Nem a Black Friday salva o comércio e vendas voltam a cair em novembro

Nem a Black Friday salva o comércio e vendas voltam a cair em novembro

Estima-se que o arrocho do crédito e da renda, acompanhado de aumento do desemprego e da inflação vão fazer com que as vendas do varejo caiam neste ano 7,1%, a maior retração desde 2004; empresas vão deixar de faturar R$ 120 bilhões

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2015 | 21h51

Nem mesmo a Black Friday, a megaliquidação do comércio realizada em novembro, foi capaz de salvar o desempenho do varejo do mês. O Indicador Serasa Experian de Movimento de Atividade do Comércio caiu 0,3% em novembro em relação a outubro, descontadas as variações de vendas que normalmente ocorrem entre esses meses. Foi a sexta queda seguida do indicador, apesar das promoções por causa do evento.

O aperto no bolso do consumidor neste ano frustrou até mesmo a expectativa de aproveitar as promoções. Isso é o que revela uma enquete feita com cerca de 800 consumidores sobre a Black Friday pelo Instituto H2R Pesquisas em parceria com Netquest.

Segundo a pesquisa, o principal motivo alegado pelos entrevistados para não ir às compras foi a falta de dinheiro, com 39% das respostas. “Não tem Black Friday que salve as vendas”, diz o economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes.

Ano. Neste ano, as vendas do comércio varejista brasileiro devem cair 7,1%, a maior retração desde 2004. Atropelados pelo aumento da inflação, do desemprego, pela menor oferta de crédito e pela retração na renda do consumidor, os empresários vão deixar de faturar em 2015 cerca de R$ 120 bilhões. Só no Estado de São Paulo, a perda de vendas é de R$ 40,5 bilhões em comparação a 2014, segundo cálculos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP)

“É um ajuste fiscal de uma vez só”, compara o economista da Fecomércio-SP, Fábio Pina, responsável pelas projeções, observando que as cifras do déficit fiscal e da perda do faturamento do comércio no País são praticamente equivalentes.

Para 2016, o quadro não deve ser muito diferente. “O problema não é 2015, ele está dado. O problema é 2016”, afirma Pina, que espera uma retração de 5,1% do varejo no ano que vem.

A CNC estima uma retração de 4,8% nas vendas em 2016, podendo passar de 5%, a depender do resultado do varejo de outubro. “Com o aumento da incerteza política, o cenário deve se agravar em 2016 porque a confiança dos empresários e dos consumidores vai derreter. Isso inibe o investimento, o consumo e as vendas do comércio”, diz Bentes.

O tombo que o varejo tomou neste ano foi concentrado nos bens duráveis, cujas vendas estão atreladas ao crédito e à confiança do consumidor para se endividar por um prazo mais longo. Bentes diz que o consumo nos últimos dez anos foi o motor da economia, puxado pelos bens duráveis, cujas vendas cresceram nesse período sempre acima da média do comércio varejista. “Mas neste ano o motor fundiu.”

A Fecomércio-SP estima que o faturamento das concessionárias de veículos tenha caído 16,6% em 2015, descontada a inflação; nos eletroeletrônicos o recuo pode ter chegado a 15,1%, e nos materiais de construção a 12,2% em comparação com o resultado de 2014.

Pina observa que, apesar de os supermercados e hipermercados responderem pela maior fatia das vendas no varejo (33%) e, de acordo com as suas projeções, a expectativa desse setor é fechar o ano com crescimento de 2,5%, esse avanço será insuficiente para compensar a queda nos bens duráveis.

Até os shoppings, que sempre se destacaram pelo otimismo nos negócios, têm projeções mais moderadas. De janeiro a setembro, o setor ampliou em 2,5% as vendas em relação ao mesmo período de 2014, levando em conta os mesmos shoppings, segundo a Abrasce, que reúne os shoppings. Como o dados não descontam a inflação que neste ano acumula avanço de 9% até outubro, isso significa que as vendas do setor perdem para a inflação no período. Para o ano, a Abrasce espera um aumento de 6% a 7% nas vendas nominais, considerando os novos shoppings em operação. Em janeiro a expectativa era crescer 8%. “Ninguém esperava que o ano fosse ser desse jeito”, diz a superintendente da Abrasce, Adriana Colloca.

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