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Neurocientista relaciona bolhas especulativas a hormônios

Pesquisador da Universidade de Cambridge diz que aspectos fisiológicos, como a variação no nível dos hormônios, podem influenciar no tipo de risco que os operadores estão dispostos a correr 

Leticia Sorg, da Agência Estado,

19 de março de 2012 | 18h59

 

 

SÃO PAULO - As decisões do mercado financeiro podem ser menos racionais do que os bancos e os fundos de investimento gostariam de admitir. Segundo o neurocientista John Coates, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, aspectos fisiológicos, como a variação no nível dos hormônios, podem influenciar que tipo de risco os operadores estão dispostos a correr. Se os riscos forem grandes demais, pode haver uma bolha especulativa; se quase inexistentes, um ciclo de recessão.

O pesquisador começou a desconfiar que fatores biológicos tinham um papel mais importante nos mercados do que a economia clássica supunha quando trabalhava no mercado financeiro. Coates diz que livros como "A Fogueira das Vaidades", de Tom Wolfe, que retratam os operadores como "mestres do universo" ou "heróis", descrevem com precisão o clima nas mesas. "Quando a pessoa está numa série de vitórias, sente-se um super-herói. E se torna idiota", afirma Coates. "Fico com vergonha quando me lembro do meu comportamento nesses momentos."

Coates passou por empresas como Merrill Lynch, Deutsche Bank e Goldman Sachs e decidiu dedicar-se à neurociência depois da bolha da internet, em 2000, quando chefiava uma mesa de derivativos em Wall Street. Em entrevista à Agência Estado, Coates conta que, naquela ocasião, notou que os operadores estavam se iludindo e tomando riscos ruins para o negócio. Ele reconheceu, naquela situação, o mesmo comportamento que tivera anos antes, em situação semelhante. "Em alguns momentos de alta, em que eu esperava um bônus acima da média, meu comportamento mudava como se eu estivesse sob influência de uma substância química", afirma Coates. "Eu queria descobrir o que era essa substância, essa 'molécula da exuberância irracional'."

Para encontrar essa molécula da irracionalidade, Coates começou a acompanhar o que acontecia com o organismo dos operadores num dia de trabalho e descobriu que os níveis de testosterona e cortisol estavam diretamente ligados aos resultados, mas tinham efeitos opostos. Ele descreve suas conclusões no livro The Hour Between Dog and Wolf: Risk Taking, Gut Feelings, and the Biology of Boom and Bust (em tradução livre, "A hora entre o cão e o lobo: risco, intuição e a biologia do crescimento e do estouro"), que será lançado em maio na Inglaterra.

Testosterona X cortisol

Quando havia ganhos em série, o nível de testosterona dos operadores aumentava. Num primeiro momento, a elevação era benéfica, levando a lucros ainda maiores. Mas, a partir de um certo limite, a quantidade de hormônio masculino gerava uma espécie de euforia prejudicial para a capacidade de avaliar os riscos da negociação. E o resultado eram perdas maiores.

O cortisol, liberado em situações de estresse, age na direção oposta, tornando os operadores avessos ao risco. Ao acompanhar as alterações fisiológicas de operadores londrinos, Coates observou que, quanto maior a volatilidade do mercado, maiores os níveis de cortisol no sangue dos profissionais. Em doses moderadas, o hormônio protege os investidores. Em doses altas, como no caso de estresse crônico, pode fazer os operadores enxergarem ameaças onde elas não existem - e perder grandes negócios.

Em seus experimentos, Coates descobriu também que outros fatores, como a saúde do nervo vago, que controla órgãos como pulmão, coração e estômago, também são importantes para o mercado financeiro. Se o nervo funciona bem, o nível de adrenalina e os batimentos cardíacos aumentam diante de uma situação crítica, mas caem logo depois do evento estressante. Se há um problema com o nervo vago, a adrenalina e a frequência cardíaca continuam altas e prejudicam a capacidade de tomar decisões.

Isso não quer dizer, porém, que o resultado das bolsas do mundo todo dependem dos níveis de hormônio dos operadores. Segundo Coates, os fatores fisiológicos não determinam o sobe e desce dos mercados. Isso geralmente acontece quando há alterações de juros ou novas tecnologias. Mas podem estar por trás das bolhas. "No fim de um ciclo de alta, a biologia pode se tornar importante e levar os operadores a tomar risco demais, gerando uma bolha", diz. Ele acredita que esse tenha sido o caso em 2008, na bolha imobiliária americana.

Os hormônios também podem ter um papel na dificuldade de recuperação dos mercados. "No pico da crise, com volatilidade e perdas tão grandes, os hormônios de estresse chegaram a níveis tão altos que se espalhou uma aversão ao risco", afirma. "Ninguém queria comprar ativos de risco a nenhum preço. Por isso o governo teve de entrar no jogo e comprá-los primeiro."

Coates afirma que bancos e fundos têm recebido bem suas teses. Ele acredita que isso aconteça porque, depois da última crise, muitos perderam parte de sua fé na economia e nas finanças clássicas e estão em busca de novas explicações que ajudem a gerenciar o risco no futuro. Entram aí as novas descobertas da biologia e da medicina.

Mesas de operação diversificadas

O principal conselho de Coates para os bancos é diversificar a composição de suas mesas de operação. Mesclar os homens jovens - a maioria hoje -, com mulheres e pessoas mais velhas pode ser uma boa estratégia para minimizar os efeitos dos hormônios nas negociações. As mulheres têm apenas 10% da testosterona dos homens e têm níveis mais baixos de cortisol em situações de estresse. Homens mais velhos têm menos testosterona que os mais jovens. "Se houver um equilíbrio maior entre homens e mulheres, jovens e velhos, a tendência é ter um comportamento melhor", diz Coates.

Hoje, as mulheres são apenas 5% entre os operadores, mas já ocupam de 50% a 60% das posições de gerenciamento de ativos em Londres. Coates acredita que a ausência delas nas mesas tem a ver com o fato de que, nos bancos, as operações acontecem num ritmo muito rápido e os profissionais são avaliados por resultados em períodos muito curtos de tempo. Em suas observações do mercado, o pesquisador notou que as mulheres preferem ter mais tempo para pensar suas decisões e fazem apostas de longo prazo. Aumentar o intervalo para a avaliação do desempenho, para Coates, poderia incentivar a entrada de mulheres nas mesas de operação. 

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