito tempo". A seguir trechos da conversa que tiveram no estúdio da TV Estadão.

Estado: O governo errou a mão no combate a inflação?

Samuel Pessôa: Eu acho que o governo errou a mão. A inflação está muito acima da meta há muito tempo. No meu entendimento, o regime de metas da inflação tem uma regra de funcionamento: a inflação tem de ficar na meta. A banda de ajustamento - de dois pontos porcentuais acima da meta e dois pontos abaixo da meta - é para se ajustar a choques e dar uma margem de manobra. Quando a inflação fica fora da meta e a economia sofre um choque, você tem problemas para ajustar. A gente está vendo essa situação. Há uma pressão para o câmbio desvalorizar, mas o Banco Central não pode deixar desvalorizar porque vai rebater na inflação e ela vai ultrapassar o teto da meta. Se a inflação estivesse na meta, poderíamos absorver o choque de desvalorização cambial e fazer uma política fiscal e monetária para trazer ela de volta para a meta.

Nelson Barbosa: Eu não colocaria como erro de política econômica. Trazer a inflação para o centro da meta não é uma escolha trivial: se fizer muito rápido tem um custo social. A política de metas de inflação envolve uma decisão sobre a velocidade em que você vai convergir para a meta. Teve um choque de alimentos em 2012 que elevou a inflação. Basta lembrar a inflação do tomate, que foi capa de revista. Teve também uma mudança no cenário internacional que gerou uma depreciação do real. Pegando a taxa de câmbio real, a depreciação foi cerca de 20% entre o final de 2011 e o final de 2012. Isso tem impacto inflacionário, ainda mais numa situação de alta do emprego e com os preços dos serviços ainda pressionados. Uma convergência rápida para a meta nesse cenário poderia significar uma desaceleração do crescimento, que prejudicaria o emprego. O governo escolheu uma convergência mais suave. Mas em termos históricos não é uma inflação tão elevada. Hoje nós estamos chamando 6%, 6,5% de inflação elevada. É para lembrar que no final de 2002 a inflação foi a 12,5% e chegou a 17% em fevereiro de 2003. O Brasil já conviveu com choques desse tipo e conseguiu trazer a inflação para meta num período razoável.

Estado: A gente sabe que há preços administrados represados. Qual é a inflação de fato hoje? Olhando para frente, como se faria o realinhamento dos preços?

Pessôa: O represamento de preços faz com que durante um intervalo de tempo a inflação seja menor do que seria e, quando corrigir, durante um intervalo vai ser maior do que seria. O represamento aconteceu nos últimos dois ou três anos. Não sei exatamente a cronologia, mas a inflação é 1,5%, 2% maior do que o indicador mostrou. Portanto, quando o represamento for desfeito - e estamos começando a desfazer porque a energia elétrica já está subindo acima da inflação cheia - vamos ter uma inflação 1,5, 2 pontos porcentuais acima do que deveria ser durante a correção.

Barbosa: Nós já temos um exemplo neste ano. Grande parte do aumento da inflação este ano decorre do aumento do preço da energia, que está subindo na casa de dois dígitos. No ano passado, se não me engano, a inflação foi 5,9%. Neste ano, a expectativa do mercado é de 6,3%. Isso vai ter um impacto. Vários preços são controlados. Passagem de ônibus é uma decisão municipal. Não tem reajuste há dois anos, ao menos aqui em São Paulo. Então: está represado ou não? É a política adotada por um governo eleito. Às vezes faz parte da política econômica suavizar os reajustes de preços. Agora, contando os ajustes que ainda precisam ocorrer, isso deve manter a inflação alta ou até elevá-la temporariamente. Mas por ser um reajuste que não está ligado à demanda, se a política macroeconômica for bem administrada, o reajuste é rapidamente absorvido pela economia.

Estado: Fernando Henrique disse que esta eleição seria decidida na feira, por causa da inflação. Vocês concordam? E qual seria a diferença da política de combate à inflação do PT e do PSDB em 2015?

Pessôa: Foi um pouquinho. Como o Nelson lembrou, teve aquele choque de alimentos no começo do ano passado, e ele pesou muito na feira. Deu a inflação do tomate. E o primeiro tombo que a popularidade da Dilma - que estava em níveis muito altos e foi de dois pontos porcentuais, eu acho, em maio, antes das manifestações - foi associado a essa inflação. Esse fator descomprimiu.

Barbosa: Eu acho que o eleitor não se pauta por uma só questão. A inflação de alimentos, como o Samuel colocou, tem grande impacto na sensação de bem-estar. Então, realmente o índice de aprovação do governo flutua de acordo com a inflação de alimentos. Mas se fosse só inflação da feira, seria uma situação favorável ao governo agora, porque o preço dos alimentos está desacelerando. Mas não acho que o eleitor quer só comida, como diz a música dos Titãs e ficou claro nas manifestações. Os protestos eram por melhor transporte urbano, saúde e educação. A pauta do eleitor é diversificada. Mas é claro que inflação é importante. Inflação baixa e inflação de alimento controlada são obrigações de qualquer governo.

Pessôa: Voltando a pergunta sobre diferenças entre os partidos, eu acho que a diferença está mais no passado. Esse governo tolerou muito a inflação, inclusive no controle dos preços. O que acho muito ruim. Entendo o Nelson. O Nelson lembrou que lá atrás a inflação já chegou a ser mais alta. É verdade. A gente já conviveu com a hiperinflação. O problema é que a gente está num processo de melhora da sociedade, das instituições. Melhora civilizatória. Ficar comparando com o passado não me parece uma coisa muito saudável. Graças a Deus, o Brasil não é como a Argentina, que piorou. E mais: a coisa que mais me incomoda é que a política adotada quebrou alguns consensos que demoramos anos para construir. O maior consenso que o governo quebrou - e ao fazer isso impõe um custo aos governos futuros, inclusive, se for reeleito, um custo a si mesmo - é o represamento de preços administrados. Tentamos por décadas controlar a inflação controlando tarifas de utilidade pública. O problema dessa política é que na hora em que você entra nela é difícil sair. É como um alcoólatra. É difícil parar de beber. Você foi ao AA. Fez o maior esforço. Conseguiu virar sóbrio. Não pode beber. É mais ou menos assim. Acho que agora a gente vai ter uma difícil construção: devolver esses preços. Vai doer. Vai bater no bolso.

Barbosa: O passado é sempre um bom guia. Indica que a economia brasileira tem uma capacidade de ajuste muito mais rápida que a maioria das pessoas pensa. Não falo pelo PT, nem pela campanha da presidente Dilma, mas acho que a política de meta da inflação é uma política consolidada. Acho que todos os governos vão continuar com ela. Isso não está em discussão. Mas a política de metas de inflação envolve, sim, uma discussão sobre a velocidade de convergência para a meta. Essa velocidade envolve que tipo e qual o tamanho de custo social você está disposto a incorrer. Aí eu acho que pode ter uma diferença entre os partidos. O governo do PT, da Dilma, tem uma preocupação maior com o custo social. Não acho que a inflação pode ficar elevada. A inflação deve ficar na meta, de 4,5%. Acho difícil achar economistas favoráveis ao controle de preços. Essa suavização que o governo tentou fazer, hoje, começa a criar tantos problemas quanto soluções. Você acaba mantendo a inflação esperada, infelizmente, ainda alta. Às vezes é melhor você deixar os preços se ajustarem mesmo que isso tenha um impacto no curto prazo - a inflação ficar temporariamente acima da meta. Você escreve a carta. Explica porque isso aconteceu. E a economia se ajusta rapidamente. A melhor maneira de você proteger os mais pobres não é controlando preço. É com política fiscal, com política social, que direciona transferências de renda, benefícios públicos, principalmente para os mais pobres.

Estado: Essa atualização dos preços, o Nelson acha que deveria ser gradual. Você, Samuel, acha que deveria ser mais imediata?

Pessôa: Eu acho que se for possível ser mais rápido, melhor. A gente tem que ver o que é possível. Qual vai ser o espaço para fazer o ajuste. Esse ajustamento tem implicações para a inflação, se for muito rápido. Me preocupo muito com a situação fiscal. Como que a gente vai arrumar a casa fiscal no ano que vem? Então, me parece, que arrumar tem implicação políticas, implicações para a inflação e para as contas públicas. A gente só vai conseguir desenhar uma estratégia clara de como enfrentar esse problema chegando lá.

Barbosa: São vários preços. Acho importante analisar o conjunto. Nós já temos reajustes de energia na casa dos dois dígitos, ao menos pelos próximos 12 meses. Provavelmente, por mais tempo. Na questão dos combustíveis depende de para quem você pergunta qual vai ser o tamanho do aumento necessário. Esses preços que o governo tem uma certa discricionariedade devem ser o mais rápido possível, sem tirar a economia do equilíbrio. Sem gerar uma instabilidade que acabe afetando as expectativas e gerando uma espiral pessimista. Não dá para dizer qual seria o mecanismo ideal. O outro ajuste, nesse controle de preço, é o ajuste inevitável da taxa de câmbio. As condições do Brasil e do mundo mudaram. O câmbio já tem se depreciado. Tudo indica que precisa de uma depreciação adicional - porque estamos com déficit em conta corrente elevado, ainda financiado por capitais de curto prazo. Nós não emitimos a moeda internacional e sobre esse ajuste temos um controle menor. A esse eu sou mais favorável a um ajuste mais rápido. Deixa o câmbio flutuar. Vai ser melhor para a economia brasileira num nível mais elevado, no médio prazo. A produtividade e a competitividade vão crescer mais rapidamente.

Estado: Qual seria o impacto da desvalorização sobre a inflação, uma vez que a inflação já está rodando em um nível mais elevado?

Barbosa: As medidas que a gente chama de pass-through (repasse da taxa de câmbio para os preços) hoje variam entre 4% e 6% ao longo de um ano e meio. Isso depende do que vai acontecer com o resto da economia. Você está hoje num nível de atividade mais fraco. Talvez o impacto seja menor. As medidas de pass-through dependem muito também se você inclui ou não o combustível na conta. São dois problemas.

Pessôa: Eu concordo com o Nelson. De fato, se as coisas estão interligadas, a gente pensa, devolver os combustíveis rápido pode ser muito ruim. Mas, por outro lado, devolvendo os combustíveis mais rápido, a desvalorização cambial requerida diminui e você ganha pelo outro lado. A macroeconomia é um grande equilíbrio geral. Todas as coisas são interligadas.

Barbosa: Tem um trade-off (conflito de escolha). Quanto mais rápido é o ajuste de preços administrados, menos o câmbio deprecia e vice-versa.

Estado: O Samuel concorda que tem de deixar o câmbio se depreciar mais, que o Banco Central está represando...

Pessôa: Com certeza: acho que a gente tem que deixar flutuar...

Barbosa: Não é depreciar. É flutuar. Eventualmente ele vai parar em algum lugar...

Samuel: Eu acho que esse problema que o BC enfrenta é fruto de ele não ter operado o regime de metas de inflação como tem que ser operado. Se tivesse mantido a inflação mais próxima da meta, teria espaço para acomodar essa desvalorização. Como o Nelson falou, o efeito não é tão grande. O Brasil virou uma economia muito diferente daquela dos anos 90, em que o repique inflacionário da desvalorização do câmbio era muito. Está mais parecido com uma economia grandona. Vai nos Estados Unidos: o dólar sobe, desce, e inflação sente pouco. A Europa a mesma coisa. A gente está mais parecido com isso. Um país grande. Uma baleiona.

Estado: Que inflação vocês projetam para 2015?

Pessôa: O número que eu vi e me parece razoável é próximo do teto da meta. Eu acho que a inflação no ano que vem vai ficar um pouquinho acima da deste ano, que deve fechar em 6,3%, 6,2%. Acho que ano que vem volta a 6,5%, talvez um pouco mais, mas com uma pressão muito menor. Serviços, que rodou 8,2%, 8,3% neste ano, vai estar rodando a 7,2%, 7,5%. Vai estar mais fraco. Livres de forma geral, mais fraco. Administrados, mais fortes, devem rodar a 8%.

Barbosa: Acho que é isso. Ano que vem você tem a inflação de administrados mais alta que a de preços livres. A inflação fica ainda entre 6% e 7%. É difícil dizer. Eu achava que no pior cenário poderia ficar entre 6,5% e 7%. Mas a economia desacelerou neste ano. No ano que vem, o crescimento vai ser maior do que neste ano, mas será um crescimento lento. Provavelmente, fica abaixo da meta, mais para 6% e 6,5%.

Estado: Os críticos do governo dizem que o teto virou o centro da meta. Vocês concordam?

Pessôa: Eu concordo e o Nelson, não (risos).

Barbosa: (risos) Vamos ter que perguntar ao Banco Central. Não acho que virou o teto. Em nenhum momento o Banco Central, a autoridade que tem de cumprir a meta, disse que persegue 6,5%. Disse que persegue uma convergência não linear ao centro da meta, num período mais longo.

Pessôa: Uma possibilidade é perguntar para o Banco Central. A outra é tentar aplicar algum método estatístico aos dados que a gente observa e fazer uma conta de chegada, uma pergunta inversa: dado que observo o que o Banco Central tem feito, qual é a meta que, na prática, ele persegue? O que a estatística me diz? Se eu fizer um teste, vai dar algo como 5,7%. Aparentemente, o Banco Central nos últimos três, quatro anos, persegue uma meta próxima a 5,5%.

Barbosa: Isso pode ser descrito como persegue uma inflação mais alta no curto prazo, trabalha com um período de convergência mais longo.

Estado: Nelson mencionou que a inflação é mais baixa quando comparada a do passado, mas...

Barbosa: A inflação está mais baixa. Mas eu considero a inflação atual elevada. Inflação acima do centro da meta para mim é inflação elevada.

Estado: Considerando que a inflação é resistente, num momento de baixo crescimento, alguns dizem que estamos com estagflação. Os srs. concordam?

Pessôa: Eu escrevi uma coluna com esse título. Tem um cheiro de estagflação. Nos últimos quatro trimestres nosso crescimento foi negativo em três, a inflação está muito alta. A perspectiva é que em cinco trimestres serão quatro com crescimento negativo. Isso me parece alguma coisa parecida com estagflação. Eu não sei exatamente qual seria a definição precisa de estagflação. Esses conceitos precisos acho que são pouco úteis. As vezes você precisa usar essa definição, mas me parece um pouco boba.

Barbosa: Nós economistas usamos esses rótulos com um sentido muito técnico. Recessão: alguns chamam de dois trimestres (de PIB) negativos, outros, de queda conjunta de vários indicadores, segundo a metodologia de ciclos econômicos. Então, do ponto de vista de recessão, não dá para dizer que estamos numa agora. Você tem que considerar não só o PIB, mas também outros indicadores. A taxa de emprego ainda está elevada, a geração de vagas deu uma recuperada em agosto. A gente sem dúvida tem uma desaceleração do crescimento, com uma aceleração da inflação. Claramente, neste ano - no caso da inflação - devido ao aumento do preço da energia. É um caso clássico de choque adverso de oferta.

Estado: Um Banco Central independente pode ajudar no controle da inflação?

Pessôa: A última vez que vi estudos sobre esse tema me parece que a evidência empírica é que em países com Banco Central independente a inflação é de fato mais baixa. Tem um ganho, mas não é muito grande. Mas a independência do Banco Central é uma evolução institucional. Para adotá-la, é preciso que haja um consenso na sociedade que combater inflação é importante. Por outro lado, vamos ter de fazer um monte de coisas ano que vem - em particular, do ponto de vista microeconômico, a agenda mais importante é a reforma tributária. Não sei se gastar esforço e capital político com independência do Banco Central seja a coisa mais importante.

Barbosa: Eu não usaria o termo independente. Acho que ele está mal colocado. O Banco Central tem de ter autonomia para fixar a taxa de juros. A prova disso é que elevou a taxa de juros em um ano eleitoral. Também não vejo problema em dar mandatos para os dirigentes do Banco Central. Mas eu acho que essa não é só uma discussão de taxa de juros. É sobre política monetária e cambial. Juros é a parte mais fácil. O Banco Central também administra as reservas do País, faz operações, como a de swap cambial, administra a liquidez de reservas, participa da regulação financeira. Acho que dar mandatos para os dirigentes do Banco Central implica discutir profundamente como ficam todas essas atribuições.

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