Nível é muito ruim, mas progresso tem sido bastante rápido

Não resta dúvida de que a desigualdade de renda no Brasil é muito grande, e que o País figura entre os piores países do mundo nessa questão, junto com outras nações latino-americanas e africanas. No entanto, o ranking do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) está defasado, já que seu dado com certeza não é posterior a 2006 - e, de lá até 2008, pelo menos, a desigualdade brasileira prosseguiu no grande movimento de queda, iniciado a partir do final da década de 90.

Análise: Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Tomando-se a renda familiar per capita (o indicador usado pelo Pnud), o Brasil saiu de um índice de Gini de 0,6019, em 1996, para 0,5486, em 2008. A queda em 12 anos, portanto, foi de 9%, um ritmo veloz segundo os especialistas, já que esse tipo de indicador evolui muito gradativamente.

O índice de Gini varia de zero a um, e quanto maior ele for, pior é a desigualdade.

"A fotografia da distribuição de renda brasileira ainda é muito ruim, mas qualquer comparação internacional indica que a nossa queda da desigualdade foi muito rápida", diz Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais (CPS), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Especificamente entre 2006 e 2008, a queda do Gini no Brasil foi de 2,4%, de 0,5623 para 0,5486, uma redução muito expressiva para um período de apenas dois anos. Para se saber precisamente qual a posição brasileira num ranking mundial de desigualdade, seria preciso comparar a posição em 2008, a última disponível pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), com a de outros países no mesmo ano.

O especialista Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), considera difícil transmitir para as pessoas o seu otimismo em relação à evolução dos indicadores sociais no Brasil. A razão, explica, é que o público olha primordialmente para o nível, e não para as variações do nível. Cientistas como Neri e Paes de Barros sabem, porém, que uma desigualdade monstruosa como a que o Brasil herdou do seu passado não será corrigida em poucos anos.

Entre 2001 e 2008, a renda dos 10% mais pobres no Brasil cresceu seis vezes mais rápido do que a dos 10% mais ricos. Para Paes de Barros, é quase impossível se imaginar um ritmo mais veloz de redução de desigualdade. Mesmo assim, permanecem os terríveis contrastes na paisagem social brasileira. É uma realidade com a qual o País ainda terá de conviver por muito tempo, mas que pode ir melhorando paulatinamente, se o governo e a sociedade souberem como manter os progressos dos últimos doze anos.

É JORNALISTA DO "ESTADO"

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