Nem com ar-condicionado

Estudo mostra que produtividade dos países desenvolvidos, ao contrário do que apontavam outras pesquisas, será prejudicada por mudanças climáticas

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2015 | 02h03

"Não esqueça de trazer um agasalho", aconselha um empresário de Cingapura sempre que algum conhecido seu resolve visitar a cidade-Estado. "É que a melhor parte do nosso clima é o ar-condicionado." O recém-falecido Lee Kuan Yew, legendário primeiro-ministro que em seus mais de 30 anos no cargo levou o país do terceiro para o primeiro mundo, provavelmente estaria de acordo: para ele, o ar-condicionado era a maior invenção do século 20. Outro político cingapuriano certa vez disse que, se não fossem os sistemas de climatização, os operários do país passariam o dia "sentados embaixo dos coqueiros", e não trabalhando em fábricas de alta tecnologia.

Cingapura é rica o bastante para conservar amena a temperatura de seus ambientes internos. A vizinha Indonésia, não. Até pouco tempo atrás, os economistas achavam que, por dispor de maior potencial de climatização artificial, os países desenvolvidos seriam capazes de restringir os prejuízos que as temperaturas mais elevadas, resultantes do aquecimento global, devem trazer para suas economias. Estudo comparativo publicado em 2012 indicava que temperaturas mais elevadas, embora prejudicassem a atividade econômica em países pobres, não parecia afetar o crescimento dos países ricos. É difícil comparar o impacto da temperatura sobre o crescimento em países de clima quente e frio, pois há muitas variáveis a serem controladas. Optando por um caminho indireto, o estudo comparava a variação do crescimento de um dado país em anos mais quentes e mais frios. Os resultados encontrados mostravam que, nos países pobres, em média, temperaturas mais altas estavam associadas com taxas inferiores de crescimento. Mas entre os países ricos, alguns cresciam mais em anos quentes, outros em anos frios, indicando a inexistência, no mundo desenvolvido, de uma correlação clara entre temperatura e crescimento.

Um artigo publicado esta semana na revista Nature contesta esses resultados. Seus autores - Marshall Burke, Solomon Hsiang e Edward Miguel - suspeitavam que os economistas estavam em busca da coisa errada: uma relação linear entre temperatura e crescimento econômico. Em vez disso, optaram por identificar uma temperatura ótima, partindo do pressuposto de que o crescimento não deve ser menos afetado por um frio de rachar do que por um calor de matar passarinho.

E foi exatamente isso que verificaram: os anos em que faz mais calor que o normal são benéficos para todos os países, ricos assim como pobres, até uma temperatura anual média de 13ºC, acima da qual o calor começa a prejudicar o crescimento. Isso permite fazer inferências sobre o efeito provável das mudanças climáticas: no Brasil, por exemplo, uma elevação de 3ºC na temperatura deve provocar uma queda de 3% do PIB.

Resistência ao calor. A aparente resistência dos países ricos ao calor é apenas reflexo do fato de que alguns deles, como Alemanha e França, encontram-se do lado mais frio da temperatura ótima e, portanto, crescem em ritmo mais acelerado em anos durante os quais faz mais calor, ao passo que outros, como Estados Unidos e Austrália, estão do lado mais quente, e, em vista disso, veem seu crescimento arrefecer sob temperaturas mais elevadas. Nos condados americanos, por exemplo, segundo versão preliminar de artigo de Solomon Hsiang e Tatyana Deryugina, do National Bureau of Economic Research, um dia quente (quando a temperatura média em 24 horas fica entre 24ºC e 27ºC) reduz em 20% a renda média per capita nesse dia. Dias de muito calor (com temperaturas acima de 30ºC) provocam queda de 28% na renda per capita. A decisão de avaliar o impacto médio da elevação da temperatura, tomando os países ricos como um conjunto, obscurecera esses efeitos tão significativos.

Ironicamente, o fato de que as temperaturas do planeta estejam mudando levou alguns economistas a questionar esses resultados, já que não há mais uma base firme de comparação. No nível micro, porém, encontram-se fartas evidências do que seja uma temperatura ótima. Os agricultores, por exemplo, obtêm excelentes colheitas quando não está nem muito quente, nem muito frio. O desempenho dos trabalhadores também é melhor em condições amenas. Nos anos 40, a Marinha britânica encomendou a primeira pesquisa sobre temperatura e produtividade de que se tem notícia. Operadores de código Morse foram colocados em recintos com diferentes temperaturas. Os que ficaram em ambientes onde a temperatura chegava a 40ºC cometeram dez vezes mais erros do que aqueles instalados em lugares onde a temperatura era de 30ºC.

Seguindo nessa linha, um artigo publicado no ano passado no Journal of Labour Economics, mostra que os operários americanos dos setores de construção civil, indústria e transportes encerram o expediente mais cedo quando a temperatura ultrapassa os 29ºC, trabalhando uma hora a menos, em média, por dia. Com uma incidência cada vez maior de dias quentes, ou as empresas contratam mais pessoas para realizar o mesmo trabalho, ou terão de pagar salários mais altos para convencer os trabalhadores aguentar o calor, do mesmo modo que remuneram melhor os que se dispõem a enfrentar a inconveniência de trabalhar no turno da noite. Nos Estados Unidos, os setores onde os trabalhadores estão mais diretamente expostos a variações na temperatura empregam 28% da força de trabalho, informa estudo recente que procura determinar os efeitos das mudanças climáticas para a economia americana.

Refresco salgado. É possível tentar mitigar os efeitos do aquecimento, mas esfriar as coisas custa caro. Em Cingapura, os sistemas de ar-condicionado consomem 40% da energia usada pelos edifícios. Se nada for feito para estancar o aquecimento global, o consumo mundial de eletricidade deve crescer 83% entre 2010 e 2100, só por conta do uso mais frequente de ares-condicionados, ventiladores e refrigeração, dizem Lucas Davis e Paul Gertler em artigo publicado em março no periódico PNAS. Richard Tol, da Universidade de Sussex observa que, nos países frios, a construção de residências e escritórios sempre visa a conservação de calor, com grandes janelas voltadas para o Sul. Reformar essas construções poderia ajudar a criar ambientes mais frescos, mas o custo seria alto.

Os efeitos negativos do aquecimento global para os países ricos evidentemente vão muito além da queda da produtividade associada a temperaturas mais elevadas. As mudanças climáticas não só tornarão o planeta mais quente, como farão subir o nível do mar e intensificar perturbações atmosféricas, como furacões. Muitas das grandes cidades do planeta estão no litoral, o que significa que precisarão de proteção. Economistas ambientais trabalham há décadas em cálculos sobre o cataclismo, tentando determinar, por exemplo, se seria preferível erguer dispendiosas defesas costeiras para preservar o distrito empresarial de Cingapura, ou permitir que ele seja inundado.

Mas, mesmo que os países ricos consigam se proteger dos piores efeitos do aquecimento global, não estarão livres de suas repercussões. O comércio com lugares mais vulneráveis entrará em declínio; os refugiados proliferarão. Pretende-se que da conferência sobre mudanças climáticas a ser realizada em Paris no mês de dezembro saiam várias medidas para evitar esses desdobramentos. O conhecimento mais aprofundado a respeito do impacto nefasto das altas temperaturas sobre a economia deveria servir como incentivo adicional para que os países ricos se abram para um acordo.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

 

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