Vinícius Brito/Estadão
Vinícius Brito/Estadão

'Ninguém faz nada pela gente aqui', diz vendedor de sucata no Recife

A maior queixa de Silva é a falta de saneamento básico: 'este ano, a gente sofreu duas cheias, perdemos quase tudo'

Vinicius Brito e Israel Gomes, especiais para o Estado, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 22h17

RECIFE/FORTALEZA - Edilson Silva, de 44 anos, mora há mais de três décadas em uma casa sob a Ponte da Volta ao Mundo, em Caxangá, na zona oeste do Recife. Ele não tem emprego formal e ganha a vida vendendo sucata. “Eu saio toda noite com um carrinho de mão velho para arrumar uma reciclagem e ajudar em alguma coisa. O que eu arrumar é lucro.” Na família dele, formada pela mãe, dois irmãos e uma sobrinha, a renda mensal gira em torno de R$ 120 por pessoa. 

A maior queixa de Silva é a falta de saneamento básico. “É péssimo, não tem ninguém que faça nada pela gente aqui. É muita água e, com a chuva, chega a 1,5 metro dentro de casa. Este ano, a gente sofreu duas cheias, perdemos quase tudo, geladeira, móveis, sofá, cama e fogão.”

Silva faz parte dos 13,537 milhões de pessoas que vivem na miséria no País, segundo a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Apesar de viver em condições precárias, numa área sem coleta de esgoto, Silva tem acesso à internet. Mas ele diz que não usa celular nem computador com frequência.

Mesma realidade de Patrícia Alves, de 44 anos, “nascida e criada” na Vila Felicidade, uma das Zonas Especiais de Interesse Social da capital pernambucana. A comunidade, banhada por um rio, não tem sistema de esgoto. “A gente não tem saneamento e cada dia que passa é pior, com as cheias. Antigamente, (a água da chuva) só cobria o pé aqui em casa. Agora, chega na cintura. Perdi guarda-roupa, cama, colchão e até roupas, só fiquei com a máquina e a TV.”

Patrícia está desempregada há dois anos e a renda mensal da família não chega a R$ 170 por pessoa. “Estamos com um salário mínimo, porque só meu marido trabalha, para dividir comigo, três filhos e uma neta.” Ela também tem acesso à internet e paga R$ 55 por mês, conta. 

Formado em Gestão de Recursos Humanos na Faculdade Lourenço Filho, há quase cinco anos, João Paulo Brito, de 27 anos, ainda não conseguiu uma vaga em sua área. Nesse período, trabalhou onde deu, mas há cerca de seis meses está desempregado. Brito mora com os pais, o irmão e a cunhada em Pacatuba, município da região metropolitana de Fortaleza, distante 32,5 km da capital cearense. Na residência, apenas duas pessoas trabalham com carteira assinada.

João não fez estágio enquanto cursava o ensino superior e acredita que a dificuldade para arrumar emprego se deve à falta de experiência, à crise, mas também ao racismo. “O favorecimento a pessoas brancas é visível.”

Segundo o IBGE, desigualdades raciais no País se refletem em menos oportunidades e desigualdade salarial.

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