New York Times: Os perigos da palavra favorita de Trump: reciprocidade

Além de afetar a base do Partido Republicano, a reciprocidade de Trump ameaça alianças de longa data. Após Trump açoitar o Canadá com novas tarifas no ano passado, o país vizinho revidou

Marc-William Palenthe, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2019 | 04h00

“Minha palavra favorita é reciprocidade”, o presidente Donald Trump afirmou, várias vezes, desde que se tornou presidente. O que ele quer dizer com reciprocidade é “comércio justo”, em vez de livre-comércio. Ou seja: usar as tarifas para retaliar quaisquer barreiras comerciais impostas por outros países. “Se alguém nos cobra 50%, devemos cobrar 50%.”

Mas a versão de reciprocidade de Trump não é exatamente “uma campanha ambiciosa para reformar o comércio internacional”, como ele argumentou em recente discurso da ONU, no qual ridicularizou o “globalismo”. E também não é nova.

Pelo contrário, é o retorno a uma velha maneira de alavancar o poder dos Estados Unidos diante de países mais vulneráveis, sob uma estrutura que é justa só na aparência. Essa tradição do Partido Republicano tem raízes nas políticas externas do partido do fim do século 19. Agora, assim como naquela época, a “palavra favorita” de Trump é uma ferramenta de retaliação contra “supostos aliados”.

Ela força condutas ao impor concessões, incitar a paranoia e afastar parceiros. No fim das contas, substitui a cooperação internacional por práticas imperiais e colonialistas.

Após a Guerra Civil dos EUA, o partido contrário à escravidão se reformulou como partido do protecionismo, garantindo que tarifas e subsídios elevados nutririam e protegeriam as nascentes e crescentes indústrias americanas até a maturidade. Essa reforma protecionista abriu caminho para a política externa republicana da Era Dourada do fim do século 19, moldada pelo desenfreado clientelismo da época, por restrições à imigração e por slogans nacionalistas do Partido Republicano.

Essa política de reciprocidade também dependia da promoção de teorias da conspiração sobre o “globalismo”, especialmente sobre o livre-comércio britânico – os globalistas mais importantes da Era Dourada. Líderes republicanos como William McKinley, de Ohio, costumavam afirmar que era “inquestionável” que os americanos que defendiam o livre-comércio estivessem ligados aos “governantes e às classes dominantes da Grã-Bretanha”, empenhados em minar as altas muralhas tarifárias dos EUA – “uma aliança de guerra contra os trabalhadores americanos”.

Paranoia

O Partido Republicano da Era Dourada, paranoico com a ameaça do livre-comércio britânico e com medo do multilateralismo, implementou sua visão de comércio restritiva por meio das disposições de reciprocidade altamente protecionistas da tarifa McKinley, de 1890. Naquela época, assim como nos dias de Trump, a versão de reciprocidade do Partido Republicano era bilateral e condicional. Quaisquer reduções tarifárias mutuamente acordadas se aplicariam apenas aos EUA e ao outro signatário, assim limitando a liberalização comercial aos países envolvidos.

Tais medidas também podem ser coercitivas: a ameaça de retaliação tarifária pairava sobre as cabeças – muitas vezes relutantes – dos signatários. William Lloyd Garrison, livre comerciante e filho do famoso abolicionista de mesmo nome, observou esse fato no início da década de 1890: o “verdadeiro nome da reciprocidade é retaliação. A reciprocidade republicana é uma clava. Uma ameaça”.

As conotações coercitivas da reciprocidade republicana assumiram dimensões cada vez mais imperiais na virada do século. Após a Guerra de 1898, os EUA adquiriram formalmente várias colônias do derrotado império espanhol no Caribe e no Pacífico. A ex-colônia espanhola de Cuba permaneceu, em teoria, independente, mas o presidente republicano Theodore Roosevelt fez de tudo para torná-la, na prática, uma colônia americana, por meio da reciprocidade.

A reciprocidade teve fortes consequências para países mais fracos, como Cuba. Em 1902, representantes cubanos, como Luis V. Placé, advogaram pelo livre-comércio com os EUA, “no entendimento que cabe ao país conceder aquilo que imploramos”. Em resposta, os cubanos receberam insultos dos congressistas do Partido Republicano, juntamente com uma ligeira redução na taxa tarifária sobre o açúcar bruto, em troca de descontos sobre várias exportações americanas e um controle ainda menor sobre suas finanças. Os cubanos concordaram com relutância, temendo que, do contrário, correriam o risco de serem anexados pelos EUA.

Em suma, a reciprocidade deu aos Estados Unidos acesso aos principais mercados estrangeiros, sem prejudicar o sistema protecionista do país.

Apego

Mas o Partido Republicano começou a questionar seu apego à “proteção e reciprocidade” após a Segunda Guerra, uma vez que era fato conhecido que as políticas de altas tarifas do partido haviam agravado a Grande Depressão e desencadeado guerras comerciais. Os republicanos também reconheceram que o poderoso setor manufatureiro nacional precisava de acesso livre aos mercados globais. Desde então, os republicanos se uniram às administrações democratas no apoio à liberalização do comércio e a instituições multilaterais como a Organização Mundial do Comércio para inaugurar uma nova era de prosperidade mundial e relações comerciais mais pacíficas. Quer dizer, até agora.

Como os fantasmas do passado da Era Dourada do Partido Republicano, a “palavra favorita” de Trump exemplifica seu desdém pelo sistema multilateral de hoje. Ele já retirou os EUA da Parceria Transpacífica – acordo composto por cerca de uma dúzia de países – e ameaçou tirar o país da OMC. Muitos republicanos, sentindo-se traídos pelo globalismo que se seguiu à Grande Depressão, logo abraçaram as opiniões comerciais retaliatórias de Trump.

A reciprocidade de Trump também poderia pressagiar o retorno do velho imperialismo econômico republicano. Em um discurso proferido em julho de 2017 para inaugurar a semana “Made in America”, Trump declarou que “a reciprocidade deve ser tratada como a serva da proteção” – uma frase tirada diretamente da mensagem de Teddy Roosevelt sobre Cuba, em 1901.

A “campanha ambiciosa do governo Trump para reformar o comércio internacional” por meio da proteção e da reciprocidade é pouco mais que uma ressurreição das políticas paranoicas e coercitivas do Partido Republicano da Era Dourada. Os signatários que se cuidem. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*HISTORIADOR DA UNIVERSIDADE DE EXETER

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