FOTO: FELIPE RAU/ESTAD?O
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Covid-19

Bill Gates tem um plano para levar a cura do coronavírus ao mundo todo

'Nesse momento é importante que haja benefícios fiscais nunca vistos na história', diz Benchimol

Para fundador e presidente da XP, é essencial, contudo, que o Ministério da Economia saiba a hora de reduzir a intervenção do Estado na economia.

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 14h52

O fundador e presidente da XP Inc., Guilherme Benchimol, disse nesta terça-feira, 5, que o governo brasileiro foi um dos mais ágeis a oferecer à população transferência direta de recursos em virtude da crise gerada pelo covid-19, com a transferência de um auxílio de R$ 600 a milhões de trabalhadores informais. Segundo ele, no entanto, é essencial que o Ministério da Economia saiba a hora de reduzir a intervenção do Estado na economia. "Aumentar gasto público não é solução para o longo prazo", afirmou.

Na visão de Benchimol – que participou da série de entrevistas ao vivo "Economia na Quarentena" –, as reformas estruturais têm de ser retomadas para que o Brasil tenha condições de oferecer um cenário mais estável e atrair recursos internacionais para as oportunidades que o País oferece. "O investidor externo só virá se o Brasil mostrar austeridade fiscal", disse o executivo.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Estamos há 50 dias em quarentena e São Paulo pode prorrogar a volta gradual. A economia aguenta mais algum tempo de lockdown?

Acho que a economia aguenta. Mas, obviamente, quanto mais fechado continuar, os estragos são maiores. O Brasil não é os Estados Unidos. Então, quanto mais a gente liberar a economia de forma inteligente, melhor. É evidente que a estratégia de lockdown deu certo.A gente viu o caso da China, que teve mais sucesso, e a economia voltou. A estratégia inicial, de achatar a curva e construir leitos, tem funcionado. Em algum momento, vai começar a liberar. É difícil ter certeza se vai ser daqui a duas ou três semanas, mas a gente está mais próximo. Estou confiante de que a gente vai sair mais fortalecido. 

A XP é uma das empresas que está contratando nesta crise. Em quais áreas? 

A gente está em  um segmento privilegiado, com 98% do time funcionando em casa. A gente acabou tendo a sorte de ter o segundo caso (de coronavírus) no Brasil, o que nos obrigou a ser bastante ágil nesta implementação de colocar as pessoas trabalhando em casa. Como competimos com os bancos comerciais e existe uma concentração bancária muito grande - são cinco bancos e 90% da poupança brasileira concentrada neles -, eu digo que a gente tem um oceano azul pela frente. Estou muito confiante de que a gente vai continuar crescendo independentemente do cenário e, por isso, é natural que a gente siga acreditando no longo prazo. Não interrompemos nenhuma frente que a gente vinha fazendo. Este ano, a nossa meta é contratar 600 pessoas, sobretudo para tecnologia. A gente tem 60 squads que funcionam como startups e essa estrutura acaba consumindo mais pessoas. 

 

A crise já está afetando os resultados de bancos. Como a XP se vê afetada por isso?

Se a gente somar o lucro dos bancos no ano passado, foi algo próximo a R$ 100 bilhões. O nosso lucro foi de R$ 1 bilhão. Então, hoje eu não tenho dúvidas de que um cliente que investe por meio da XP,  consegue ter um serviço melhor, menos taxas, e acessar mais ativos do que ele teria num banco. E a gente só tem 1% dos lucros que eles fazem. Não temos a linha de crédito que eles oferecem. A desbancarização vai acontecer no Brasil. É uma questão de tempo. Tem bastante espaço (para XP crescer). Esses R$ 100 bilhões que os bancos fazem, uma parte vai ser destruída.  Refere-se a taxas geradas, que a XP não cobra. São coisas que a competição com tempo vai destruindo. Veremos o consumidor migrar (dos bancos para outras plataformas) e  vai virar um processo ganha-ganha.   

Como a XP se vê inserida neste cenário no qual as pessoas vão precisar de mais crédito?

Começamos nosso banco há alguns meses. Estamos entrando no negócio de crédito, mas não nos que os bancos são acostumados a fazer. A gente é voltado para o cliente que investe. A gente já se comprometeu o oferecer o crédito mais barato do Brasil. Com a competição maior, vão ter taxas mais atrativas. Com essa onda da empreendorismo e fintechs, isso vai com o tempo gerar mais competição e taxas mais atraentes.

Empresas estão recorrendo ao BNDES para pedir ajuda. Como o sr. avalia estas medidas? O governo deve exigir contrapartidas delas?

Depende. Quando cai um meteoro na economia como agora  e o próprio governo exige que boa parte das empresas feche, se o governo não ajudar, muitos empresários vão quebrar. Com isso, a volta começa a ficar mais demorada. Neste momento, é natural que o governo intervenha sim, via BNDES, bancos públicos, Tesouro, estímulos fiscais e assim por diante. Dependendo do crédito, faz sentido exigir contrapartidas.  Mas eu diria que é caso a caso. Não existe uma fórmula única que atenda a todo mundo.  

Como o sr. acha que pode ser esse modelo?

A crise pegou todo mundo de calças curtas. Diria que a maior parte dos empresários não tem capital de giro. É um desafio ajudar esses empresários a não quebrar e exigir contrapartidas. É mais fácil quando se aborda o topo da pirâmide. Mas quando aborda a grande massa, esse empresário quer sobreviver. Num ambiente que você não tem capital de giro e vive na corda bamba, acho, que neste momento, o governo deve ajudar. Mas não dá para exigir contrapartida para pequeno e médio empreendedor.   

O Ministério da Economia diverge com ala militar sobre a criação de um Plano Marshall. O sr. tem alguma ideia de como montar essa grande ajuda ao setor privado?

O governo veio com medidas em linha do que muitos países anunciaram. É um momento que a gente nunca viveu na história. Por mais que o governo tenha uma visão liberal, neste momento é importante que venhamos com estímulos fiscais nunca vistos na história porque, se muita gente fica pelo caminho, essa volta fica mais demorada e mais difícil. Tivemos estímulos que foram bastante ágeis comparados a outros países. Diria até que o Brasil foi top 3 do mundo em agilidade e tamanho do cheque na proporção. Era necessário. Diria  que o cuidado é para que esses estímulos não sejam contínuos. Fizemos isso no passado. Tem de ser pontual. O Brasil do passado teve juros médios de 13% ao ano. Nosso desafio é manter os juros baixos tornando possível a sociedade brasileira empreender e tomar mais riscos. Construir o Brasil do futuro é construir uma sociedade que se empodere e ela mesma construa a solução de suas necessidades.   

Essa ajuda pontual que o governo está dando para uma camada da população não deve ser perene?

 

Os R$ 600 são necessários durante este ano e a gente vai ter de fazer concessões. Sem dúvida, a relação da dívida/PIB vai crescer. E se não fosse assim, o estrago seria muito pior. O importante é que isso não vire algo recorrente no tempo. Se não for assim, a dívida pública vai continuar subindo, os juros de longo prazo ainda mais, o gasto que o Brasil vai ter com a dívida vai ficar ainda maior, e no final não haverá empoderamento da sociedade. A gente pode trilhar um caminho nunca visto na história do Brasil. Quem sabe a gente não vê até o fim do ano a taxa de juros em 2%? Isso pode transformar o País em vários aspectos. Não estou dizendo que o governo não tenha de gastar. Ele tem de gastar com controle para que, acima de tudo, consiga manter política austera de longo prazo.   

Vivemos um cenário de forte crise política, com a perda de popularidade do governo Bolsonaro. Isso pode atrapalhar a economia? 

Não me lembro do Brasil não ter vivido instabilidade política. Eu diria que, se as reformas estiverem avançando, acho que não atrapalha. Acho que é um ruído de curto prazo. Se a economia estiver nos trilhos, todo o resto acontece e o impacto deste barulho será menor. Acho que o Congresso está convergindo na direção correta. A imprensa é muito importante neste momento. Sou confiante de que estamos na direção correta. O barulho político faz parte da democracia que a gente vive.  

Mas o investidor internacional, que já andava meio ausente do País, pode se assustar com a crise política e os ataques à imprensa do presidente Jair Bolsonaro?

Obviamente que instabilidade te deixa com um pé atrás. Eu diria que essa não é a principal preocupação do investidor estrangeiro. Fizemos nosso IPO há cinco meses. Os investidores estrangeiros estavam muito animados com Brasil naquele momento e segue animado com o País. O Brasil está mais barato do que nunca quando se olha a Bolsa - ela caiu aproximadamente 50% em dólar. O desafio do estrangeiro é a porta de saída, que é o câmbio que ele vai sair daqui a cinco a dez anos. Mas ele só vai vir de verdade se o Brasil mostrar essa austeridade fiscal, de gerir as contas públicas, inflação controlada. Isso traz o investidor. Ninguém quem quer empreender em um país com instabilidade econômica. No Brasil, falta um montão de coisa, mas tem muitas oportunidades e os estrangeiros querem entrar.   

Como o sr. avalia o combate à pandemia no Brasil? 

Fizemos a coisa certa até agora. Temos um desafio por ser um país pobre e com desvantagens. É um desafio pedir que a população fique inteira em casa. A gente fez um lockdown mais cedo que muitos países. A comunicação talvez não tenha sido a melhor. Acompanhando os nossos números, a nossa curva não está sendo exponencial ainda. Acho que a gente vai ter uma fotografia mais clara daqui a duas ou três semanas. Acredito o pico da doença já passou quando se analisa a classe média e classe média alta. O desafio é que o Brasil tem muita comunidade. Isso acaba dificultando o processo todo. Nós não temos um orçamento igual dos EUA. Mas acho que a gente vai sair dessa mais rápido do que as pessoas imaginam.  

A crise também deixa alguns aprendizados. A XP tem 98% de sua equipe em casa e está funcionando. A gente vai poder trabalhar melhor e ser mais produtivo depois da crise?

Sem dúvida nenhuma. Tivemos um ganho de produtividade brutal e já conversamos com nossa equipe. É  possível imaginar que 50% do tempo deles trabalharão em casa. É uma economia sob ponto de vista de gastos fixos corporativos. Então, tem um processo ganha-ganha. É como numa guerra, que a gente evolui. Não tenho dúvidas que o mundo será mais eficiente e empresas mais descentralizadas. Teremos muito aprendizados olhando para trás.

 





 

 

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