Adilvan Nogueira/Estadão
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Roberto Rodrigues
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Ninguém é insubstituível

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Roberto Rodrigues, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

Recentes e recorrentes eventos climáticos extremos ampliaram as preocupações com as mudanças climáticas, fazendo com que duas questões – segurança alimentar e sustentabilidade – se tornassem o centro de atenção da humanidade, trazendo, com elas, a necessidade da descarbonização da atmosfera, enfatizando o conceito de ESG (sigla em inglês para cuidados que as empresas devem ter com o meio ambiente, o social e a governança) e determinando atitudes neoprotecionistas de diferentes governos, preocupados com o bem-estar de seus povos.

É evidente que tanto segurança alimentar quanto sustentabilidade passam pela atividade agropecuária florestal, em especial pela que está localizada no cinturão tropical do planeta, onde estão a América Latina, a África Subsaariana e diversos países asiáticos. São as regiões que ainda detêm muita terra não agricultada e nas quais tecnologias tropicais poderão aumentar a produtividade e a produção.

Também são conhecidos estudos da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico e da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (OCDE/FAO) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), indicativos de que a oferta mundial de alimentos precisa crescer 20% em dez anos para que ninguém passe fome em nenhum lugar. Para isso acontecer, o Brasil precisa aumentar em 40% sua exportação de alimentos no período referido, produzindo bem mais do que hoje.

Ora, esses estudos e a ideia de que o maior aumento da produção agrícola e pecuária se dará no cinturão tropical convergem para uma grande responsabilidade do Brasil quanto à alimentação mundial, até porque aqui foi desenvolvida uma tecnologia tropical sustentável que pode ser replicada em inúmeros outros países.

No entanto, nada garante que seremos sempre os campeões mundiais da segurança alimentar. Na semana passada, apareceram duas cabeças de gado com a chamada “doença da vaca louca”, uma no Mato Grosso e outra em Minas Gerais.

Felizmente, ambas eram animais velhos e ficou comprovado, por meio de exames em laboratório credenciado do Canadá, que se tratava de doença atípica, isto é, causada por problemas neurológicos ligados à senilidade dos animais, e não pela ingestão de alimentos inadequados.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), tão logo soube dos fatos notificou o governo chinês e suspendeu a exportação de carne bovina para aquele país, iniciativa que consta de um acordo sanitário entre os dois países.

Consequentemente, frigoríficos exportadores reduziram o abate e o preço do gado caiu. Felizmente, ficou claro que nenhum dos casos representa perigo à saúde – humana ou animal –, e a própria Organização Internacional de Epizootias (OIE), também informada pelo Mapa, já deu por encerrado o problema.

O incidente levanta duas questões. A primeira, super positiva, é que nosso sistema de vigilância sanitária é eficiente e o Mapa tomou, com agilidade, as providências cabíveis, inclusive no âmbito da diplomacia.

A segunda é mais instigante: exportamos cerca de 30% da carne bovina produzida no Brasil, e a China importa metade disso. Imaginemos se o caso não fosse atípico, isto é, se fossem duas reses com a “vaca louca” verdadeira. A China pararia de importar até quando? Quantos outros compradores nos cortariam? Por quanto tempo? Se demorasse muito, o que aconteceria com a cadeia produtiva da carne? O que fariam os importadores todos? Buscariam outros países produtores de proteína animal?

Seria, sem sombra de dúvida, uma situação terrível para nós. E se isso acontecesse com a soja, por exemplo? Se uma doença atacasse as plantas com muita virulência e nem a China nem ninguém quisesse importar por um certo período? Pura especulação, claro, altamente improvável, mas não valeria a pena exercitar esses cenários? Não apareceu a covid-19? Quem esperava por isso?

O fato é que a relação de interdependência que temos com a China é muito forte. Hoje, esse país asiático é, de longe, nosso maior mercado, precisamos deles, e os chineses precisam de nossos produtos. Será que eles pensam nisso? Teriam alguma estratégia para reduzir a dependência do Brasil? Estariam buscando substitutos?

É preciso manter um relacionamento de alto nível com a China, trabalhando estrategicamente, em paralelo, em acordos com outros grandes países ou grupos deles que sejam consumidores/importadores.

Considerando fatos inesperados e tomando como base outros na história recente do agronegócio brasileiro, diversificar mercados é uma meta essencial para garantir crescimento sustentável.

EX-MINISTRO DA AGRICULTURA E COORDENADOR DO CENTRO DE AGRONEGÓCIOS DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

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