Neste ano, pobreza vai atingir 66% dos argentinos

O ano 2002 começou difícil para os argentinos, mas poderá terminar pior ainda. Isso é o que indica um relatório do Instituto de Estudos Econômicos da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA). Segundo o Instituto, até dezembro deste ano, dois de cada três argentinos serão pobres.Atualmente, a proporção de pobres no país é de 49%. Em meados dos anos 80, a proporção de pobres na Argentina não passava de 15%. No momento, a proporção de 66% de pobres no total da população se registra nas províncias do Chaco, Formosa, Jujuy, Misiones e Entre Ríos.Inflação de 80%Mas, segundo o diretor do Instituto da CTA, o economista Claudio Lozano, com uma previsão moderada de inflação de 80% anual, esta proporção de pobres se repetirá em toda a Argentina. Com esse panorama, nas províncias atualmente miseráveis, a pobreza poderia atingir 90% da população.Durante o período de hiperinflação de 1989, a pobreza chegou a proporções similares às atuais. Mas, após seu fim, os níveis de pobreza diminuíram rapidamente. No entanto, desta vez seria diferente. O Instituto considera que, no momento, o país possui escassas possibilidades de recuperação. A Argentina carrega quase quatro anos de recessão, um desemprego superior a 23%, uma indústria quase extinta e um sistema financeiro em colapso.Pobreza estruturalEnquanto a pobreza da hiperinflação de 1989 era circunstancial, a pobreza da atualidade já é estrutural. Segundo diversos economistas, o país precisaria de pelo menos duas décadas de crescimento médio de 3% do PIB anual para que os níveis de pobreza voltassem a ser os de antes.O Instituto também calcula que, de cada três argentinos, um será indigente (ou seja, metade dos pobres), o que implica que 33% dos habitantes deste país não conseguirão uma receita mensal para consumir a quantidade mínima de calorias.Salários despencamO economista Lozano considera que, em termos reais, o salário dos argentinos despencou 50% comparado ao salário de 1974. Até o fim deste ano, com mais de 80% de inflação, os salários dos argentinos poderiam ser inferiores em 30% ao que eram há um quarto de século.Desde o início da recessão, em meados de 1998, o desemprego aumentou 75%, a pobreza cresceu 60%, enquanto a indigência disparou 130%. Enquanto a pobreza se alastra, o governo do presidente Eduardo Duhalde, mesmo antes de completar seis meses no poder, também enfrenta problemas para impedir a redução acelerada das reservas do Banco Central.Reservas do BCNo início de dezembro, as reservas eram de US$ 25 bilhões. Na semana passada, haviam diminuído para 10,5 bilhões. Só ao longo de maio, a queda foi de US$ 1,72 bilhão. Os depósitos bancários também despencaram, apesar da existência do "corralito" (semicongelamento de depósitos bancários). Sua queda foi de 14 bilhões de pesos. Deste total, 3 bilhões de pesos foram retirados, desde janeiro, através de processos na Justiça contra o "corralito". Os outros 11 bilhões de pesos foram sendo retirados gradualmente pela saída permitida - mas restrita - de fundos das contas correntes.Grande parte deste dinheiro foi utilizada pelos correntistas para a compra de dólares, o único refúgio seguro dos argentinos no momento. Desde que chegou ao cargo, o presidente Duhalde assistiu ao país passar de índices persistentes de deflação a uma inflação não vista nos últimos onze anos. O governo previa uma inflação de 15% para todo o ano. No entanto, só nos primeiros quatro meses de 2002, a inflação já chegou a 21,7%.Leia o especial

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