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Claudio Adilson Gonçalez
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Nem reformas nem caos

O pior só virá, mesmo, se o presidente eleito em 2018 não retomar o programa iniciado por Temer

O Estado de S.Paulo

03 Julho 2017 | 05h00

A bomba lançada por Joesley Batista na noite de 17 de maio não produziu, ao menos até agora, os efeitos devastadores no mercado financeiro, como era de esperar. Não ocorreu alta exagerada do risco de crédito da dívida soberana brasileira, como mostra o CDS (Credit Default Swap), uma espécie de seguro contra calote na dívida pública. Às vésperas da divulgação da devastadora gravação, o CDS estava em 200 pontos (2% ao ano); na semana passada, oscilou ao redor de 240 pontos (2,4% ao ano). Não é uma alta desprezível, mas está muito distante dos 500 pontos verificados no final de 2015. Em razão disso, não houve colapso na Bolsa de Valores, o câmbio não explodiu e os juros no mercado futuro continuaram em queda. O mercado financeiro estaria subestimando a crise política? Não vejo assim. Há razões externas e internas que dão fundamento aos atuais preços dos ativos do País. Vejamos.

As principais economias desenvolvidas, especialmente EUA e União Europeia, vêm apresentando crescimento firme, porém relativamente modesto, com inflações aproximando-se gradualmente das metas estabelecidas pelos respectivos bancos centrais, mas longe do risco de deflação, como era o caso europeu até o ano passado. Além disso, a massacrante vitória de Macron reduziu bastante o risco político no velho continente.

Nos EUA, temia-se que Donald Trump promovesse expansão fiscal e protecionismo generalizado, o que provocaria elevação da inflação e, consequentemente, dos juros. Não foi isso o que ocorreu. Trump mostra que não tem força política, tampouco base técnica, para pôr em prática suas promessas de campanha.

Com isso, os juros internacionais seguem em patamares extremamente baixos, o que leva os investidores externos a uma busca desesperada de ativos com maior rentabilidade para remunerar seus portfólios. Assim, a aversão ao risco diminui e o Brasil, apesar de todos os seus problemas, parece uma boa oportunidade. É claro, há riscos relevantes para esse cenário. Tratarei disso nos próximos artigos.

Internamente, também há razões para a relativa calmaria do mercado. Apesar de a maior parte dos analistas atribuir probabilidade praticamente nula de aprovação de uma reforma da Previdência digna deste nome no atual governo, acredita-se que Temer e sua competente equipe econômica continuarão em seus postos até o fim de 2018. A denúncia apresentada por Rodrigo Janot é fraca e é necessário o voto de 60% dos deputados para que a autorização de processar o presidente siga para o Senado. A permanência de

Temer não é suficiente para aprovar emendas constitucionais, mas evitaria a perda dos avanços obtidos até agora pela política econômica.

E tais avanços não são irrelevantes. Aprovou-se o teto para os gastos públicos, melhorou-se a gestão das principais estatais e a inflação está nocauteada, não só pela recessão e pela boa safra agrícola, mas também pela recuperação da credibilidade do Banco Central, o que garante a continuidade da queda dos juros. A situação das contas externas também é confortável, com déficit em conta corrente inexpressivo (pouco mais de 1% do PIB) e volume elevado de reservas cambiais.

Não se entenda que a crise política não provocou danos à economia. O equilíbrio que descrevi é extremamente instável. Qualquer piora no exterior atingiria o Brasil de forma mais intensa que outros países emergentes. O mesmo ocorreria se a situação política piorasse e a permanência de Temer não mais se tornasse viável. O quadro fiscal é precário, com a relação dívida bruta/PIB devendo superar 90% até 2021. O aumento das incertezas já afeta negativamente a confiança dos agentes econômicos e isso postergará a retomada do investimento e do consumo, reduzindo o crescimento neste e no próximo anos.

Sim, é um cenário ruim, mas o caos só virá mesmo se o novo presidente a ser eleito em outubro do ano que vem não retomar o programa de reformas iniciado por Temer.

ECONOMISTA, DIRETOR DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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