Laurent Dingly Via/ The New York Times
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Netos de Renault buscam indenização

Familiares do fundador da montadora francesa, Louis Renault, acusado de ajudar o nazismo, questionam estatização da empresa em 1945

David Joly e Matthew Saltmarsh, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Quase 70 anos depois que o pioneiro do setor automobilístico, Louis Renault, morreu numa prisão francesa, acusado de colaborar com os nazistas, seus netos querem restaurar sua reputação e serem indenizados pelo que dizem ter sido um confisco ilegal da empresa pelo Estado.

Membros da família - cujas ações impetradas desde que o governo provisório do general de Gaulle tornou a Renault uma empresa estatal, em 16 de janeiro de 1945, foram frustradas -, procuram agora se beneficiar de nova lei que permite que os cidadãos contestem a constitucionalidade das ações do governo nos tribunais. Se vencerem, poderão receber mais de US$ 143 milhões do Estado, afirmam advogados.

A família insiste que não é dinheiro que motiva a ação. "Não é minha prioridade transformar a questão em dinheiro", disse Helene Renault-Dingli, neta de Louis Renault, que, junto com outros seis familiares, quer derrubar a estatização da empresa. "Estamos batalhando para conseguir que ele volte ao seu lugar, mas nenhum valor indenizatório poderá compensar essa violência vivida pela nossa família."

Ninguém discute que a Renault trabalhou para os alemães; basicamente, todos os grandes grupos industriais da França o fizeram. O que é contestado desde a libertação do país é se o que ocorreu com a companhia em seguida foi legítimo.

A Renault, como outras grandes montadoras francesas - Citroën, Peugeot e a fabricante de caminhões Berliet - produziram veículos para o Terceiro Reich. A unidade de tanques da Renault foi controlada por alemães, enquanto as de aviões e de carros, como ocorreu com outras companhias, ficaram sob administração francesa, supervisionadas por diretores da Daimler-Benz.

A Citroën e a Peugeot não foram nacionalizadas depois da guerra; seus donos foram considerados patriotas, e, mais tarde, a Berliet recuperou sua condição de empresa privada.

Louis Renault morreu na prisão em 24 de outubro de 1944, antes de ir a julgamento. Ele sofria de afasia e no relatório oficial constou uremia como causa da morte. A família contesta, afirmando que ele foi assassinado, embora não tenha prova disso.

O caso ilustra como ainda é questão delicada na França a ocupação alemã, quando Hitler impôs sua vontade sobre a nação francesa de 1940 a 1944, transformando o país num apêndice da máquina de guerra nazista. Os alemães dependeram muito da boa vontade da polícia francesa, dos industriais e empresários para levar a cabo sua proposta.

Milhões de pessoas tiveram de decidir até que ponto deviam se compor com os ocupantes para sobreviver. Portanto, é difícil fazer um julgamento definido de muitas ações. "É extremamente difícil dizer até onde Louis Renault deve ser considerado um colaborador", disse Patrick Fridenson, professor de história empresarial na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, em Paris, e autor de um livro sobre a montadora. "A Renault corria o risco de uma total expropriação se resistisse aos alemães", disse.

Monika Ostler Riess, estudiosa alemã que investigou fontes alemãs e francesas quando pesquisava um livro sobre a história da Renault durante a ocupação, disse não ter encontrado evidências de que a montadora colaborou mais do que outras empresas do setor. "Louis Renault simplesmente tentou salvar o que tinha, o que havia construído", disse ela. Se não cooperasse com os ocupantes veria a Alemanha tomar conta da sua companhia".

Patriota. Louis, junto com dois irmãos, fundou a montadora em 1899. Depois de viajar aos EUA e ver as técnicas de produção revolucionárias de Henry Ford, introduziu os métodos de administração americanos na França. Durante a Primeira Guerra Mundial, liderou o desenvolvimento de tanques de guerra, incluindo o Renault FT17, o primeiro a empregar torre de tiro rotativa, e foi reconhecido como um patriota posteriormente.

Quando a Segunda Guerra Mundial teve início na Europa, em 1939, a Renault era um conglomerado diversificado, o maior grupo industrial da França, empregando 40 mil pessoas. Louis detinha 96% do capital, com os demais membros da família e administradores do alto escalão ficando com o restante.

Embora ninguém tenha oferecido provas de que ele era simpático às ideologias do Terceiro Reich, também não há evidências de que tenha colaborado com as forças da resistência ou com De Gaulle. Fridenson disse que seria necessária mais pesquisa nos arquivos, especialmente na Alemanha. Louis Renault também despertou rancores da esquerda francesa quando, em 1938, numa disputa trabalhista, despediu 2 mil sindicalistas.

Essas ações o deixaram sem aliados políticos nos primeiros dias agitados da libertação da França, quando os exércitos dos EUA e da Grã-Bretanha começaram a expulsar os alemães do país e gaullistas e comunistas assumiram o controle. Diversas fotos de Louis com Hitler, incluindo uma na Exposição Automotiva de Berlim antes do fim da guerra, contribuíram para firmar sua imagem na França como um instrumento dos nazistas.

De todas as companhias nacionalizadas de 1944 a 1948, só a Renault não foi ressarcida, embora os acionistas minoritários tenham, no final, sido indenizados. Segundo Fridenson, a política de estatização do governo chefiado por De Gaulle foi em parte uma maneira de acelerar a modernização da economia francesa após a guerra.

Em consequência disso, "a nacionalização da Renault não foi pura sanção", disse ele. "Metade do argumento apresentado pelo governo na época baseou-se na modernização." Uma razão era que a Renault não estava fabricando "carros populares" como Alemanha e EUA.

Por duas vezes a família tentou derrubar a decisão e obter indenização. Em 1954, o filho e a mulher de Louis Renault entraram com pedido judicial, mas o juiz que examinou o pedido disse que não podia examinar a validade da decisão tomada pelo governo De Gaulle. O Conselho de Estado, a mais alta instância administrativa do país, chegou à mesma conclusão num recurso apresentado em 1961./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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