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Nem tanto ao mar…

A pesquisa Focus, conduzida pelo Banco Central, que capta as projeções de uma centena de analistas para os grandes números da economia, continua, semana a semana, reduzindo as estimativas para o crescimento econômico brasileiro em 2014. As tabelas divulgadas ontem pelo Banco Central apontam uma mediana de 0,48% para a expansão do nível de atividades no ano, e os sinais são de que o fundo do poço ainda não foi alcançado.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2014 | 02h02

Em meio a uma campanha eleitoral acirrada, era natural que o baixo crescimento figurasse entre os temas prediletos dos candidatos oposicionistas e seus apoiadores, com o objetivo de demonstrar a absoluta inépcia do governo na condução da economia. Era natural também que os governistas e seus seguidores procurassem sair da defensiva, esgrimindo argumentos que isentassem o governo de culpa pelo mau resultado.

Estava assim armado um quadro em que não se poderia esperar análises ponderadas no desenrolar do debate eleitoral. Independentemente do nível de qualificação dos debatedores, em geral bastante alto, a tendência era a da proliferação de discursos binários, na base do sim ou não, sem considerar as muitas e necessárias gradações.

É exatamente o que está acontecendo, com os porta-vozes do governo insistindo na tecla de que todos problemas que levam ao crescimento medíocre são decorrentes da crise externa e seus críticos atribuindo todos os motivos da estagnação a erros de diagnóstico e falhas de execução do próprio governo, sem influência do ambiente externo. Qualquer avaliação com um mínimo de isenção, contudo, não teria dúvidas em concluir que, nesse quesito, a verdade não está nem tanto ao mar nem tanto à terra. Ainda que mais isolada da comunidade comercial global do que o desejável e com espaço muito menor no comércio exterior do que deveria ocupar, a economia brasileira, bem ou mal, é obviamente afetada pelos humores externos.

Tanto isso é fato que, quando se analisa o bom desempenho do período 2004-2010, desprezando a coerência, as posições se invertem. Se, para oposicionistas, os avanços devem ser creditados aos impactos positivos do acelerado crescimento global, para governistas os êxitos se devem às políticas postas em prática. A mesma incoerência aparece quando o governo rebate a inclusão da economia brasileira em listas das mais frágeis ante as turbulências internacionais e oposicionistas concordam com tais avaliações.

Mais curioso é que o debate sem nuances sobrevive mesmo quando as evidências de que o crescimento da economia brasileira foi negativamente afetado por fatores externos já se encontram devida e tecnicamente identificadas. No capítulo 4 do Word Economic Outlook, de abril deste ano, por exemplo, o FMI havia detectado que dois terços da redução do ritmo de expansão da economia brasileira, de 2011 a 2013, em relação ao crescimento de 1998 a 2013, se deviam a fatores externos.

Na semana passada, a consultoria econômica LCA, uma das maiores e mais conceituadas do mercado brasileiro, em trabalho coordenado por seu economista-chefe, Braulio Borges, chegou à mesma conclusão. "Cerca de 60% da desaceleração do crescimento brasileiro em 2011-2014 ante 2008-2010 seria explicada pela evolução da conjuntura internacional", registra o estudo. A desaceleração da economia chinesa e as incertezas no mercado financeiro global, segundo a LCA, foram os fatores externos que mais contribuíram para o recuo da economia brasileira.

São pelo menos duas as conclusões possíveis diante dessa constatação. A primeira é que não se deve desculpar o governo pela estagnação da economia só porque parte do problema veio de fora. Caberia a ele prevenir ou, se falhasse na prevenção, remediar os impactos e diluir ao máximo os seus efeitos. A outra é que o debate das questões econômicas entre nós continua muito contaminado e pobre.

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