Marcos Müller
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Nem explicação nem arrependimento

A autocrítica precedida pela transformação da mente é essencial para uma virada eleitoral, mas o PT precisará superar a arrogância antes

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2018 | 21h00

Uma das principais marcas deste final de campanha é a arrogância. E não é só do PT.

“Não dá para o PT pedir desculpas por ter ido para o segundo turno. O PT tem 30% dos votos deste país”, afirmou a presidente do PT, Gleisi Hoffmann. Ou seja, o PT não tem de dar satisfação a ninguém, ele se basta absolutamente, como se bastava absolutamente o Rei Sol.

Arrogância é isso. É considerar-se tão superior aos demais, social e moralmente, que não tem de fazer autocrítica. Não tem de começar por reconhecer “as besteiras que fez”, como advertiu terça-feira o ex-governador do Ceará Cid Gomes. A falta desse reconhecimento leva à prepotência e ao desprezo por quem não pensa igual.

O candidato do PT, Fernando Haddad, foi menos prepotente do que Gleisi. No último domingo admitiu falhas graves: “Faltou controle interno nas estatais. Diretores ficaram soltos para promover a corrupção e enriquecer pessoalmente”.

Mas esse é reconhecimento apenas parcial. Não foi apenas perda de controle ou falta de comando sobre diretores de empresas estatais. O que se soube pelas revelações do mensalão e do petrolão foi que o PT no governo comandou vasta operação de aparelhamento das empresas estatais e das entidades de Estado. A partir daí, partiu para a “formação de quadrilhas”, encouraçadas contra qualquer iniciativa de compliance, e para a pilhagem das estatais, dos fundos de pensão e para o desvio de recursos públicos.

Grande parte dos bilhões assim “desapropriados” não se destinara apenas “à causa”, embora esse também tenha sido desvio criminoso. Também foi para enriquecimento pessoal, como Haddad admite. Outra parte foi desviada para ditaduras de países da África e da América Latina ou, durante determinado período, até mesmo para ajudar a financiar atividades das Farc, então comprometidas com operações de sequestro e assassinato de civis e com o jogo dos narcotraficantes.

Isso não tem nada a ver com simples perda de controle. Foi política deliberada, dentro do espírito stalinista de que o importante não é ganhar as eleições, mas tomar o poder, como o ex-ministro José Dirceu declarou ao jornal madrilenho El País.

A condução desastrosa da política macroeconômica foi o resultado de outras “besteiras” do governo PT. Levaram à recessão, ao desemprego, à deterioração das contas públicas, à disparada da dívida pública, às pedaladas e ao esvaziamento da indústria.

Por que a autocrítica precedida pelo que os antigos chamavam de metanoia, ou seja, precedida pela transformação da mente, é essencial para uma virada eleitoral? Porque, sem ela, a percepção da opinião pública e do eleitor é a de que tudo o que deu errado pode voltar a dar errado, com alta probabilidade de voltar piorado.

A arrogância e autoritarismo não são traços de caráter apenas de muitos dirigentes e militantes do PT. O capitão Bolsonaro corre o risco de enveredar pelo mesmo caminho, quando deixa portas abertas para o revanchismo e para arbitrariedades de todo calibre e alardeia, muito antes do fim do jogo, que já botou a mão na faixa. Mas essa análise fica para outro dia.

Melhor do que o esperado

A função do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) é antecipar o comportamento da atividade econômica (PIB), que não sai antes de 40 dias depois de fechado um trimestre. O IBC-Br de agosto surpreendeu pelo crescimento (0,47% em relação a julho). Esse bom desempenho sugere que o crescimento do terceiro trimestre pode ser maior do que o 0,2% projetado. As estatísticas setoriais mais recentes (do varejo e dos serviços) confirmam esse crescimento moderado da economia.

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