Tiago Queiroz/Estadão
Em junho, as concessões de crédito para pessoas físicas subiram 14,3%, para R$ 144,1 bilhões. Tiago Queiroz/Estadão

No 1º semestre, volume total do crédito bancário tem maior alta em 7 anos

Aumento no crédito bancário está relacionado com medidas adotadas pelo BC para liberar mais recursos para os bancos emprestarem

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 10h57

BRASÍLIA - O volume total do crédito ofertado pelos bancos registrou crescimento de 4,2% no primeiro semestre deste ano, para R$ 3,624 trilhões, segundo números divulgados nesta quarta-feira, 29, pelo Banco Central. O crescimento do estoque foi de R$ 146,260 bilhões.

De acordo com os números da instituição, essa foi a maior alta do crédito bancário para esse período desde 2013, ou seja, em sete anos. Nos seis primeiros meses daquele ano, o volume total do crédito bancário avançou 6,89%, para R$ 2,531 trilhões, uma alta de R$ 163,238 bilhões.

O aumento no crédito bancário, nos seis primeiros meses deste ano, está relacionado com medidas adotadas pelo Banco Central para liberar mais "liquidez", ou seja, recursos, para os bancos emprestarem. A instituição anunciou a liberação de mais de R$ 1,2 trilhão para as instituições financeiras em março e, mais recentemente, novas ações foram divulgadas.

De acordo com o BC, o estoque de crédito livre (recursos que os bancos podem emprestar sem seguir regras pelo governo) avançou 0,6% em junho, enquanto o de crédito direcionado apresentou alta de 1,1%.

No crédito livre, houve alta de 0,6% no saldo para pessoas físicas no mês passado. Para as empresas, o estoque também avançou 0,6% no período. 

O BC informou ainda que o total de operações de crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) foi de 49,7% para 50,4% na passagem de maio para junho.

As projeções do BC, atualizadas no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de junho, indicam expansão de 7,6% para o crédito total em 2020. A projeção para o crédito livre em 2020 é de alta de 10,6%. Já expectativa para o crédito direcionado é de elevação de variação 3,5%. Estas projeções já levam em conta os efeitos da epidemia do novo coronavírus na economia.

Concessões

Em meio ao processo de reabertura gradual da economia, na esteira da pandemia do novo coronavírus, as concessões dos bancos no crédito livre subiram 12,3% em junho ante maio, para R$ 284,7 bilhões, informou o Banco Central. No primeiro semestre, o avanço acumulado foi de 5,4% e, nos 12 meses até junho, de 11,2%.  

Estes dados, apresentados nesta quarta pelo BC, não levam em conta ajustes sazonais. Os números são influenciados pelos efeitos da pandemia, que colocou em isolamento social boa parte da população e reduziu a atividade das empresas, em especial nos meses de março e abril. Em meio à carência de recursos, famílias e empresas aumentaram a demanda algumas linhas de crédito nos bancos. No entanto, seguem as reclamações, em especial entre empresas, de dificuldades de acesso a crédito neste momento de crise.

 

O BC não divulga dados sobre o quanto a procura por crédito aumentou – mas apenas o quanto foi concedido.

Em junho, no crédito para pessoas físicas, as concessões subiram 14,3%, para R$ 144,1 bilhões. Já no caso de pessoas jurídicas, as concessões avançaram 10,3% em junho ante maio, para R$ 140,6 bilhões.

Empresas

Em meio aos efeitos da pandemia, as concessões de crédito para empresas aumentaram em diversas modalidades, embora haja reclamações recorrentes, entre as empresas, de dificuldades de acesso ao crédito neste momento de crise.

Os dados mostram que as concessões de crédito via desconto de duplicatas e recebíveis cresceram 21,1% em  junho ante maio, para R$ 30,650 bilhões.

No caso do desconto de cheques, houve alta de 1,3% e, na antecipação de faturas de cartão, ocorreu avanço de 34,6%. Os dados não levam em em conta eventuais ajustes sazonais.

Os números do BC mostram ainda que, em junho, a concessão de crédito para capital de giro subiu 12,0%. Dentro desta rubrica, o capital de giro com prazo inferior a 365 dias caiu 25,2%, enquanto operações com prazo maior tiveram alta de 41,5%. Já o capital de giro na modalidade teto rotativo recuou 20,1%.

Conforme o Banco Central, no caso da conta garantida para empresas, as concessões aumentaram 6,4% em junho ante maio. Já o cheque especial para pessoas jurídicas registrou redução de 13,2% nas concessões no mês passado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Na crise, juro do rotativo do cartão cai em junho, mas continua acima de 300% ao ano

Com a carência de recursos, famílias aumentaram a demanda por linhas de crédito nos bancos

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 10h42

BRASÍLIA - Com as famílias em dificuldades para fechar as contas durante a pandemia do novo coronavírus, em meio à retração da atividade e ao desemprego, o juro médio total cobrado pelos bancos no rotativo do cartão de crédito caiu 4,7 pontos porcentuais de maio para junho, informou nesta quarta-feira, 29, o Banco Central (BC). A taxa passou de 305,0% para 300,3% ao ano.

Os dados apresentados pelo BC são influenciados pelos efeitos da pandemia, que colocou em isolamento social boa parte da população, reduzindo a atividade das empresas e elevando o desemprego. Com a carência de recursos, as famílias aumentaram a demanda por algumas linhas de crédito nos bancos. O rotativo do cartão, juntamente com o cheque especial, é uma modalidade de crédito emergencial, muito acessada em momentos de dificuldades.  

O juro do rotativo é uma das taxas mais elevadas entre as avaliadas pelo BC. Dentro desta modalidade, a taxa da modalidade rotativo regular passou de 248,9% para 242% ao ano de maio para junho. Neste caso, são consideradas as operações com cartão rotativo em que houve o pagamento mínimo da fatura.

Já a taxa de juros da modalidade rotativo não regular passou de 335,8% para 334% ao ano. O rotativo não regular inclui as operações nas quais o pagamento mínimo da fatura não foi realizado.

No caso do parcelado, ainda dentro de cartão de crédito, o juro passou de 138,4% para 118,7% ao ano.

Considerando o juro total do cartão de crédito, que leva em conta operações do rotativo e do parcelado, a taxa passou de 76,7% para 69,8%.

Em abril de 2017, começou a valer a regra que obriga os bancos a transferir, após um mês, a dívida do rotativo do cartão de crédito para o parcelado, a juros mais baixos. A intenção do governo com a nova regra era permitir que a taxa de juros para o rotativo do cartão de crédito recuasse, já que o risco de inadimplência, em tese, cai com a migração para o parcelado.

Atualmente, porém, o risco de inadimplência aumentou, justamente porque muitas famílias estão enfrentando redução de renda, na esteira da pandemia.

No geral, a taxa média de juros no crédito livre (recursos que os bancos podem emprestar sem exigências do governo) caiu de 29,6% ao ano em maio para 27,9% ao ano em junho. Em junho de 2019, essa taxa estava em 37,6% ao ano.

Para as pessoas físicas, a taxa média de juros no crédito livre passou de 42,9% para 40,7% ao ano de maio para junho, enquanto para as pessoas jurídicas foi de 14,2% para 13,0% ao ano.

Cheque especial

Entre as principais linhas de crédito livre para a pessoa física, há destaque para o cheque especial, cuja taxa passou de 116,1% ao ano para 110,2% ao ano de maio para junho. No crédito pessoal, a taxa passou de 33,4% para 32,7% ao ano.

Desde julho de 2018, os bancos estão oferecendo um parcelamento para dívidas no cheque especial. A opção vale para débitos superiores a R$ 200. A expectativa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) era de que essa migração do cheque especial para linhas mais baratas acelerasse a tendência de queda do juro cobrado ao consumidor.

Em função da ineficácia da autorregulação da Febraban, o BC anunciou a limitação dos juros do cheque especial em 8% ao ano (151,82% ao ano). A nova regra começou a valer em 6 de janeiro deste ano.  

Além da limitação do juro, os dados de hoje também refletem uma revisão realizada na série histórica do BC. De acordo com a autarquia, os números passaram a considerar o fato de alguns bancos cobrarem juro no cheque especial apenas após dez dias de atraso no pagamento da fatura. Antes, era considerado todo o período de atraso. Esta mudança fez com que o nível do juro no cheque especial, na nova série histórica, fosse menor em anos anteriores.

Os dados divulgados pelo Banco Central mostraram ainda que, para aquisição de veículos, os juros foram de 19,5% ao ano em maio para 19,0% em junho.

A taxa média de juros no crédito total, que inclui operações livres e direcionadas (com recursos da poupança e do BNDES), foi de 20,5% ao ano em maio para 19,3% ao ano em junho. Em junho de 2019, estava em 24,8%.

Já o Indicador de Custo de Crédito (ICC) caiu 0,5 ponto porcentual em maio ante junho, aos 18,7% ao ano. O porcentual reflete o volume de juros pagos, em reais, por consumidores e empresas no mês, considerando todo o estoque de operações, dividido pelo próprio estoque. Na prática, o indicador reflete a taxa de juros média efetivamente paga pelo brasileiro nas operações de crédito contratadas no passado e ainda em andamento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Brasileiros ficam com R$ 271 bi em dinheiro em espécie, 29% a mais do que antes da pandemia

Segundo o Banco Central, o aumento de fevereiro para junho foi causado pela liberação do auxílio emergencial mensal de R$ 600

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 14h49

BRASÍLIA - A crise provocada pelo novo coronavírus elevou a demanda dos brasileiros por dinheiro em espécie. Dados divulgados nesta quarta-feira, 29, pelo Banco Central mostram que de fevereiro - antes da pandemia - para junho o papel moeda em poder do público (PMPP) saltou 29%, de R$ 210,2 bilhões para R$ 270,9 bilhões. Esse é o maior valor da série histórica do BC, iniciada em dezembro de 2001.

O movimento chama a atenção por ocorrer em um momento da história econômica em que os países têm elevado as iniciativas para uso da tecnologia em transações comerciais - o que reduz a necessidade de papel moeda. Com a pandemia, porém, o cenário mudou: um montante adicional de R$ 60,672 bilhões em cédulas está em circulação no Brasil.

De acordo com o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, o aumento do papel moeda nas mãos do público nos últimos meses foi causado pela demanda da população com a liberação do auxílio emergencial mensal de R$ 600 pelo governo, durante a pandemia de covid-19.

“Se a população tem demanda por papel moeda, a função do BC é sancionar essa demanda. Se a população tem maior demanda por cédulas e moedas, o BC oferta. Se não fizer isso, haverá falta de numerário. Se a demanda cai, uma parcela disso é recolhida”, explicou Rocha.

Os dados do BC mostraram ainda que os depósitos à vista - recursos que estão nos bancos - também subiram de fevereiro para junho, em 25,3%. O montante total passou de R$ 199,681 bilhões para R$ 250,112 bilhões. O avanço indica que parte da população que recebeu auxílio do governo não sacou os recursos em espécie, mas sim manteve o dinheiro dentro do sistema financeiro.

Em meio à busca por dinheiro em papel na crise, o Ministério da Economia confirmou em 22 de julho que o BC já solicitou ao Conselho Monetário Nacional (CMN) um reforço de R$ 437,9 milhões para atendimento do meio circulante. Com estes recursos, será possível elevar em R$ 100 bilhões a emissão de cédulas pela Casa da Moeda.   

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.