Nível de investimento em 2003 foi o menor desde o Plano Real

O nível de investimento na economia brasileira em 2003 foi o pior desde o Plano Real. Os gastos públicos, travados por compromissos fiscais, e a cautela da iniciativa privada explicam grande parte desse desempenho. Comparado com o maior patamar recente, de 1997, a queda real em 2003 chega a 13%. Ainda assim, economistas e executivos acreditam que parte das perdas será recuperada este ano com ações de governo e a retomada econômica. O nível médio dos investimentos nos últimos anos foi calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pedido do Estado. A conta toma por base uma taxa, chamada de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), a cada trimestre, desde o início da década passada. A taxa reflete o nível de investimentos em construção (infra-estrutura, habitação, prédios industriais) e em máquinas e equipamentos para expansão fabril. Incerteza regulatória "O patamar baixo resulta do investimento público em contração, por causa da necessidade de criação de superávit primário, e dos investimentos privados com o freio de mão puxado. Isso, aliado à incerteza regulatória, ajudou a derrubar o investimento", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização (Sobeet), Antonio Correa de Lacerda. A apresentação do modelo do setor elétrico, por exemplo, esperada para meados de 2003, foi feita pelo governo só no fim do ano. Na semana passada, a MP do novo modelo foi aprovada no Senado. O diretor de Macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Levy, ressalta que os investimentos já estavam em queda nos últimos anos, basicamente em razão do fraco desempenho da economia no período, à exceção de 2000, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,4%. Retração não é uniforme Levy também argumenta que a retração dos investimentos não está sendo uniforme: tem sido maior em habitação e infra-estrutura. Segundo o IBGE, enquanto a queda do investimento foi de 6,6% em 2003, o recuo na construção chegou a 10,4%, bem acima da redução de 1,6% em máquinas e equipamentos. Na semana seguinte à divulgação da queda do PIB (0,2%) e do desempenho francamente negativo da construção, o governo partiu para o anúncio de medidas que poderão aliviar o quadro. O governo decidiu encaminhar ao Congresso Nacional propostas para estimular a concessão de novos financiamentos habitacionais, que poderão elevar em R$ 1,6 bilhão o total de recursos do setor. Três dias depois, foi a vez do anúncio de investimentos de R$ 3 bilhões para a melhoria da malha rodoviária. Até o fim de março, espera-se o anúncio, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de um programa com juros fixos e reduzidos para a aquisição de equipamentos industriais, nos moldes do Moderfrota, programa voltado para a compra de máquinas e tratores agrícolas. "Um conjunto de medidas está sendo adotado para induzir um aumento dos investimentos", diz Levy. Crescimento em 2004 Consultores e institutos de pesquisa, como o próprio Ipea e a LCA Consultores, avaliam que o investimento crescerá em torno de 6% em 2004. Com isso, o País voltaria apenas ao patamar do ano retrasado. Dados do terceiro e quarto trimestres de 2003 já dão sinais de aceleração dos investimentos. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) alerta, contudo, para a qualidade dos investimentos que parecem sair do papel. O diretor-executivo do Iedi, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, lembra que há investimentos que acompanham o nível de atividade (compra de uma máquina, obras mais urgentes) e os de maior alcance (nova fábrica, usina hidrelétrica). Para ele, é o investimento do primeiro tipo que vem aumentando. "Os mais nobres e mais representativos da aposta na economia ainda estão em banho-maria", afirma. Já o economista sênior da LCA, Francisco Pessoa Faria, acredita que os investimentos para este ano devem girar, principalmente, em torno dos setores exportadores e da agropecuária.

Agencia Estado,

07 Março 2004 | 15h15

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