'New York Times' e 'Wall Street Journal' em guerra

Enquanto o WSJ amplia sua cobertura, NYT investiga jornais controlados por Murdoch

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Os dois principais jornais de Nova York estão em guerra. O Wall Street Journal, há três anos nas mãos do magnata australiano das comunicações, Rupert Murdoch, quer derrubar o reinado absoluto do New York Times, da aristocrática família Ochs Sulzberger, e assumir o posto de diário símbolo da cidade.

Ele quer ser lido não apenas por banqueiros, mas também médicos do Upper East Side, publicitários da Madison Avenue, atores da Broadway, psicólogos do Greenwich Village e estudantes da Universidade Columbia.

Para atingir esse objetivo, classificado por muitos analistas como um sonho, o empresário australiano lançou neste ano um caderno com o nome de Greater New York, passando a cobrir também assuntos metropolitanos e esportes. Um suplemento com resenhas de livros começou a ser publicado neste mês. O jornal reformulou o seu projeto gráfico, deixando a primeira página com fotos coloridas e títulos em letras grandes, bem diferente do modelo anterior, em branco e preto e com manchetes espalhadas em meio a textos densos. Reportagens longas, de mais de uma página, foram eliminadas.

Para o próximo ano, o Wall Street Journal não descarta lançar uma edição dominical e ampliar a sua cobertura de artes e espetáculos. Com essa estratégia, Murdoch tentará pulverizar a distribuição de anúncios, reduzindo a mais importante fonte de receitas do New York Times, e ampliar a circulação de seu jornal para o público que não seja ligado ao mundo dos negócios.

No passado, o empresário australiano comandou o The Times, de Londres, em uma guerra similar contra o Daily Telegraph pelos leitores mais conservadores britânicos - Londres tem cinco grandes jornais diários com distintas posições ideológicas. Na época, Murdoch promoveu uma série de cortes nos preços que precisou ser seguida pelo rival. Os dois jornais quase quebraram na disputa.

Apesar de ainda não ter sido adotado em Nova York, o mecanismo de redução nos preços não está descartado. Murdoch tem a vantagem de, diferentemente do New York Times, não precisar ganhar dinheiro com o Wall Street Journal. A News Corp., sua empresa de comunicações, possui o canal Fox, que ajuda a bancar os custos dos jornais, que são a verdadeira paixão do empresário australiano.

Ironia. A competição do Wall Street Journal foi recebida inicialmente com ironia pelo "publisher" do New York Times, Arthur Ochs Sulzberger Jr. "Depois de 120 anos de existência, o Wall Street Journal decidiu finalmente cobrir Nova York ao norte de Wall Street. No espírito da camaradagem, damos boas vindas ao novo caderno local. O New York Times tem sido o jornal de Nova York por cerca de 160 anos e sabemos como é difícil para iniciantes conquistarem seguidores", afirmou em abril, quando o rival lançou o seu caderno metropolitano.

Aos poucos, as disputas migraram de forma discreta para as páginas dos jornais. Com posições editoriais opostas, o Wall Street Journal (conservador) e o New York Times (liberal) divergem em quase todos os principais temas econômicos e políticos dos EUA. O conflito, classificado como a guerra dos Corleone (Murdoch) contra os Royal Tenembaum (Sulzberger) pela revista Vanity Fair, se intensificou há duas semanas quando o New York Times publicou matéria de capa da sua revista de fim de semana relatando os métodos ilegais de apuração de reportagens feitos pela tabloide britânico News of The World, de Murdoch.

O artigo foi visto como ataque direto do New York Times ao grupo ao qual pertence o concorrente. Em resposta, Murdoch usou, como em outras ocasiões, o New York Post para reagir, lembrando uma série de problemas éticos no concorrente, como as invenções de reportagens do jornalista Jason Blair e falhas na cobertura da Guerra do Iraque.

A guerra, até agora, não tem resultados claros. Ao mesmo tempo em que Murdoch conseguiu transformar o Wall Street Journal no maior jornal dos EUA, ao superar em tiragem o USA Today, ele não atingiu seu objetivo de superar o New York Times em Nova York nem afetar sua receita com anúncios.

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