No ABC, montadoras cedem à pressão

Reajuste será de 6,53%, o maior do País este ano

, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

A mobilização de uma das categorias mais emblemáticas do Brasil, a dos metalúrgicos, não enfraqueceu com a crise. Ao contrário. Apesar de fazerem parte de um dos setores mais afetados pela economia mundial, os trabalhadores, arregimentados pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, têm nas últimas semanas parado a produção para brigar por aumento salarial. Ontem, uma parte deles conseguiu fechar o melhor acordo salarial do País deste ano.

Os metalúrgicos que trabalham nas montadoras terão um reajuste de 6,53%, retroativo a 1º de setembro - 4,44% referente ao Índice Nacional de Preço ao Consumidor (INPC) do período e 2% correspondem ao aumento real. Além disso, os trabalhadores receberão R$ 1,5 mil de abono em 25 de setembro. O sindicato informou também que a Volkswagen iniciou processo de seleção para empregar cerca de 200 trabalhadores. Os selecionados devem começar a trabalhar até o dia 21 de setembro. As contratações ocorrem por conta do aumento da demanda e da preparação para novos lançamentos.

As outras subcategorias, como autopeças e fundição, não aceitaram a oferta patronal, que não previa aumento real, apenas a reposição da inflação, e voltarão à mesa de negociação na quinta-feira.

Às 10h20 da manhã de ontem, havia nos arredores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de acordo com a entidade, cerca de 10 mil trabalhadores reunidos para avaliar as propostas patronais.

Os metalúrgicos não abandonaram a tradicional orientação política construída ao longo das últimas quatro décadas. Foram às ruas para explicitar a ameaça de greve por tempo indeterminado.

Na quinta-feira passada, um dia antes da mesa-redonda entre sindicatos patronais e de trabalhadores, também por volta de 10 mil metalúrgicos pararam a produção da Ford e Mercedes-Benz, como uma forma de advertência. Nem a garoa teimosa tirou o ar decidido do grupo, que marchou cerca de um quilômetro pela Avenida 31 de Março com cartazes empunhados, chacoalhados a cada palavra de ordem dos líderes sindicais.

Foi nesse clima que o Estado conversou com alguns metalúrgicos. "Já passamos por crises piores nos anos 80. Agora, mesmo não sendo um período pra se comemorar, é bem mais fácil negociar", disse o montador da Mercedes-Benz Antônio Donizete de Paula. A montadora não voltou ao ritmo normal de atividade. Ainda assim, Donizete e os companheiros de linha de produção Paulo Pereira e Amilton Aparecido dos Santos não arredaram pé da passeata.

José Carlos Caetano, de 54 anos, 29 na Mercedes, não tinha dúvida: "A crise está passando. E uma negociação para ter sucesso depende de mobilização". O operador José Ricardo Moura disse que a produção ainda baixa em algumas empresas não é fator de inibição das manifestações. "O pessoal aqui é unido, com crise ou sem. Se o patrão pressionar alguém por causa das mobilizações da categoria, todo mundo para."

Funcionário da Mahle há 20 anos, o operador de máquina Manuel de Carvalho Cordeiro disse que a categoria não devia abrir mão do pedido de aumento real. "Não é porque o mundo passou por uma crise que os preços deixaram de aumentar. Só com a reposição da inflação a gente fica como? Outro dia fui comprar um botijão de gás e o preço subiu de R$ 35 para R$ 41."

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