Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

‘Ninguém vai dormir tranquilo até novembro’, diz ex-diretor da Aneel

Executivo que atuou na crise hídrica de 2001 diz que País vai ‘passar raspando’ sem novo racionamento de energia, mas há riscos de apagões involuntários

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2021 | 05h00

Ex-diretor da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman acredita que o Brasil vai “passar raspando” sem racionamento de energia elétrica neste ano, mas pode sofrer apagões involuntários em horário de pico. Para ele, as medidas de gerenciamento de oferta e demanda estão corretas, mas a comunicação precisa ser reforçada para ter a adesão da população. “Os reservatórios estarão muito baixos, ninguém vai dormir tranquilo até novembro. É uma situação preocupante.”

Kelman presidiu a força-tarefa criada pelo então presidente da República Fernando Henrique Cardoso para investigar as causas do racionamento de 2001. Parte dos problemas foi corrigida. Mas algumas distorções continuam. Uma delas é a questão das garantias físicas das usinas hidrelétricas, que, segundo ele, continuam superestimadas. Ou seja, geram menos do que dizem que podem produzir num momento de seca. Outra questão é a falta de gás para atender às térmicas. “Parece um déjà-vu.”

Vamos ter um racionamento?

Não afasto a possibilidade, mas acho que não vai ocorrer. O racionamento pode ser evitado com gerenciamento da oferta e demanda, o que já está sendo feito. Segundo o estudo da (consultoria) PSR, a probabilidade varia de 2% a 20%. Isso exige algumas medidas que em condições normais não seriam tomadas. Por exemplo, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já autorizou reduzir o critério N-2 para N-1 nas linhas de transmissão entre Nordeste e Sudeste. É como se fosse um carro que andava com dois estepes e agora só tem um.

O programa que o governo anunciou, com a redução voluntária e o aumento das bandeiras tarifárias, é suficiente para evitar o racionamento?

Acho pouco provável um racionamento. Em outubro e novembro, teremos preocupação com potência. Isso que dizer que na hora da ponta, que é o máximo do consumo no País, será necessário usar reservas (geradores que não estão produzindo). Se a reserva não for suficiente, pode haver apagão involuntário. Apesar disso, o porcentual que não seria atendido seria baixo.

Antecipar o corte seletivo é uma saída?

A melhor maneira de equilibrar oferta e demanda é mostrar que o produto está escasso. Quando você tem escassez de tomate, por exemplo, o preço sobe e as pessoas reduzem o consumo. O certo é deixar claro para todo mundo que, para evitar o racionamento, um mal maior, que é ligar térmicas caras, tem de ser feito. Como estamos numa situação complicada, todas estão ligadas e quem vai pagar a conta é o consumidor. O problema é mais econômico. Estamos gastando parte dos recursos que a população não tem para manter todo mundo sem restrição do uso de energia. É bom que o consumidor saiba que está caro e que precisa reduzir o consumo.

 

As medidas de redução não chegaram muito tarde?

Depois que a Creg (Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética) que foi criada (em 28 de junho de 2021), as providências que tinham de ser tomadas ganharam velocidade. As primeiras medidas foram no sentido de flexibilizar as restrições operativas das hidrelétricas. Essas restrições estavam obrigando as usinas a esvaziarem seus reservatórios. O ideal teria sido se antes da Creg, a ANA  e o ONS tivessem se articulado melhor para que essa flexibilização se desse mais cedo. Foi preciso criar a Creg para tomar as medidas. A usina de Porto Primavera, última hidrelétrica antes de Itaipu, tinha uma restrição imposta pelo Ibama de alta vazão para preservar os peixes. Essa restrição esvaziava não só Porto Primavera como também as usinas da bacia do Rio Paraná. A Creg retirou essa restrição e a Cesp conseguiu deslocar uma equipe para capturar os peixes.

 

Mas e a redução de demanda?

Penso que o melhor remédio e a melhor postura é a transparência. Não havia dúvida que 2020 foi um ano seco e 2021 também seria. A seca que nós estamos vivendo nos últimos sete anos é muito parecida com a seca da década de 50. De fato, não é novidade, não foi em julho que se descobriu que estávamos numa seca terrível. Nesse caso, em qualquer lugar do mundo, se dá ampla publicidade e pede a todos que economizem para o bem de todos. Deveria ter mais comunicação.

 

Vamos continuar sendo refém da hidrologia? 

Ligar as térmicas quando tem seca faz parte da nossa opção de hidreletricidade. O Brasil é o País que mais produz energia de fontes renováveis, sendo a principal a hidreletricidade. Isso cobra um preço. Quando há uma seca o sistema hidrelétrico exige a operação das térmicas. Adotamos esse modelo há décadas e está correto. Agora o sistema não deve ser projetado para que, quando ocorrer uma seca, fique todo mundo nervoso. Não é isso que deve ocorrer. Em 2001 tivemos um racionamento e depois foi feita uma reforma para corrigir alguns defeitos, porque alguma coisa não funcionou. Quando não tem oferta de energia algo estava errado. Algo estava errado em 2001 e algo está errado agora. Em 2001 algumas coisas foram corrigidas e outras ainda não foram. Os leilões de contratação de longo prazo (PPA) foram bastante positivos e hoje somos imitados por outros países. A criação do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) também.

 

O que não foi corrigido?

Passados 20 anos estamos sofrendo as consequências exatamente do que não foi corrigido. Primeiro que as usinas têm a garantia física, que é a contribuição que uma usina dá para o esforço coletivo de atender a demanda. Essa garantia física estava superdimensionada em 2001. O que significa isso? O País contava que o sistema seria capaz de atender uma demanda maior do que de fato conseguiria. Essa foi a principal causa do racionamento de 2001. Então seria preciso ao longo dos 20 anos ter corrigido isso no sentido de restabelecer a verdade sobre qual é a verdadeira capacidade de geração de cada unidade geradora. Só teve uma vez em que o governo reviu as garantias físicas, que foi em 2017. Mas tem muitas usinas com garantia física maior do que fato tem. Quando olhamos a capacidade teórica do sistema, as usinas deveriam atender a demanda que temos hoje. Mas, se está superdimensionado, numa seca, elas não conseguem.

 

E o que mais não foi corrigido?

Em 2006, desconfiou-se que as usinas térmicas não teriam gás para operar. Estavam lá, mas na hora h não iriam funcionar. Fizeram um teste e viram que não tinha gás. Ou seja, não basta ter usinar térmica, tem de ter gás. Hoje temos o mesmo problema. Há duas térmicas no Ceará (Termofortaleza e Termoceará) que não têm gás para operar. Elas usam GNL em um navio da Petrobras. Mas a estatal tirou o navio de lá e levou para a Bahia. A manutenção de Mexilhão também colocou as plataformas da Petrobras fora de combate. É muita coincidência. Na hora que mais precisa, alguma coisa acontece e falta gás. Parece um Déjà-vu. 

 

E agora? 

Temos duas agendas em 2021. No curto prazo, é gerenciar a oferta e demanda para passarmos raspando sem racionamento. Os reservatórios estarão muito baixos, ninguém vai dormir tranquilo até novembro. É uma situação preocupante. Estamos correndo mais risco. Suponhamos que chova em novembro e dezembro, aí podemos começar a pensar numa nova reforma do setor.

 

Passar raspando neste ano, significa que podemos ter novos problemas em 2022?

As chuvas de novembro a abril serão determinantes para o custo da energia. Mas tem muita geração nova entrando em 2022. Mesmo que a chuva venha normal nesse período estaremos em recuperação. Para continuar numa situação aflitiva, a seca tem de continuar na mesma intensidade dos últimos anos. 

 

Essa nova geração é eólica e solar? Isso resolve o problema?

Nós só podemos estar expandindo a energia eólica e solar porque temos hidrelétrica e térmica. A eólica e solar são não despacháveis. Hídricas e térmicas produzem energia quando o sol não está brilhando e o vento não está soprando. Vou falar uma coisa que pode parecer uma heresia, mas sou favorável à retomada das avaliações sobre a possibilidade de construção de usinas hidrelétricas, de preferência com reservatórios. Desistimos de construir hidrelétricas com reservatórios mesmo sem examinar quais os casos favoráveis. Nem todo local onde se cogita construir uma hidrelétrica é inviável. Mas nós desistimos de todas, a meu ver, cedo demais. O Brasil sempre foi líder no tema hidreletricidade e penso que abandonamos essa riqueza natural precipitadamente.

 


 

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