Nervosismo do mercado chega ao consumidor

Sem muito alarde, o clima de nervosismo que domina o mercado financeiro começa a contagiar o consumidor brasileiro. Para os analistas econômicos, ninguém deixa de comprar arroz e feijão, mas o bombardeio de notícias sobre as turbulências no mercado financeiro e as incertezas no cenário político estão, sim, influenciando consideravelmente as decisões de compra de gente que nem sabe para que serve o tal do risco país. "Quase toda a nossa clientela quer comprar à vista. E metade faz questão de fechar negócio antes da troca de governo", conta a sócia da Bastos Imóveis, Mara Cristina Bastos. "Parece que as pessoas têm medo do que pode acontecer com a economia. E isso vale tanto para os que procuram uma casa de R$ 600 mil quanto para quem quer um apartamento de R$ 60 mil." Para o diretor do Programa de Administração de Varejo (Provar) da USP, Claudio Felisoni, a busca por reserva de valor é natural em momentos de preocupação, embora a primeira reação seja o adiamento das compras que representem comprometimento de renda. "O chefe de família pode até estar empregado, mas se vê que sua empresa está cortando custos, ele tende a esperar antes de financiar um carro novo, por exemplo." A última pesquisa de consumo do Provar, referente ao trimestre de agosto a outubro, revelou o menor índice de intenção de compra desde 1999. "Há uma diferença entre as variáveis reais, como desemprego e a elevação das taxas de juros, e o que ainda está no imaginário coletivo, como o futuro da economia caso seja eleito um candidato de oposição ao governo", afirma Felisoni. Para o consultor da área de Varejo Marcos Gouveia de Souza, o consumidor das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio e Minas, que fazem parte do epicentro político-econômico do País, está mais assustado, sensibilizado. "Todos estão atentos às eventuais conseqüências da alta do dólar, da queda da bolsa e dos investimentos estrangeiros. É uma preocupação quase que independente da classe social", diz. "Mesmo os mais pobres sabem que as incertezas podem desaguar em redução de horas de trabalho, férias coletivas e demissões." Bolso atingidoO problema vai se agravando à medida em que o bolso do cidadão comum é atingido pela conjuntura. "Só sei é que cada vez que volto ao supermercado os preços estão mais altos. O Brasil não produz soja? Então por que o preço do óleo sobe tanto?", queixa-se Bernadete Dezan, que passou a se intitular dona de casa há um mês, depois de perder o emprego e passar a se dedicar apenas à família. A irritação da consumidora é compreensível, segundo o consultor Francisco Toledo, presidente da Toledo & Associados. "É a tal dissonância cognitiva (citada recentemente pelo presidente Fernando Henrique Cardoso). O governo anuncia safra recorde de soja, mas não tem como controlar o preço da commodity. Isso deixa a população irritada", explica. A reação de Bernadete tem sido a troca de marcas, em busca de produtos mais baratos. "Só o café continua sendo o mesmo." Apesar disso, os filhos da dona de casa ganharam uma TV nova na semana passada. O marido de Bernadete, o vendedor Edson Dezan, conta que a aquisição foi uma de suas primeiras compras à vista de um bem durável. "Só comprei porque precisava do produto e tinha o dinheiro na mão. Não acho que o momento seja bom para entrar em prestações", justifica. As diferenças de preços na gôndola do supermercado ainda são as que mais pesam para o comerciante Constantino Samiotis, que não desistiu de comprar o videogame que os filhos pediram para o Dia das Crianças. "Até agora não detectei um aumento no preço por causa do dólar. Se tivesse encarecido, eu não compraria", afirma. "É isso o que estamos tentando fazer em casa, em relação à marcas que estão ficando mais caras. Paramos de comprá-las." Para Felisoni, da USP, o repúdio dos consumidores à alta dos preços é um dos principais benefícios trazidos pelos anos de estabilidade econômica garantidos pelo Plano Real. "Hoje é mais fácil para a dona de casa identificar as variações de preços e reagir a elas. Os efeitos negativos da turbulência econômica, quando finalmente chegam ao dia-a-dia das pessoas, despertam indagação e perplexidade."

Agencia Estado,

06 de outubro de 2002 | 09h28

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