Nissan ressuscita marca Datsun em emergentes

Após fracassar no setor de carros elétricos, executivo Carlos Ghosn retoma marca abandonada há 30 anos em veículos de baixo custo, de US$ 6,6 mil

BLOOMBERG NEWS , MUMBAI, ÍNDIA, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2013 | 02h05

A designer de moda Rebecca Nelson, de Nova Délhi, é o tipo de consumidor que a Nissan tenta atrair ao ressuscitar a marca Datsun: alguém com um orçamento apertado e que está buscando comprar o primeiro carro. O problema é que ela nunca ouviu falar da marca. "O que é Datsun?", questionou a designer, que ganha cerca de US$ 400 por mês e usa o metrô para ir trabalhar. "Se eu decidir gastar minhas economias num carro, vou apostar em uma marca conhecida e testada."

A Nissan está trazendo de volta a Datsun depois de abandoná-la em 1981, em favor do nome próprio da montadora. Vendido principalmente nos Estados Unidos e na Europa no passado, os Datsun ficaram famosos nos anos 70 por sua economia de combustível durante os anos do choque do petróleo. O presidente da Nissan, o franco-brasileiro Carlos Ghosn, conta com a oferta de nova tecnologia a preços baixos para superar o fato de que a Datsun não é conhecida nos mercados emergentes, justamente onde a marca voltará a ser vendida.

O primeiro novo Datsun, um hatch que a Nissan deve lançar na Índia com preço estimado em US$ 6,6 mil, deverá ser revelado este mês e chegar às concessionárias a partir de 2014.

Dentro de dois anos, a Nissan espera introduzir a marca também na Indonésia, na Rússia e na África do Sul. É mais um passo de Ghosn para competir em todos os segmentos dos países em desenvolvimento que crescem rapidamente. É também a outra face da unidade Infiniti da Nissan, que está sendo revitalizada de olho nos milionários chineses.

"A Nissan entendeu que há um mercado de enorme potencial nos emergentes, que exige modelos (de automóveis) mais econômicos", diz Ammar Master, analista da LMC Automotive, de Bangcoc. "Sem a Datsun, a empresa teria dificuldades de crescer rapidamente nos mercados emergentes." O retorno da Datsun segue uma aposta de US$ 5 bilhões feita por Ghosn em veículos elétricos que até agora ficou bem aquém das expectativas. A Nissan reduziu preços de todos os seus modelos da linha Leaf depois de não atingir as metas de vendas nos últimos dois anos.

"Ele tem de tirar um coelho da cartola", afirma Edwin Merneer, presidente da Atlantis Investment Research, de Tóquio. "Faz anos que ele não encontra uma solução criativa. Será que ele perdeu a mágica?", questiona. As ações da Nissan subiram 34% neste ano, em comparação com o avanço de 39% do índice da Bolsa de Tóquio e com a alta de 60% da rival Toyota.

A montadora, que depende fortemente da China, foi mais prejudicada do que as rivais Toyota e Honda após uma disputa territorial entre os governos chinês e japonês acarretar uma rejeição às marcas do Japão entre os consumidores chineses. Nos Estados Unidos, a Nissan teve vendas recordes em junho depois de reduzir o preço de diversos modelos.

Substituição. Com o Datsun, a empresa vai passar a disputar um mercado no qual não estava inserida: os carros de entrada, que são usados em países como Indonésia e Índia por consumidores que estão evoluindo na cadeia de consumo. Muitos deles veem os carros mais baratos como um substituto à motocicleta. A visão da Nissan é que revitalizar a Datsun é mais fácil do que criar uma marca completamente nova para o segmento. A ideia da companhia é ganhar reconhecimento rapidamente entre os veículos populares.

"O risco maior é não fazermos nada", diz Ghosn. A escolha de ressuscitar um nome que estava dormente há mais de 30 anos também evita o uso da marca Nissan para veículos que não são adequados a seu posicionamento. Nos Estados Unidos, seu modelo mais vendido é o Altima, que custa a partir de US$ 21.760. A "irmã" Renault usa a mesma estratégia da Nissan: está retomando a marca Dacia para veículos mais populares.

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