Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

'Ninguém vai levar o Brasil à desgraça', diz Delfim Netto

Para Delfim Netto, não é a disputa por um 'ministeriozinho' que vai impedir a aprovação do ajuste fiscal

Entrevista com

Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda

RICARDO LEOPOLDO, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2015 | 05h34

O ajuste fiscal é "urgentíssimo". Sem ele, o Brasil perderá o grau de investimento perante as agências de rating, o que levará o câmbio a um nível bem mais alto que a atual marca de R$ 3,246, comentou o ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto, em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

Para Delfim, é falsa a ideia de que o Congresso e o deputado Eduardo Cunha vão se opor às mudanças propostas pelo governo federal. E a presidente Dilma Rousseff deverá resolver a disputa com o PMDB. "Não é crise, é queda de braço", disse Delfim.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O governo conseguirá logo apoio da base aliada, especialmente do PMDB, para aprovar no Congresso mudanças essenciais ao ajuste fiscal? 

Temos uma situação econômica bastante complicada, mas não está demonstrado que o Congresso não vai ajudar. É falsa a ideia de que o Congresso, o deputado Eduardo Cunha vão se opor às mudanças propostas. O Congresso vai se comportar bastante bem em relação às medidas de cuja aprovação o governo precisa.

O que falta para o governo ter logo esse apoio no Parlamento?

Simplesmente apresentar os projetos. No caso da correção da tabela do Imposto de Renda, o governo apresentou um projeto. O Congresso passou uma lixa aqui, um esmeril lá e saiu. Agora com as MPs das desonerações de folha de pagamento e novas regras de benefícios sociais haverá discussão. Não sairá o que o governo pediu, mas será algo bem razoável. Não existe essa história de alguém que diz "eu quero que piore porque não gosto da Dilma". Isso não é argumento.

Mas o PMDB argumenta que o tratamento político concedido pelo Planalto está aquém do desejável como principal aliado.

Isso é um problema que a presidente Dilma Rousseff e o PMDB vão resolver. Não é crise. É queda de braço. Ninguém vai levar o Brasil à desgraça porque está disputando um ministeriozinho. O PMDB não pode ser isolado do Poder Executivo, pois é um fator importante de governabilidade. E precisa participar da administração. O que ajuda é distribuir o poder de acordo com a organização política, com certa equanimidade. O PMDB vai ajudar como tem ajudado até agora.

O ajuste fiscal é condição sine qua non para o Brasil não perder o grau de investimento perante agências de rating?

O ajuste fiscal é urgentíssimo. Ele é a ponte para o Brasil passar para o outro lado do rio, chegar ao objetivo final, que é o crescimento. Sem o ajuste fiscal, o País perderá o grau de investimento e teremos provavelmente uma crise cambial, com overshooting de câmbio, que irá para um nível bem distante do atual. Sem ele, não haverá a perspectiva de crescimento da economia, não tem futuro. Só a política fiscal permite a coordenação entre a política monetária, salarial, cambial para produzir um crescimento razoável com equilíbrio externo e interno. E o equilíbrio vai ser feito. Se o governo recusar a fazer por bem, o mercado fará por mal.

Como o sr. avalia o comentário da presidente Dilma Rousseff, que admitiu erro de dosagem nas políticas anticíclicas no primeiro mandato?

O governo até descobriu agora uma fórmula para se libertar um pouco dos seus erros: Ele diz: "Errei sim, mas errei para proteger teu emprego. Mas agora, acabou a possibilidade disso continuar. Então, vamos todos sofrer um pouquinho, mas sofrer muito menos que o resto". É o reconhecimento de que tem de mudar. E ocorreu uma mudança de 180 graus da política econômica.

A nova política econômica é melhor?

Nós vamos testar. Não é questão de saber a receita do pudim, mas o gosto dele. O outro nós vimos que tinha gosto ruim. Para mim, é uma vantagem enorme a presidente ter a coragem de dizer o que falou.

Será longa a recessão?

Há condições para sair destas dificuldades econômicas. Nós não vamos voltar a crescer em menos de 14, 15 meses. E isso se tudo funcionar. Num primeiro momento, o crescimento pode vir da utilização da capacidade ociosa da indústria, que foi prejudicada pela política de câmbio.

O ministro Levy conseguirá entregar a meta de superávit primário de 1,2% do PIB neste ano?

O Levy fará o que puder, e provavelmente um pouco do que não puder, para chegar no primário de 1,2% do PIB. A meta é o sinal de que o governo fará tudo para alcançar um bom ajuste fiscal. Mas, se for 1% do PIB, bem feito, está muito bom. O que importa é a tendência e a permanência destas políticas: busca do equilíbrio fiscal, melhora do investimento público, ênfase na exportação e agricultura.

Como o sr. avalia o novo patamar de câmbio, que estava em R$ 2,60 no dia 21 de janeiro e chegou agora a R$ 3,246?

Sem câmbio, não vamos voltar a crescer. O crescimento só vai ocorrer quando recuperar a indústria nacional. O crescimento murchou porque destruímos a indústria nacional com uma valorização irresponsável do câmbio por anos seguidos.

O câmbio pouco acima de R$ 3,20 já está num nível ideal?

O câmbio a R$ 3,20 vai permitir a substituição de boa parte dos importados, a não ser que não controle o contrabando. É melhor que R$ 3,10, que é melhor que R$ 3,00. O nível perfeito do câmbio ninguém sabe.

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