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Nicósia hoje

Com angústia Nicósia, a capital da minúscula ilha do Chipre, aguardava, hoje, a reabertura dos bancos do país, fechados desde 16 de março, temendo que o governo cipriota, alarmado pela ideia de um "tsunami bancário", adiasse a volta à normalidade.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2013 | 02h01

Os outros países europeus se comportam como os cidadãos de Nicósia.

Estão com medo. De fato, embora o Chipre seja um país minúsculo, 0,1% apenas do Produto Interno Bruto (PIB) da Europa, sua posição é estratégica. Um colapso cipriota poderia ter o efeito de uma banana de dinamite acesa no coração da União Europeia e, especialmente, no coração da moeda comum, o euro.

Sobretudo, os europeus temem que o plano aplicado no caso do Chipre, pela míope ordem de Angela Merkel, pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Central Europeu e por Bruxelas, crie um precedente e os senhores de Bruxelas tenham a ideia de aplicar as mesmas receitas a outros países. De acordo com o objetivo essencial desse plano, Chipre receberá uma ajuda de 10 bilhões, com a condição de que os bancos cipriotas (o Banco de Chipre principalmente) retenham parte dos depósitos. Trata-se de uma retenção enorme aplicada aos clientes ricos: as perdas de um cliente rico poderão chegar a 45% do que ele tem depositado.

Foi assim que um princípio fundamental, que constitui a espinha dorsal da esfera financeira, foi desprezado, pervertido e pisoteado pelo plano de ajuda a Chipre: o respeito rigoroso pelas somas confiadas a um banco. Violar essa regra de ouro pode abrir uma rachadura no sistema bancário, pelo qual somas gigantescas poderão escapar a fim de buscar refúgio em outros lugares.

Os temores europeus são consideráveis, chegaram mesmo à histeria, depois da desastrada declaração do funcionário que ocupa um cargo essencial no edifício do euro, o novo chefe do Eurogrupo, que gere a zona do euro.

Essa delicada função foi desempenhada até agora com habilidade por Jean-Claude Juncker, do Luxemburgo, que acaba de ser substituído por um holandês. Sua estreia foi catastrófica. Saudando com ênfase o acordo sobre o Chipre, ele disse o que jamais deveria ter dito: "Se um banco correr o risco de não se recapitalizar por conta própria, discutiremos com os acionistas e com os credores obrigatórios, e pediremos a sua contribuição. E, inclusive, se necessário, a pediremos aos detentores de depósitos não garantidos".

Ele não poderia ter sido mais infeliz! Nos minutos seguintes, o euro perdeu 1% em relação ao dólar. Bruxelas teve uma crise de nervos. O holandês culpado por essa besteira recebeu imediatamente um apelido humilhante. Seu nome é impronunciável, Jeroen Dijsselbloe. Mas agora ele é chamado Dijsselbourde ("bourde" em francês significa "cretinice").

Mas será que ele cometeu realmente uma cretinice? Temo que não. Muitos acham que, na realidade, ele traduziu sem sutileza as convicções e os desejos da verdadeira "patroa" da Europa, a alemã Angela Merkel, com sua obsessão pela austeridade, pelo rigor e pelas contas exatas.

Assim, embora a ação adotada há dois anos contra a crise europeia por Merkel e seu ex-assistente, o francês Nicolas Sarkozy, tenha resultado em desastres e num declínio dramático da Europa, a linha imposta é sempre a mesma: Merkel continua governando a zona do euro. E ela se recusa a levar em conta o tremendo fracasso que seu pequeno arsenal de medidas rigorosas exibiu até agora. / Tradução de Anna Capovilla.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

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