Ninguém sai do caso Carlos Ghosn 'cheirando bem'

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Ninguém sai do caso Carlos Ghosn 'cheirando bem'

Renault-Nissan, autoridades japonesas e o próprio Ghosn têm muitas perguntas a responder

The Economist, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2020 | 12h08

A última vez que um fugitivo da Justiça chamado Carlos aterrissou no Líbano foi em 1975, quando Carlos, o Chacal, se refugiou em Beirute. Hoje o foragido não é um terrorista, mas um executivo que se tornou celebridade, conhecido por seus fanáticos cortes de custos. Em 31 de dezembro, Carlos Ghosn, ex-chefe da Renault-Nissan, preso no Japão em novembro de 2018, acusado de má conduta financeira, fugiu para o Líbano. Ghosn afirma ser vítima de “injustiça e perseguição política” do sistema judiciário japonês. Os promotores japoneses por seu lado o consideram um bandido que se evadiu da Justiça.

Na verdade este caso está longe de ser uma simples história de luta entre o bem e o mal. Cada uma das três principais partes envolvidas na saga Renault-Nissan, as autoridades japonesas e o próprio Ghosn, tem muitas perguntas a responder.

Ghosn assumiu o comando da Nissan em 2001 e da Renault em 2005. A montadora francesa tem uma participação de 43% na companhia japonesa, e junto com a Mitsubishi elas formam uma aliança que se tornou a maior fabricante de carros do mundo em termos de volume. É algo que impressiona, mas mesmo Ghosn, uma pessoa essencialmente focada nos negócios, lutou para esse pacto complicado avançar sem problemas. Ele diz que estava planejando uma integração maior da Renault e da Nissan e que autoridades e executivos japoneses nacionalistas, que desejavam manter a Nissan independente, frustraram o plano, arquitetando a sua prisão.

Ghosn se considera um mártir e nega qualquer transgressão, mas existem ultrapassagens do sinal vermelho flagrantes. Em setembro, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos informou que ele e um colega ocultaram US$ 140 milhões de pagamentos de compensações da Nissan, envolvendo contratos secretos, cartas com datas retroativas e informações fiscais fraudadas. A Nissan, Ghosn e seus colegas resolveram o caso por meio de um acordo e pagaram as multas impostas, mas não reconheceram e nem negaram as acusações. Ghosn foi banido da direção da companhia nos Estados Unidos por um período de 10 anos. Há notícias de outras transações complexas entre a Nissan e seu ex-patrão que, se verdadeiras, indicam que um líder controlador pode ter perdido o senso do limite entre suas finanças pessoais e as da empresa que ele administra.

Seria de esperar que o sistema judiciário do Japão chegasse rapidamente e de modo imparcial ao fundo desse caso. Mas a porcentagem de condenações no país, de mais de 99%, reflete o seu tratamento duro dos suspeitos, o que ficou bem à mostra neste caso. Ghosn foi preso, libertado, preso novamente e depois libertado sob fiança. Estava sujeito a interrogatórios sem a presença de advogado. Seus advogados afirmam que não puderam examinar documentos chave e que, embora livre sob fiança, o acesso de Ghosn à sua mulher e à internet foi proibido. Depois de 13 meses de investigações o julgamento ainda não começou. Além disto, a divulgação de informações fraudadas é comum entre as empresas japonesas.

À medida que o escândalo envolvendo Ghosn piora, Renault e Nissan, que juntas empregam mais de 300 mil pessoas, vacilam. Incapazes de obter as eficiências propiciadas pelo fato de serem uma única companhia, ambas têm tido um desempenho medíocre - seu rendimento de capital combinado caiu para menos de 5% em 2019. Paralisadas pelo escândalo as empresas se defrontam com vendas e margens em queda. Em maio a Renault tentou uma fusão com a Fiat Chrysler para criar uma grande empresa europeia, mas a hesitação e ingerência do governo francês aniquilaram o acordo. A Fiat está agora em processo de fusão com outra montadora francesa, a PSA.

O que deve ocorrer em seguida? Renault e Nissan devem fundir ou desfazer suas participações acionárias cruzadas. Ambas precisam cortar custos para se colocarem em forma novamente. As autoridades japonesas têm de explicar como Ghosn se evadiu e responder às acusações de perseguição feitas por ele. Quanto ao chefão que se tornou desertor, ele promete limpar seu nome. Mas sua posição é extraordinária. Ghosn é um foragido da Justiça, oculto num país menor do que Nova Jersey. De rei do setor automotivo ele agora corre o risco de uma vida inteira sentado no assento traseiro, escondido embaixo de um cobertor. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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